UM BONDE CHAMADO NOVELA

Marina Lima: um clássico que a gente vai escutar sempre com prazer.

“O chato de morrer é que a gente nunca mais vai ouvir as músicas de Cole Porter”.

Para quem não sabe, Cole Porter foi o maior compositor da música que hoje é chamada de standard, aquela que se ouve o tempo todo: nos elevadores, nas rádios mais tradicionais… E a frase acima foi atribuída ao jornalista Paulo Francis. Eu acho que a frase nem é dele, que a tirou de algum lugar… Mas o fato é que ela encerra uma grande verdade: o chato de morrer é que a gente deixa de fazer o que gosta.

Eu, tal como Paulo Francis, adoro ouvir Cole Porter e passei os últimos quarenta anos de minha vida a ouvir suas músicas cantadas por diferentes vozes. E não apenas em minhas casas, mas também nos hotéis, nos elevadores e nas lojas mais requintadas, onde ele é o campeão absoluto do som ambiente… Pois Cole Porter é um clássico. E o que é um clássico? É aquilo que se entranha no inconsciente das pessoas e a cada vez que ressurge parece sempre novo.

No terreno da música, aqui no Brasil, temos dois clássicos recentes: Cazuza e Marina. Esses dois vão ficar para toda a vida, sabem por quê? Mesmo que a gente ouça as músicas deles mil vezes não enjoa. E olha que não se passa um dia sem que se escute Marina ou Cazuza pelo menos algumas vezes… E todas são sempre prazerosas.

Outro cidadão que também é um clássico: Elton John. Suas canções podem ser ouvidas pelo mundo afora a cada instante e acho difícil existir alguém que não goste delas. Sua música nos embalou a todos durante os últimos trinta e cinco anos. E mesmo depois que ele se for – e nós também – suas canções ficarão para toda a vida, assim como as de Cole Porter.

Estou falando de música. Mas e a minha especialidade – as novelas? Fico pensando se alguma delas virou um clássico da televisão brasileira. Será? Fala-se muito de “Gabriela”, “Roque Santeiro”, “Vale tudo” ou “Tieta”. O problema é que essas novelas fizeram muito sucesso em sua própria época. E depois o que restou delas foi apenas a lenda.

Será que elas resistiriam a re-exibições constantes, como acontece com alguns seriados americanos? Por exemplo: quem muda de canal se estiver passando “Seinfeld”, ou “Sex and the City”, ou “Os Sopranos”? Quem se atreve a mexer no controle remoto se der de cara com o velho “Perdidos no Espaço”? Ou “Alf, o Extra-Terrestre”? São tantos os seriados da tevê americana repetidos à exaustão sem que ninguém jamais se canse deles…

Já as novelas… Seria difícil aturá-las o tempo todo, entre outras coisas por causa do formato interminável. Telenovela é sempre passageira. Igual a ônibus: a cada cinco minutos um deles passa e vai embora. Claro, alguma coisa sempre permanece. As vilãs, por exemplo: até hoje há quem fale de Odete Roitman… E doze anos depois da exibição de “Senhora do Destino”  um vídeo de Nazaré, sua vilã eterna, viralizou na internet e neste momento é visto pelo mundo inteiro sob o título de “Loura Confusa”. Mas, no terreno pouco firme das novelas, isso é raro. Eu mesmo, que as escrevo, de vez em quando me confundo – tento lembrar do nome de um determinado personagem e não consigo.

É complicado para nós autores dar real importância ao nosso trabalho sem perder de vista o quanto ele é efêmero. Ainda mais porque, quando estamos escrevendo, temos que dar tudo, ir fundo, acreditar que a novela é a coisa mais essencial de nossa existência naquele momento… E é mesmo. Afinal, quando um trabalho, vamos dizer assim, “artístico” atinge de uma vez só 60 milhões de pessoas, sim, deve ser levado a sério.

O que me serve de consolo é que, enquanto escrevo uma novela que vai reverberar no inconsciente de 60 milhões de pessoas, mas logo será esquecida, eu ouço Cole Porter… Que, este sim, é eterno. Ou vocês acham que esta canção dele, objeto do vídeo aí embaixo, algum dia vai morrer?

Sim, um dia eles (quase) cantaram juntos.

8 thoughts on “UM BONDE CHAMADO NOVELA”

  1. Wesley Vieira says:

    Ah, Aguinaldo, desculpe, mas acho que vocês subestimam demais o gênero telenovela.
    E Vale Tudo não foi reprisada no Viva e se tornou uma coqueluche? Isso é só um exemplo.
    O Canal Viva está aí arrebentando a boca do balão justamente trazendo novelas antigas, inclusive as suas.

  2. Valtair says:

    Eu também discordo. Clássicos são sempre clássicos, até em telenovelas. A novela “A Usurpadora” por exemplo é reprisada à exaustão pelo SBT e sempre é sucesso em audiência, ninguém se cansa de assistir. Senhora do Destino por exemplo, tenho certeza que assistirei tantas vezes quanto for reprisada, assim como outras várias novelas que me deixaram muita saudade.

    1. Duque says:

      Valta, li esses dias uma crítica sobre A Usurpadora. É de surpreender o grande bulício que essa novela ainda causa nos países em que é exibida. Ela já se tornou um clássico. Uma história universal jamais será esquecida.

      1. Valtair says:

        Sim. Aquela mulher que é obrigada a usurpar o lugar da irmã e transforma a vida de todos. É uma novela linda Duque. Como tantos clássicos que temos por aqui tbm.

  3. Spectro-Méier says:

    Na minha humiRde opinião, Seinfeld é o que há de melhor em termo de série. Pode reprisar 1000 vezes e continua atual e muito interessante, justamente por se tratar de uma série sobre o “nada”. E o que dizer do Chaves e Pica-pau ? Existe episódio mais clássico do que aquele que o famoso pássaro desce as cataratas num barril ?

  4. JORGE ROSSI says:

    Amo Cole Porter e Irving Berlin, mas Porter é chic demais .Ouço os dois todos os dias

  5. JOAO DARLEI says:

    E as novelinhas infantis que o sbt tá reprisando por anos já seguido e a criançada(muitos adultos) não se cansa de ver?

  6. MAGDALENA SALINAS says:

    Gosto muito de Cole Porter e Gostarei! Irving Berlin também. É gente que fica nos nossos corações para sempre.
    E George Gershwin? Maravilha!!!

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