ACERTE NA LOIRA – um conto inédito de Aguinaldo Silva

Acerte na Loira

Um Conto

De Aguinaldo Silva

Ela já nasceu loira. E assim continuou, naturalíssima durante toda a vida, mesmo após chegar à idade em que as mulheres, não sem certa amargura, são obrigadas a reconhecer e tornar público que devem a cor dos seus cabelos às tinturas. Ao fazer sessenta anos, parou de se preocupar com a inevitável passagem do tempo. Decidiu que nunca mais faria aniversários, e assim não ultrapassaria a perigosa fronteira entre a decência e a velhice. Já então ficara viúva de quatro maridos, todos com as mesmas características: eram muito ricos quando casaram com ela e tombaram vítimas de mortes suspeitas. Isso lhe valeu o apelido criado pela mídia e que passou a ostentar com um secreto orgulho – além de a Loira ela se tornou também aViúva Negra. 
Se foi ou não responsável pela morte dos maridos, como dizem os maledicentes sem conseguir disfarçar o gozo, é mistério a ser desvendado pela polícia e talvez por nós nos apontamentos que se seguem, os quais comprovam que se a vida é uma loteria nossa Loira é mesmo uma sortuda, pois acerta sempre sem que ninguém consiga acertar nela.
Além da fama de implacável predadora, alguns processos na justiça, uma prisão temporária e uma condenação por homicídio depois anulada, as mortes dos maridos ricos lhe renderam muito dinheiro. Assim a Loira, agora também Viúva Negra, pode tomar seu avião particular e se dar ao luxo de mudar de casa, de país ou de continente sempre que lhe der na telha, ou quando algum dos processos de homicídio a ela atribuídas por alguma razão espúria voltam a ser notícia. Não que precise fugir por conta de algum deles – e se precisasse não o faria. Mas, como ela mesma diz: apenas porque nestas ocasiões precisa ficar recolhida para melhor se proteger da acidez venenosa da mídia e do ódio dos que lhe cuspiriam na cara e a chamariam de assassina se pusesse os pés dentro de um avião de carreira.
Sim, porque, mesmo que a cada marido morto se tornasse cada vez mais rica, e nos inquéritos sobre essas mortes acabasse inocentada em todas as instâncias, a Loira nunca conseguiu se livrar de dois caçadores implacáveis para os quais, fosse qual fosse o veredito da justiça, ela seria sempre culpada: a mídia e o promotor João de Deus Fialho, aquele que de vez em quando desencavava um dos seus processos e o transformava de novo em notícia; o homem austero e íntegro que, palavras dela, a escolhera para lhe dedicar todo o seu tempo e assim, se ela fosse mesmo uma assassina, um dia ser sua vítima.
Por maior que fosse sua fortaleza sempre que falava de Fialho seus lábios fremiam. Não que o temesse. Quando perguntada sobre o modo obsessivo como o promotor lhe dedicava boa parte do seu tempo de servidor público, ela respondia, após uma pausa dramática: “ele decidiu me entregar a própria alma”. E quando dizia isso Arlete Siqueira – o nome de solteira que ela não mudara nas cinco vezes em que fora casada – para muitos não estava longe da verdade. Sim, o promotor a perseguia, digamos assim, obsessivamente. E sim, ele tinha certeza de que um dia conseguiria provar um dos seus crimes de forma irrefutável e depois disso os outro também lhe seriam atribuídos em cascata.
Arlete já enfrentara o Promotor Fialho várias vezes em interrogatórios a que ela se submetera por vontade própria e à revelia dos seus advogados. Nessas ocasiões, em que se digladiavam como dois espadachins de séculos passados presos um ao outro por conta de um duelo interminável, a Loira sentia uma certa tensão sexual no promotor que a deixava sempre excitada, porém jamais confusa. Por mais que o embate entre eles fosse em clima dúbio a Loira nunca perdia de vista o fato de que aquele era seu maior inimigo e que, se demonstrasse fraqueza, ele seria implacável. Por isso o enfrentava como se a continuação de sua vida dependesse de cada vírgula usada entre as palavras que lhe dissesse. E, após tantas mortes suspeitas e as muitas explicações que tivera de dar por conta de cada uma delas, Arlete sabia melhor que ninguém como ser evasiva. Quando se via quase acuada por Fialho, era pelo caminho da evasão que fugia. Mas fazia isso sem nunca deixar de ser fria e objetiva.
“Fria como uma navalha esquecida dentro de um balde de gelo”: Era assim que Fialho a definia, pois, competente na profissão, era péssimo nas ocasiões em que, ao escrever seus relatórios, se imaginava um Graciliano Ramos e se deixava levar pela baixa literatura. Solteirão – “porque nenhuma mulher me atura” – especialista em direito penal e literatura policial de segunda classe, de conduta ilibada, com a existência regida por tudo que está sacramentado nos Códigos (mas não na vida), O Promotor João de Deus Fialho era um homem discreto e íntegro. Por isso, sempre que se lembrava de Arlete (o que acontecia com frequência) e dava um jeito de reabrir um dos processos que não tinham provado nada contra ela, jamais confessava a si mesmo que assim o fazia porque já sonhara em tê-la esmagada sob seus pés, ou nua e amarrada numa cama, não: o que ele queria era “fazer justiça”. 
E neste caso o que seria justo? Provar que a Viúva Negra fora responsável pelas mortes dos maridos. Isso lhe permitiria coloca-la no lugar “onde já deveria estar há muito tempo” – na penitenciária, palavra que nos remete com toda rapidez possível a uma outra que é: martírio.
Teria o promotor João de Deus Fialho razão? Era o que se perguntava a mídia sobre o famoso “caso da Viúva Negra” a cada reabertura de um dos seus processos. Afinal quatro maridos mortos em circunstâncias trágicas era coincidência demais na vida de uma mulher, coincidência ainda maior porque todos eles tinham a mesma característica – eram prodigiosamente ricos. 
E no entanto… 
A única vítima mortal comprovada e confessa de Arlete – se é que se pode classificá-la como tal sem ser injusto – não foi um marido, mas o melhor amigo do primeiro deles. Foi por causa deste crime, o único reconhecido pela Loira, que ela foi parar na cadeia, onde poderia ter ficado não fosse o empenho e o dinheiro do consorte. Este aceitou a versão da esposa segundo a qual o amigo se aproveitara da ausência dele para invadir a casa dos dois e tentar estuprá-la; razão por que, “em legítima defesa”, ela lhe dera cinco tiros, “e se mais não dei foi porque a arma não tinha mais balas”.
O marido, chocado com a atitude canalha do amigo, não deixou de defendê-la nem mesmo quando surgiram evidências de que na verdade o outro aproveitara a ausência dele e fora à sua casa romper o caso secreto que mantinha com sua esposa. Arlete, que estaria apaixonada pelo amigo do marido, não aceitara o rompimento. Por isso pegou a arma que estava numa gaveta, lhe deu o primeiro tiro durante a discussão e os restantes quando ele tentava sair de sua mira ainda com vida. 
Esta versão, que motivou a única prisão da Loira e sua passagem pelo banco dos réus, surgiu a partir do depoimento de uma ex-criada. Mas essa fora demitida pela acusada “por justa causa” dias antes do crime e não tivera direito sequer a um tostão furado. Por isso o seu depoimento, “fruto do ressentimento e da vingança” como frisaram os advogados de defesa, foi de tal modo posto em causa por estes que ela acabou desmoralizada e processada por falso testemunho enquanto Arlete foi absolvida. 
Poucos meses depois o marido, fiel defensor da esposa ultrajada, se matou com um tiro quando estava sozinho em casa, segundo Arlete “por não conseguir superar a traição do amigo e o escândalo que resultou tudo isso”. Inconsolável no enterro, dias depois a viúva não piscou sequer um cílio quando o advogado do morto lhe informou que, além da fortuna aqui no Brasil, ele lhe deixara alguns cofres abarrotados de dólares em contas secretas num dos bancos da Suíça.
Neste julgamento houve o primeiro embate entre a futura Viúva Negra e João de Deus Fialho, já que ele atuou na acusação. Depois que ela foi absolvida – matara sim, concordou o júri e o juiz, mas “em defesa da honra”-, o então jovem promotor impetrou todos os recursos possíveis na tentativa de conseguir a reabertura do caso. Mas todos foram recusados.
Enquanto Fialho sofria seguidas derrotas nas várias instâncias da Justiça em sua tentativa de reabrir o caso da futura Viúva Negra, seis meses se passaram e, ao fim destes, Arlete já estava casada de novo. O segundo marido, proprietário de uma rede de supermercados com penetração em todo o Sudeste brasileiro, era cem vezes mais rico que o primeiro. Mas toda esta riqueza não foi suficiente para que ele sobrevivesse muito tempo ao casamento ou, melhor dizendo, a um sequestro que Fialho considerou “rocambolesco”. No décimo mês de vida em comum com Arlete, separado dela durante quarenta dias e sem que a esposa se decidisse a pagar o resgate ele foi morto pelos sequestradores no cativeiro.
A razão para que Arlete não negociasse a libertação do marido com os sequestradores – que nunca foram presos ou identificados – foi dada por ela à imprensa de modo simples e direto:
“Nunca se deve negociar com bandidos”.
Esta sua intransigência, sibilaram as más línguas, é que resultou na morte violenta do segundo marido. Tanto que talvez tenha o remorso que a fez derramar muitas lágrimas durante o enterro dele. Mas, de novo, quando os testamenteiros lhe disseram qual era o real tamanho da fortuna do dono de supermercados ao qual unira sua vida ela não crispou um músculo do rosto e não piscou sequer um cílio. Apenas saiu dali direto para o aeroporto, onde tomou o primeiro avião para a Suíça e lá foi tomar posse das joias que o marido guardara depois de resgatá-las de um primeiro e malfadado casamento. 
Desta vez foi ainda mais difícil para o Promotor João de Deus Fialho acusa-la de alguma coisa, já que se tratara de um sequestro testemunhado por várias pessoas à saída de um dos supermercados da vítima. Meses depois apareceu um cidadão que disse ter participado do crime na qualidade de carcereiro e acusou Arlete de ter planejado tudo com seus cúmplices. Mas estes, mesmo identificados por ele, nunca foram encontrados. E isso, além do fato de que em sua versão do sequestro havia muitas peças que não se encaixavam, acabou por desacreditá-lo. O caso acabou por ser arquivado. E o delator, dado como louco, está internado até hoje no hospício.
Em vez de sair correndo atrás de um novo marido a Loira desta vez preferiu guardar o luto. Ficou mais de um ano solteira até que um novo pretendente invadiu seu coração, sua vida e sua casa, mas não o seu cofre, pois ele, tal como os outros, era muito rico. Dizia-se negociante. Mas depois de sua morte – já direi em que circunstâncias – descobriu-se que era um comerciante, sim, mas de armas ilegais. Ele as vendia, sem o menor remorso, primeiro para guerrilheiros então em plena atividade nos vários países do Cone Sul e depois, quando estes foram todos mortos, para seus substitutos naturais – os narcotraficantes.
Não é preciso dizer que Arlete ficou chocada quando os negócios do marido foram revelados. Recortes de jornais da época a mostram com um ar de absoluto espanto em fotos cuja legenda é, com ligeiras variações, a mesma frase: “eu não sabia”! E mais chocada ainda ficou quando ele, sob prisão domiciliar depois de pagar uma fortuna aos advogados que o tiraram da cadeia, tropeçou na escadaria da mansão em que viviam, rolou pelos degraus alcatifados e foi quebrar o pescoço lá embaixo. 
Onde ela estava enquanto essa tragédia transcorria? No seu banho diário de espuma, como testemunhou a criada que nessas ocasiões ficava com ela para esfregar suas costas. Foi por causa do barulho da água, que jorrava sem cessar da torneira de prata, que elas não ouviram nada. E como esses banhos de espuma de Arlete duravam horas, as duas só foram achar o morto quando seu corpo já estava frio.
Dessa vez ela chorou mais que das outras. No velório, na cerimônia de cremação do defunto e principalmente na reunião em que os advogados lhe disseram que toda a fortuna dele estava bloqueada pela Justiça. Chorou até mesmo quando confidenciou a algumas amigas que o morto era bom de cama, aliás, não apenas bom, mas ótimo, melhor que qualquer outro dos seus ex-maridos. Mas não chorou quando os advogados lhe comunicaram que, depois de procurar as pessoas certas e gratificar todas elas, conseguiram que os bens bloqueados fossem entregues a quem de direito, ou seja, à viúva.
A morte de Danton – era este o improvável nome do traficante de armas – afetou a Loira mais que as outras. Tanto que, no começo de uma depressão, ela acabou por procurar uma psicanalista de formação lacaniana, a qual a maltratou enquanto pôde para que revelasse de que modo tinha sido abusada pelo pai. A teoria dela – que a Loira sempre considerou absurda – era que tudo de ruim que acontecia com os homens que se atravessavam no seu caminho tinha como motivação seus desejos subjetivos de expiação e vingança contra o primeiro homem de sua vida.
O modo como a psicanalista lacaniana tentava conspurcar as relações de Arlete com o pai fizeram com que numa das sessões esta lhe dissesse poucas e boas (todas impublicáveis) e abandonasse o tratamento. Na saída do prédio em que ficava o consultório da doutora a indignação talvez – ou o jejum a que então se submetia para perder alguns quilos – lhe provocou uma tontura. Para não cair, ela apoiou a mão num poste. E, quando a tontura passou e ela pode afinal retirá-la, viu que a pousara sobre o anúncio no qual uma certa Mãe Gertrudes de Ossanha se apresentava como “aquela que tudo vê, tudo sabe e tudo pode”.
No meio de uma crise emocional séria, porém disposta a fugir de qualquer tratamento mais convencional, de modo um tanto ou quanto alucinado Arlete viu naquele anúncio uma possível saída para seus males. Ah, poder se abrir com alguém, contar tudo que realmente lhe acontecera nesses anos todos de infortúnio sem que o ouvinte, horrorizado com o que ouvira, ligasse na mesma hora para a polícia e a denunciasse… Como ela ansiava por este confidente bondoso. Mãe Gertrudes podia ser esta pessoa – foi o que lhe disseram naquele exato instante, num coro celestial, todos os mortos de sua vida pregressa, com os quais – sim! – de vez em quando ela conversava. Assim, depois de anotar o endereço daquela que tudo vê, tudo sabe e tudo pode chamou o primeiro táxi, ordenou ao motorista que a levasse até lá, e quando ele a alertou – “é muito longe” –, ela lhe disse: 
“Não se preocupe, eu pago em dobro”.
Sim, porque ela sabia quando era preciso deixar para trás qualquer mesquinharia e pagar o que o produto valesse. Foi o que fez depois de atravessar meia Baixada Fluminense e adentrar a sala minúscula na qual Mãe Gertrudes atendia: resolveu que também lhe pagaria em dobro. Pois a vidente, de costas para ela e ainda sem vê-la, mal percebeu que ela entrara e já lhe disse: “atrás de você tem uma fileira de mortos”. E, depois de se virar e a encarar de cima abaixo com o olhar de quem tudo vê, tudo sabe e tudo pode profetizou: “e em breve haverá outro”.
Era disso que Arlete precisava. De alguém que visse tudo que acontecera ou ainda estava por acontecer em sua vida sem recriminações ou julgamentos. Mãe Gertrudes, antes mesmo de olhar para ela, vira e ouvira tudo… E de bônus ainda previra seu futuro, aliás muito próximo. Pois ao sair dali após algumas horas, sem saber onde acharia um táxi naquele fim de mundo, depois de andar durante muito tempo até perder completamente o prumo e o rumo, viu uma possante BMW parar ao seu lado. E, ao ouvir o motorista lhe perguntar se queria uma carona, tal como Mãe Gertrudes a ajudaria a fazer nos próximos anos soube e viu que o dono daquela voz era um homem muito rico, seria seu quarto marido e em breve estaria morto.
Mas, ansioso por chegar ao final das minhas considerações sobre a Loira, estou me antecipando. Antes devo dizer que a ligação entre ela e Mãe Gertrudes com o tempo se tornou visceral. A tal ponto que a vidente foi promovida a sua conselheira exclusiva e passou a ver, ouvir e poder apenas para ela. Pela exclusividade a Mãe lhe exigia muito – às vezes quase o impossível. Mas Arlete nunca lhe negava nada, pois Gertrudes nunca errou ao lhe dar um conselho ou prever quais seriam as próximas peripécias que lhe reservara o futuro.
Numa dessas vezes ela lhe anunciou que seu quarto marido já aparecia na fileira de cadáveres que perambulava atrás dela embora ainda estivesse vivo. E assim Arlete soube que já passara da hora: aquele homem com quem casara pela quarta vez, tão gentil que fora capaz de lhe confiar as senhas de suas contas no exterior – “para o caso de me acontecer alguma coisa”, lhe dissera – em breve seria mais um na sua pranteada lista de maridos falecidos.
O nome dele era Josué. Porem nessa história o profeta era outro, ou seria melhor dizer outra. Pois Mãe Gertrudes fora capaz de prever com extrema precisão a hora exata em que ele partiria deste para o outro mundo quando seu coração parasse de bater de modo rápido e misterioso. Fialho, que a essa altura também investigava a vidente por considerar suspeita sua ligação com Arlete – ele dizia que as duas tinham se tornado “unha e carne” – deduziu que tal causa mortis, para os peritos inexplicável, só poderia ser atribuída à ingestão pelo morto de alguma poção maléfica. Mas a necropsia, os exames toxicológicos e toda a parafernália que os legistas aplicaram no cadáver se revelaram inúteis. A única conclusão possível foi que o coração dele parara. E foi isso que constou no atestado de óbito: o morto sofrera uma parada cardíaca e ponto.
Mais uma vez Arlete pranteou seu morto o quanto pôde. E só depois que suas lágrimas secaram partiu rumo ao pouso seguro de sempre: a Suíça, ou mais precisamente Genebra, onde a essa altura tinha uma casa, e onde o morto mantinha contas às quais, num momento de desvario romântico, lhe dera pleno acesso. O que ela encontrou lá só Mãe Gertrudes soube. Mas posso lhes garantir que foi muito. Tanto que, depois de transferir o que era do morto para o seu nome, ali mesmo, no salão de cofres onde só em joias ela já tinha uma espantosa fortuna, fez uma promessa a si mesma:
“Chega de casamentos. Nunca mais quero saber de homens na minha cama”.
Mas esta foi uma daquelas juras feitas para não ser cumpridas. Pois ela já sabia, através das infalíveis previsões de Mãe Gertrudes que algum dia um certo homem deitaria, na qualidade de marido, em sua cama. Seu nome era João de Deus Fialho, notório e eficiente promotor público. E como os outros ele também acabaria morto. Portanto, até lá seria melhor não perder a prática. E para isso, tal como o pianista genial que todos os dias dedilha durante horas as teclas do seu piano, era preciso continuar treinando. 
Foi assim que, quando a certa altura cruzou seu caminho um gentil e muito rico velhinho de 84 anos chamado Eufrásio, apesar de sua jura em contrário a Loira acabou casando de novo. É ele quem está agora lá em cima num quarto de sua mansão, com a saúde seriamente abalada, enquanto ela aqui embaixo se prepara como se fosse uma sacerdotisa minutos antes de um ritual. Pois está na hora de levar para ele um certo, santo e milagroso remédio que a certa altura o levará a ocupar seu posto na fileira de mortos que, segundo Mãe Gertrudes, a segue como se fosse o seu invisível e invencível exército de maridos eternamente fiéis.

 

Fim

10 thoughts on “ACERTE NA LOIRA – um conto inédito de Aguinaldo Silva”

  1. Andreza says:

    Adorei. Aguinaldo Silva Meu sonho é te conhecer meu número é esse 974291899

  2. ANTONIO GUEDES ALCOFORADO says:

    Conto inspirador, forma e conteúdo. Rápido no gatilho, pega o leitor na gênese numa crescente e elevada temperatura. Aguardo novos contos proximamente.

  3. Alexandre Félix says:

    Aguinaldo como sempre se faz ouvir estrondosamente audível nos textos que escreve. A marca do autor e suas intencionalidades no texto deixa muito claro o que esperar da narrativa. Por se saber que Aguinaldo é “capaz de tudo quando dá forma às vidas de suas personagens”, espera-se sempre aquilo que lhe distingue dos demais autores: seu áspero suave veneno. Isso não é crítica. É elogio!

  4. Ramon Araújo says:

    Sensacional o texto Acerte na Loura. Eu fico imaginando passo a passo, toda trama que à personagem viveu neste conto. Acerte na Loura, (gosto também do título, O Santo Remédio.) Só lamento, nunca ter atuado em uma de suas criações. Um forte abraço, e aguardo outros textos.

  5. Alex Spinola says:

    Mãe Gertrudes vaticinou o gancho para a próxima temporada.

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  8. Marta Plimpton says:

    Quero matricular minha filha no Curso de Atuação do Aguinaldo. Ela tem 10 anos. Como devo proceder?

    INTERVENÇÃO DO SOMBRA: POR FAVOR, ESTEJA ATENTA À ABERTURA DAS MATRÍCULAS, QUE VAI ACONTECER NO DECORRER DO MÊS DE JANEIRO.

  9. Maria dos Anjos Maciel says:

    Adorei as dicas para esta semana. Quanto aos vendedores de loja, tem uns que parecem estar pedindo para ser maltratados, de tão antipáticos. Mas eu sempre procuro me conter e ser bem educada, você tem toda razão.

  10. Severino Ramos Barbosa says:

    Aposto que quem empurrou o caso da loira de escada abaixo foi o fantasma da Nazaré Tedesco. Qualquer dia desses, ela ressuscitará.

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