E A LUTA CONTINUA, NÃO É?

 

José Wilker, com aquela cara de holandês, vivendo um camponês analfabeto e desdentado. Sartre e Simone passeando pelas ruas de Copacabana (na foto abaixo) como se estivessem em Saing Germain de Prés.  Sim, em 1960 como agora, vivíamos tempos interessantes.

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Eu tinha 18 anos e era jornalista. Em 1962, com a vitória de Miguel Arraes em Pernambuco (com 48% dos votos e pelos partidos PST e PCB, dois “nanicos” de então) nós, autodenominados “esquerdistas”, adaptamos nossa letra à música de uma marchinha de carnaval e saímos às ruas a cantar: “burguesia saiu da pista/a vez agora/é dos comunistas”. Dois anos depois, em 1964, foi a vez dos militares, “a mão armada da direita” botar seu bloco nas ruas e nos expulsar de lá.

Sim, eu já sofri da doença infantil do esquerdismo, que nos acomete a todos no período de crescimento, mas que, se não vai embora depois que amadurecemos, se torna um problema. Lembro dessa época na efervescente e “vermelha” cidade do Recife. Lembro do MCP, Movimento de Cultura Popular, no qual José Wilker, mesmo com sua cara de holandês, interpretava peças em que era sempre um pobre camponês explorado… E lembro de apoiar fervorosamente aquele “furacão” de liberdade, embora apenas como simpatizante, já que, por ser o que hoje chamam de gay, não era confiável para a “esquerda”. Sim, havia “gays” nos partidos de esquerda (ou “frangos”, como os chamavam em Pernambuco), mas eram todos enrustidos, supostamente casados e cheios de filhos, de preferência machos.

Antes de tudo isso, em 1960, eu, que por causa do “existencialismo” (alguém ainda sabe o que foi?) conhecia mais o mapa de Paris que o do Nordeste, vivi dias de muita agitação por conta da visita do horroroso e vesgo Jean-Paul Sartre e sua bonita Simone de Beauvoir, que se tornara feia como ele para não envergonhá-lo. Os dois (na foto com Jorge Amado, Zélia Gattai e Mãe Menininha do Gantois), vindos de Cuba e patrocinados pelos “comunistas”, fizeram um tour brasileiro que lhes rendeu uma diarréia monumental e interminável (a ele) e uma febre tifóide a ela.

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Sartre e Simone: na Amazônia (acima) eles pregaram o existencialismo para os índios e na Bahia (abaixo), com Jorge Amado e Zélia Gatai, falaram de comunismo para Mãe Menininha do Gantois (sentada).

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Sim, eram tempos interessantes… Que se agravaram em 1964 quando, repito, foi a vez dos militares botaram o bloco nas ruas e nos expulsarem de lá com grandes perdas para todos, menos para os comunistas do Partidão, que continuaram ocupando altos cargos. Lembro que aí pelos anos 70, na redação onde trabalhava no Rio, eram deles todos os cargos de comando, segundo o dono do jornal, não porque eram comunistas, mas sim porque eram grandes jornalistas – o que, reconheço e atesto, era verdade.

Repito: eram tempos interessantes nos quais não havia meio termo: ou você  era esquerdista ferrenho ou então era “fascista”. Era retrógado, reacionário, burro, golpista, inimigo do povo, em suma: era de direita. Não se levava em conta que havia um centro super-poderoso e fiel da balança, ou o fato de que a alternância de poderes é a maior riqueza da democracia, não: a esquerda tinha que ganhar todas ou as eleições eram  postas sob suspeita…

Tal como acontece hoje, quando vivemos tempos muito parecidos. Conhecidos meus estão de ressaca até agora – alguns chegaram a ficar doentes – por conta da derrota de Marcelo Freixo. Os que votaram no outro Marcelo – uma poderosa  maioria, convenhamos – são chamados de “vendidos”, “direitistas”, ou pior ainda, de “alienados”. As reclamações, agora no escorregadio e perigoso terreno da internet, são, na forma e no tom, semelhantes àquelas que, nos idos de 1960, eu e meus companheiros de “esquerdismo” bradávamos nas ruas. E quanto a mim? “Você se aburguesou” – estes conhecidos me dizem. Ou então: “virou capacho da Rede Globo”, e ainda: “vendeu sua alma ao diabo”. E eu respondo daqui, desta minha tribuna:

Não, queridos. Eu apenas amadureci. E assim descobri, acompanhando com profundo interesse as peripécias dos dois Marcelos durante a campanha, que a única diferença entre eles são os sobrenomes… Mas, ainda que se expressem de formas diferentes por conta das “religiões” que pregam, o radicalismo deles é o mesmo. E, quanto à ressaca por conta do resultado da eleição, tratem de curá-la e ir à luta, pois é disso que a cidade, o Estado e o país realmente precisam e não de uma disputa ideológica na qual perdemos todos. Afinal, outras eleições virão e nelas é sempre possível dar a volta. (Aguinaldo Silva)

7 thoughts on “E A LUTA CONTINUA, NÃO É?”

  1. MAGDALENA SALINAS says:

    Muito bem Aguinaldo. Concordo!
    Mas uma pergunta: A que Marcelos se refere? Marcelo Caetano ou Marcelo Rebelo de Sousa? KKKKKKK
    Beijo
    Magdalena

  2. Spectro-Méier says:

    Enquanto isso, um “conselho” para os americanos: CAROS AMERICANOS, VÃO EM FRENTE, VOTEM NO CARA COM VOZ MAIS ALTA, QUE ODEIA MINORIAS, AMEAÇA SEUS OPONENTES COM PRISÃO, MANDA UMA BANANA PARA DEMOCRACIA E GARANTE QUE PODE CONSERTAR TUDO SOZINHO. QUAL A CHANCE DISSO DAR ERRADO ? BOA SORTE. Assinado: povo da Alemanha.

  3. Lara Simeao Romero says:

    Eita porra!
    Arre égua!
    Trump pertinho de ganhar
    Deu no NY Times.
    Além disso os republicanos ganham no Senado.
    Onipotência republicana com Donald Trump como chefão?
    Cruzes!!!!!

  4. Lara Simeao Romero says:

    É 1h45 da madrugada agora.
    Surpresa aqui e um pouco ansiosa com a eleição lá nos States.
    Há seis meses atrás ninguém diria que o Trump tinha condições de ganhar.
    Tudo muda, tudo passa, ou não?
    Ele ainda não ganhou mas, porém, entretanto e todavia…
    Mesmo se a Hillary ganhar, a quantidade de votos para o homem do cabelo ridículo é enorme, doa a quem doer, gostem ou desgostem.

  5. Lara Simeao Romero says:

    Ai minha Deusa!
    O Trump pertinho de ganhar na Flórida!!!!!
    Os red necks do norte da Flórida todos são Trump e é o esperado. Porém será que os cubanos e cubanos descendentes votaram em peso no disgusting do Trump??? Prumodeque?
    Porque Obama apertou as mãos do Raul Castro? Eu hein!!

  6. Lara Simeao Romero says:

    Acho melhor eu deixar de escrever textos com tantos pontos de exclamação e ir dormir.
    O States vão continuar sendo os States, eu vou continuar feliz aqui no Paraguai e o Brasil vai continuar sendo meu adorável e ao mesmo tempo reprovável Brasil.
    Não vai ser um homem de cabelo ridículo, misógino, prepotente e mentiroso que vai destruir ou refundar a humanidade.

  7. Lara Simeao Romero says:

    PS: good-night

    independente se o vencedor for homem ou mulher, outra vez as pesquisas e previsões falharam. Falharam no Brexit, falharam na Colômbia e falharam nos States.

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