SEGREDOS DE JOÃO DO RIO

 

Durante um “voo rasante” sobre a preciosa coleção de fotos, postais, cartas e afins do autor Aguinaldo Silva descobrimos esta preciosidade: dois postais enviados de Paris e Sintra (Portugal) por João do Rio a Felix Pacheco, político, jornalista e “imortal” da Academia, hoje mais conhecido como aquele que dá nome ao Instituto emissor de carteiras de identidade no Rio de Janeiro. O tom das mensagens escritas no postal sugere uma intimidade – até aqui insuspeita – entre os dois.

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João do Rio (na foto ao lado), para quem ainda não sabe, antes mesmo que a expressão existisse foi uma espécie de pop star carioca no início do século XX. E sua produção jornalística e literária ainda é o mais fiel retrato da vida do Rio de Janeiro em sua época, como vocês verão a seguir. (Fco. Patrício)

UM ESCRITOR E SUA

ALMA ENCANTADORA

No primeiro quartel do século XX a cidade do Rio Janeiro teve três grandes cronistas: Luís Edmundo, Lima Barreto e João do Rio. Nenhum, porém, teve a importância deste último. João do Rio (seu verdadeiro nome era João Paulo Barreto) é o historiador carioca por primazia deste início de século. Primeiro jornalista a justificar o título de “profissional”, foi pioneiro ao introduzir a reportagem na imprensa brasileira. Capaz de freqüentar ambientes díspares como: salões da elite, subir morros para constatar o dia a dia de seus habitantes, visitar presídios para entrevistar criminosos, João do Rio se aproximou mais da realidade da cidade que retratou do que qualquer outro escritor contemporâneo.

Precursor do hábito de entrevistar personalidades (até então prática incomum), em particular figuras literárias (vide o livro “Momento Literário”, de 1905), Paulo Barreto, consegue o prodígio de ter importância ímpar para a história da Literatura, do jornalismo e da então Capital Federal, a cidade do Rio de Janeiro.

Em boa verdade, “pioneirismo” é um substantivo cujo emprego é levado à exaustão quando se analisa a vida e obra de João Paulo Barreto. Primaz nos estudos antropológicos (“Religiões do Rio”, 1900), quando se desconhecia a significado do termo, foi dele o primeiro grito a condenar o belicismo alemão no eclodir da Grande Guerra de 1914 (“O Imperador Louco”).

Membro da Academia Brasileira de Letras, foi precursor do uso do peculiar “fardão”. Foi das pouquíssimas pessoas célebres de seu tempo a não ter exercido atividade no serviço público, dedicando-se com exclusividade à literatura e o jornalismo. Quanto a este último, uma curiosidade histórica relacionada com ele: em 1911, graças a um vultoso empréstimo concedido por Paulo Barreto, pode Irineu Marinho lançar o jornal “A Noite”, iniciando assim o futuro império de comunicações hoje conhecido como Organizações Globo.

Sua produção literária espalhada em livros, peças de teatro e – principalmente – na atividade jornalística é assombrosa; e nela o que se percebe, ainda hoje, é a espantosa facilidade no ato de escrever (“ao correr da pena”) reflexo da plena fluidez do seu pensamento.

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João do Rio (pseudônimo pelo qual ficou conhecido) foi uma das personalidades mais admiradas do seu tempo e, em simultâneo, das mais fustigadas. Como em toda boa estória, vilões são o que não faltam na vida de João do Rio. Quando tenta ingressar no Itamarati, tem sua recusa fundamentada pelo Barão do Rio Branco nos termos: “é gordo, amulatado e homossexual”. Humberto de Campos, escritor medíocre, estabelece-lhe perseguição feroz na imprensa, sempre visando a sua diversidade sexual. Por ironia, o autor de “A alma Encantadora das Ruas”, fruto de uma inteligência mais brilhante e de uma personalidade “encantadora” (segundo seus contemporâneos) teve destino histórico infinitamente superior. Humberto de Campos morreu esquecido e assim permanece.

Ao falecer em junho de 1921, João Paulo Alberto Coelho Barreto, teve um cortejo fúnebre sem igual: 100 mil pessoas compareceram à cerimônia, isso numa época em que a urbe carioca contava aproximadamente, um milhão de almas. Um décimo de sua população, portanto!

Não foi pouco para uma existência de 39 anos.

One thought on “SEGREDOS DE JOÃO DO RIO”

  1. Mariel Reis says:

    Muito bom texto.

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