Comendo longe de casa

 

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Dentre meus planos para os próximos cem anos está uma velha ideia, cuja realização venho adiando há pelo menos uma década: escrever um livro chamado Fome de Viagem, no qual contaria algumas peripécias gastronômicas ou relacionadas com restaurantes pelas quais passei durante minhas viagens.

Claro que, nestes dez anos de plano não concretizado, a ideia foi se modificando. O livro ainda começa na década de 70 – na noite em que sentei ao lado de um suposto Aristóteles Onassis num restaurante. Mas a ele fui acrescentando dados de viagens mais recentes nas quais de vez em quando tive como vizinhos de mesa celebridades ainda vivas, como aconteceu com oator Dustin Hoffman.

Estava eu em Nova Iorque e ia ver justamente uma peça com Hoffman. Tivera um dia intenso, estava com muita fome, e por isso resolvi jantar num restaurante em frente ao teatro. Àquela hora ele estava mais para o vazio. Mas o maitre me encaminhou para uma mesa situada ao lado de outra já ocupada. Sentei, disfarcei, olhei meu vizinho de mesa e levei um susto: era o próprio Dustin Hoffman.

Pensei em mil e um jeitos de puxar conversa. Mas o ar de poucos amigos do ator não deixou dúvidas: se eu tentasse fazer contato ele seria grosso. Assim jantamos os dois, um ao lado do outro,mas separados por um oceano de frieza. Ele acabou primeiro, levantou, foi embora. E exatos quarenta minutos de novos estávamos juntos de novo, eu na plateia e ele no palco onde vivia “A Morte do Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller.

Outra história me aconteceu em junho deste ano no mesmo restaurante – o Sardi´s–e foi uma daquelas que nos matam de vergonha. Entrei lá todo pimpão e, guiado pelo maitre, fui sentar no local por ele indicado. Mas, ao fazê-lo, pisei na toalha da mesa ao lado que ia até o assoalho; meu pé se enroscou nela e, quando tentei me desvencilhar, levei ao chão a toalha e tudo mais que estava sobre ela.

O  restaurante inteiro se voltou para me olhar e eu tive a única reação que me veio à cabeça: comecei a rir loucamente, como se aquilo não passasse de uma brincadeira. Após o que sentei no meu lugar – enquanto uma brigada de garçons limpava o estrago que fiz em questão de segundos – e ordenei ao maitre, que me olhava com ar de censura:”uma taça de champanhe… E rápido!

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Mas estas aventuras em restaurantes não ocorrem apenas durante as viagens. Uma delas aconteceu numa churrascaria da Barra da Tijuca. A casa estava quase lotada e ao meu lado tinha uma mesa reservada para um grupo. Era verão e o ar condicionado fora ligado no máximo. Estava eu a meio da refeição quando entrou o tal grupo e eu reconheci seu líder: era um então vereador, hoje deputado (de esquerda), que entrou falando ao celular e fo idireto para o banheiro. Uma senhora que o acompanhava chamou o maitre e ordenou:”está muito frio. Desliga o ar condicionado”.

Diante de uma ordem tão enfática o maitre nem discutiu. Sacou do controle remoto do bolso e já ia obedecer quando eu, da minha mesa, gritei:”se desligar vou embora e nunca mais volto!” A senhora que dera a ordem já ia gritar: “não vai haver golpe”. Mas pessoas sentadas nas mesas próximas aderiram ao meu protesto: “é isso mesmo, não vai desligar coisa nenhuma!”

Atônito, o maitre olhou para a senhora, depois olhou para mim… E eu banquei o benevolente e disse a ele: “tudo bem, para não incomodar a madame baixa o ar… Mas só um pouco”. E ainda sorri para ela que, em resposta, me fuzilou com os olhos.Nem sei porque essa história entrou aqui, o assunto era outro. Aliás, sei sim: há muito tempo eu estava procurando um pretexto para contá-la e não sabia como.

4 thoughts on “Comendo longe de casa”

  1. Duque says:

    Sou um ímã para eventualidades catastróficas Kkkkkk. Certa vez, numa consulta ao dentista, esbarrei numa caixinha e derrubei mais de vinte alicates no chão. E o pior ainda estava por vir. No átimo de recolher tudo que caiu, acabei derrubando mais um monte de alicates. Que vergonha. Nunca mais voltei lá. Kkkkkk

    1. Julielson Lima says:

      Duqueeee, bem que dizem que sagitariano é desastrado ( risos) 😀 !

      1. Duque says:

        Vai vendo July, kkkkkk.

  2. Julielson Lima says:

    Aguinaldo, qualquer história sua, por mais curta ou comum que seja , torna-se interessante com a sua narração . É aquele velho ditado: ” Não é o que você diz, é como você diz” . Eu, como colecionador oficial de livros autografados, ia adorar um livro seu recheado de crônicas gastronômicas 😀 .
    Grande abraço.
    PS:. O site tá ficando ótimo .

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