Vinhedo & Sorocaba: Longa viagem em busca do sonho

Robionson, á esquerda, e Paco são entrevistados pelo repórter Adalberto Neto

Para se tornar um ator, o caminho é o seguinte: pegar uma estrada de mais ou menos 500 quilômetros; levar de seis a oito horas nessa viagem de ônibus, com direito à baldeação; chegar à outra cidade ainda na madrugada e ter de esperar o dia clarear para seguir ao destino final, livre de perigo; ficar zanzando pela rua por um longo período só para matar o tempo; e ainda ser chamado de louco por parentes e amigos por essa… Loucura!

Há outras maneiras de se chegar “lá”, mas é por tudo isso que passam dois alunos do curso de interpretação da Casa Aguinaldo Silva de Artes (CASA), Paco Rodrigues e Robinson Marques, para realizar o seu sonho: saem do interior de São Paulo na noite de domingo para ter aula na segunda, na turma das 19h, no Theatro Net, em Copacabana.

Paco é farmacêutico, mora em Vinhedo sozinho e, durante dez anos, deu expediente numa drogaria do município. No trabalho, cumpria uma escala pesada, de segunda a domingo, com raríssimos dias de folga. Na vida pessoal, viu seu casamento se afundar, perdeu momentos importantes da infância da filha, Larissa, hoje com 10 anos, e deixou de lado a carreira de ator. Quando leu numa matéria de jornal, no ano passado, que o autor Aguinaldo Silva abriria um curso de interpretação, essa foi a senha para ele dar um novo rumo a sua vida.

E o pontapé inicial foi deixar o trabalho. Para ter tempo de se dedicar ao curso, montou uma pequena empresa de purificadores de água com um amigo, com quem negociou as segundas-feiras livres para poder viajar para o Rio. Em troca, ele trabalha às sextas sozinho para dar folga ao sócio.

“Minha mulher se separou de mim há três anos, porque quase não me via em casa. A drogaria me tomava muito tempo e, infelizmente, isso desgastou a relação. Às vezes a solidão bate, mas, no momento, essa minha busca para alcançar um sonho tem me preenchido, e isso me faz bem”, conta.

Já Robinson é formado em marketing, mora em Sorocaba com a mãe e um irmão. Há alguns meses, foi dispensado da empresa em que trabalhava, sob justificativa de que a crise financeira do país era a responsável pelo corte de funcionários. Com esse limão que a vida lhe deu, mais o dinheiro da indenização recebido, um empréstimo no banco e muita força de vontade financiou um caminhão usado e passou a prestar serviço de frete para uma distribuidora de tintas por todo o Estado de São Paulo. E fez sua limonada.

Mas quando leu no perfil do Facebook do ator José Negreiros uma publicação sobre o curso de interpretação da CASA, resolveu que a vida poderia ser ainda mais doce se largasse tudo e fosse atrás do que sempre quis fazer como profissão. Para ter certeza de que essa seria a decisão certa a tomar, desafiou a própria fé.

“Como não tinha dinheiro para pagar o curso e viajar toda semana para o Rio, falei para Deus: ‘se eu conseguir vender o caminhão a tempo de fazer a matrícula, é porque tenho que ir’. Três dias depois de anunciá-lo em sites gratuitos, um comprador entrou em contato comigo e a coisa deu certo”, lembra ele, que também é pai de Gabriella, de 17 anos, mas não tem contato com a filha. “Pago pensão, mas não a vejo. A mãe dela não aceitou o término do namoro e por isso não me deixa ter contato com a menina desde seus oito meses. Já tentei me aproximar da Gabi por meio da Justiça, mas esse processo é muito lento. Optei, então, por abrir mão. Quando ela fizer 18, se quiser me conhecer, vou recebê-la com o maior carinho. Já sofri muito, mas não posso deixar a vida parar”.

Desde março, a dupla de Vinhedo e Sorocaba se diverte durante as longas horas, em que aguardam para a aula de interpretação. E o que não falta é história para contar.

“Sempre que saímos do curso, passamos numa padaria, compramos alguns pães, queijo e uma Coca. Geralmente, deixamos para comer enquanto esperamos o ônibus das 23h40m para São Paulo. Mas, outro dia, com a barriga roncando, não conseguimos esperar e decidimos comer durante o trajeto para a rodoviária. Quando abri a garrafa, o motorista do coletivo passou com tudo por uma lombada, o refrigerante caiu no chão e, com a pressão do gás, o líquido espirrou no veículo inteiro. Tivemos que tomar uma chuveirada no terminal e, por isso, só conseguimos viajar bem mais tarde”, recorda Paco.

Mas a experiência na cidade também tem seu lado bom. Graças às amizades que fizeram no curso, não precisam mais ficar vagando por Copacabana até o horário da aula.

“Quando soube que ficávamos pelas ruas, o (Francisco) Patrício (da equipe da CASA), colocou a nossa disposição o Theatro Net, onde costumamos fazer hora até horário do curso. Também temos ficado no apartamento da Márcia, uma amiga da nossa turma que mora no bairro e, gentilmente, ofereceu sua casa para tomarmos banho e relaxarmos um pouco. Mas como não conseguimos ficar parados, fazemos comida, pregamos quadro na parede e saímos para resolver problemas de banco com ela. O Rio de Janeiro nos recebeu de braços abertos, como a estátua do Cristo Redentor. Está sendo maravilhoso ”, afirma Robinson.

Quando chega em Vinhedo, na terça pela manhã, Paco vai direto para o trabalho e volta a sua vida real. Já Robinson, em Sorocaba, antes de retomar sua rotina, descansa um pouco e, em seguida, ajuda sua mãe nos serviços de casa. Ao longo da semana, eles só torcem para a noite de domingo não demorar a chegar e, assim, recomeçarem a aventura até o Rio.

“Aprendemos a gostar dessa peregrinação, que nossos parentes e amigos criticam. Tudo que vivemos até chegar à aula maravilhosa da Julia (Carrera, professora de interpretação da CASA) só reforça o que realmente queremos para a nossa vida. Temos certeza que isso vai dar em alguma coisa. Nem que seja na formação da dupla sertaneja Vinhedo & Sorocaba”, brinca Paco.

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