NAZARÉ TAMBÉM FEZ O ENEM

 

Certa noite, trinta e tantos anos depois de cantar pela primeira vez “Over the rainbow” (que, pouco, literalmente, pode ser traduzido como “sentada no arco-íris”), Judy Garland, cheia de bolas e álcool, encontra no banheiro de uma casa noturna uma senhora, que lhe diz: “Judy, querida, nunca se esqueça do arco-íris!” Atacadíssima e sem a menor paciência, Judy lhe responde: “como é que posso esquecer do arco-íris se estou com a bunda sentada em cima dele há mais de trinta anos?”

Pois é: de vez em quando um personagem gruda na pele de um ator, ou uma canção na de um cantor, de tal maneira que ele não pode se livrar do “encosto” por mais que o queira. Isso pode acontecer, também, com um autor de novelas, quando ele cria um personagem que, para os telespectadores, se torna imorredouro. Vejam meu caso, por exemplo: não se passa uma semana sem que surja uma nova história envolvendo Nazaré Tedesco, a vilã de “Senhora de Destino”, assim como não se passa uma semana sem que alguém me pergunte: “quando é que você vai trazê-la de novo?”

O problema é que nem preciso trazer Nazaré de volta para que ela continue a ser lembrada. Há pouco tivemos o caso do vídeo feito num país qualquer sob o título “Loura Confusa”, no qual Naza aparece como protagonista, e que virou meme na internet. Agora me informam que uma das questões do ENEM falava justamente deste vídeo e assim transformava Nazaré em matéria do exame. Ou seja: tal como Judy Garland não conseguiu levantar a bunda de cima do arco-íris até morrer, eu não terei como me livrar dessa Nazaré que, vista originalmente na televisão em 2004, graças ao modo como Renata Sorrah deixou que ela “baixasse” no seu corpo, continua viva até hoje.

Claro, há quem diga que outras vilãs foram maiores. Alguns citam até mesmo Perpétua, da novela “Tieta”, outra vilã minha. Outros preferem a dupla Flora e Carminha, ambas do João Emanoel Carneiro. Eu, modestamente, não me meto nesta briga, mesmo porque não preciso. É só fazer uma pesquisa na internet e ver que vilã, nestes anos todos, apareceu ou foi citada mais vezes: é Nazaré, Nazaré e Nazaré quem ganha disparada.

O embate mostrado no vídeo abaixo, que culmina com a queda de Djenane da “escada maldita” da qual Naza adorava empurrar suas vítimas, dura doze minutos. E na época, até que ela acabasse,  duvido que algum dos milhões de telespectadores da novela tenha levantado para beber água, atender o telefone ou fazer xixi, como acontece hoje se alguma cena tiver mais do que dois minutos.

E aí, vejam a cena, e depois eu lhes pergunto: mudou o telespectador, ou mudaram as novelas? (Aguinaldo Silva)

4 thoughts on “NAZARÉ TAMBÉM FEZ O ENEM”

  1. Duque says:

    Eu amo essa cena não me canso de assisti-la Aguinaldo. É PERFEITAAAA!! Muito bem escrita, interpretada e dirigida. Fico embevecido toda vez que assisto.
    Tem cenas de novelas suas que nunca me saíram da cabeça. Em Duas Caras, a cena do Ferraço fazendo amor com a Maria Paula no hospital é emocionante. Fui ao êxtase. Em Império, a cena que o Silviano desafia Zé Alfredo na cozinha, nossa…. Que foi aquilo?! Arrepiei os pêlos do sobrolho kkkk.

  2. Julielson Lima says:

    Caro Aguinaldo. Na minha opinião, mudaram os telespectadores e mudaram as novelas. Os telespectadores no entanto , não só mudaram, eles acompanharam a evolução do mundo ao seu redor. O mundo de 15 anos atrás não tinha: Redes sociais, netflix, tv à cabo, aplicativos, ou seja, era outro mundo. Hoje qualquer pessoa , tem um leque de possibilidades , de ver as coisas antes, durante ou depois da exibição. Isso as próprias emissoras permitem. Claro, que quando a novela É A NOVELA, os números chegam a estratosfera, e não tem rede social, nem aplicativo, netflix ou tv à cabo que mude isso. As novelas mudaram no sentido de que se reinventaram, mas, sem acompanhar as mudanças do tempo. O que pode explicar um fracasso atrás de outro no horário mais nobre da televisão? Elenco fraco, má produção , direção e divulgação não são definitivamente. Não basta se reinventar, tem que se redimensionar. Novela tem que convencer , para mim essa é palavra, CONVENCER. Quando uma novela convence, comove, “pega na veia” como se diz, ela fisga no primeiro capítulo, seja a história qual for. (Para mim, a última novela que “pegou na veia” foi FINA ESTAMPA). Foi sucesso absoluto e instantâneo . Não se falava em outra coisa. Aquele “TAN TAN TAN TAN TAN TAN ” da abertura, ecoava pelos televisores. Era lindo. E voltando ao assunto, é isso que falta hoje, uma novela convincente. Não adianta juntar mentes brilhantes, porém , com pensamentos irrelevantes. Falta alguém pra dar um sacode , e mostrar ao público o que o público quer ver. E o que o público clama , é exatamente isso : um mais do mesmo, porém um mais do mesmo que não se viu ainda. E tenho dito ! Abraço 😉

  3. Duque Olliver says:
  4. JOAO DARLEI says:

    Acho que isso ainda é possivel, fazer as pessoas se prenderem em uma cena comprida, é só vc escrever uma novela tão boa quanto essa foi.
    kkkk

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