UMA VIDA CHEIA DE LIVROS

 

Nelson Rodrigues nunca foi cogitado para o Prêmio Nobel.

Mas não se espantem caso, numa próxima rodada,

o prêmio for para Beyoncé ou Rhianna.

dsc01749

 

Entro numa livraria como sempre faço quando passo diante de uma delas e não resisto: compro quatro livros. Na minha nova casa em São Paulo, para onde trouxe os livros que guardava naquela cidade serrana, não achei um lugar onde guardá-los – uma televisão em cada quarto ocupava o espaço de possíveis estantes. E assim decidi vendê-los a um sebo. Muitos deles são autografados. E a senhora do sebo, ao perceber isso, ficou excitadíssima e proclamou: “nem vou olhar. Compro todos”.

Mesmo triste por fazê-lo, concordei. Cheguei a separar os que ela levaria primeiro: toda aquela literatura marxista – Georg Lukacs, Ernest Frish, Lucien Goldman e etc. – tão necessária nos anos 60 e 70, agora inútil nestes tempos em que, em vez de cultura de esquerda, as pessoas se aperfeiçoam no be-a-ba do populismo.

A senhora alfarrabista (palavra derivada de como se chamavam os sebos de antanho: alfarrábios), já de certa idade, não pode levá-los de uma vez por conta do peso. Assim, em duas viagens, desfalcou minha biblioteca em 230 livros. No terceiro dia não telefonou para marcar nova visita, o quarto dia era um feriado e só no quinto dia ela apareceu na portaria do prédio, deixou o número do telefone com o porteiro, disse a ele que tinha perdido o meu e pediu que eu ligasse para marcar nossa visita.

Tarde demais. A essa altura eu já tinha arrancado a televisão smart de 42 polegadas que enfeiava a parede de um dos quartos e já encomendara a estante destinada a ocupar o lugar dela, o que me permitiria – sim! – continuar com meus livros.

A estante veio com a pressa que eu pedi e foi montada na manhã da última terça-feira. E agora, entre uma e outra mal traçada linha deste meu texto, me ocupo em arrumar os livros na estante, como sempre pela ordem alfabética. “Uma Vida“, de Arthur Miller, bem lá no alto, é o primeiro de centenas… Pois não consigo viver numa casa em que não haja livros. Sei que não lerei todos – precisaria de uma nova vida de 73 anos para fazê-lo. Mesmo assim continuo a comprá-los e a guardá-los de modo que possa vê-los.

dsc01745

Neste momento releio um livro meu velho conhecido: “A Cabra Vadia”, de Nélson Rodrigues, reunião de crônicas escritas e publicadas por ele no jornal O Globo. Lá, cheguei a conhecer o Nélson, ele mesmo um personagem quase tão grande quanto os que criou: Palhares, o Canalha, a granfina das narinas de cadáver, o Padre de Passeata, tantos, tantos…

Na minha modesta, porém passional opinião, no século passado em que escritores foram lançados por aqui a dar com o o Brasil só produziu três gênios literários: Guimarães Rosa, Clarice Lispector e claro, Nélson Rodrigues. Nenhum deles foi sequer lembrado para o Prêmio Nobel de Literatura, que agora, com a premiação de Bob Dylan, abre caminho para que algum próximo galardão vá para Beyonce ou Rhyana.

Delas não tenho nenhum disco – mesmo porque não se fazem mais discos. Embora adore ouvir música, ainda prefiro fazê-lo enquanto leio um bom livro. Agora, enquanto escrevo, de vez em quando faço uma pausa para olhar com muito orgulho minha estante (na foto), por enquanto com muitas prateleiras ainda vazias de livros. A essa altura já me dei conta de que nela não caberão todos eles: os que guardei ao longo da vida e os que ainda comprarei. O que significa que, por mais que os arrume, parte dos meus livros continuarão empilhados num canto do escritório ao amontoados dentro de um armário, locais de onde pescarei um deles de vez em quando para ler ou reler… E assim me certificar de que continuo vivo.

3 thoughts on “UMA VIDA CHEIA DE LIVROS”

  1. Julielson Lima says:

    Aguinaldo, meu sonho é ter uma prateleira repleta de livros como essa. Sou muito ciumento com meus livros! (risos). Esse ano , li muito menos do que gostaria, mas estou feliz, pois li bastante coisa que eu estava adiando e não conseguia ler. As icônicas peças do grande Nelson por exemplo. Li também Clarice, mas estou mesmo agora é PERDIDAMENTE APAIXONADO pela Agatha Christie. Sem palavras. Quero ler os 1837618092838 livros que dela existirem. Grande abraço 😀 .

  2. Spectr-Méier says:

    Prefere o cheiro e o pegar das folhas ou já se redimiu aos e-books ?

  3. Lara Simeao Romero says:

    Com licença.
    Operação Chequinho prende o Garotinho?
    Piada? Nao. Bom, sim.
    Mas que diacho o Garotinho estava fazendo no apartamento da filha de uma funcionária da família?????

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *