NENHUMA ALMA É PARDA

 

Não existem pardos, nem mulatos. Uma pessoa é uma pessoa e isso não depende da cor de sua pele ou deste palavrão chamado “raça”.

1

giseless

Entro numa loja aqui em Paris, capricho no meu francês. Faço todos os biquinhos que aprendi com Brigitte Bardot, compro o que tinha de comprar e, depois que pago, quando me entrega a mercadoria a vendedora me diz: “obrigadô” – assim mesmo, com acento circunflexo no “o” final.

Saio da loja atônito. Como ela descobriu que eu era brasileiro? Que marca trazemos nós para que, por mais que disfarcemos, sempre descubram nossa nacionalidade no estrangeiro? Já tentei evitar isso como pude: falei espanhol, inglês com sotaque australiano, disse que meu francês tinha sotaque porque eu era da Martinica, mas perdi meu tempo. Há sempre aquele momento em que alguém pergunta – ou melhor ainda, afirma : “você é do Brasil, não é”? E, fazer o que? “Sim”, eu confirmo.

Em plena véspera de Natal, enquanto espero que o motorista chegue para me levar a mais um jantar pantagruélico, medito sobre o assunto: por que nos reconhecem como brasileiros no estrangeiro? Será porque somos o único povo que se declara “pardo” em todo o mundo? Existem brancos, negros, orientais e médio-orientais de vários tipos e todos estes, do ponto de vista de cor da pele, possuem sempre uma designação precisa que tem a ver com a raça. Mas nós, não. Quando nasci, na minha certidão de nascimento o escrivão lá do cartório de Carpina registrou que eu era pardo. Claro, não me sinto pardo, não sei o que é ser pardo, mas oficialmente é o que sou – eu e milhões de brasileiros.

Acho que essa pardice é o que nos faz reconhecíveis. Por causa de tal designação temos em diferentes graus um certo sentimento de inferioridade que nos faz mais visíveis, e aí os estrangeiros dizem para si mesmos: “olha ali um pardo/quer dizer, um brasileiro”.

Claro, já tivemos mais criaturas pardas e todas se consideravam um grau acima daqueles que eram registrados como negros. Mas hoje, com essa história de quotas, cresce cada vez mais o número dos pardos que se declaram negros para ter acesso às muitas benesses reservadas apenas a estes últimos. Mesmo assim ainda somos muitos. O pardo é o brasileiro típico. É aquele que a minoria (ou elite) branca chama de “a choldra”, ou seja: a gentalha.

031

Por falar em minoria branca: morro de rir quando alguém se refere à maravilhosa Gisele Bundchen como uma representante típica da beleza da mulher brasileira. Gisele é uma alemãzona! Não tem um grau sequer de pardice! Do mesmo modo Cris Vianna é uma deusa africana, orgulhosamente negra e puríssima. E Marina Ruy Barbosa, com seus cabelos ruivos, uma representante legítima do povo nascido e criado nos confins da Escócia – uma verdadeira outlander.

bruna-marquezine-1457461273

Já Bruna Marquezine, bem… Não vou cometer o exagero de dizer que ela é parda, assim como não diria a mesma coisa de Luiza Brunet nos seus áureos tempos… Mas afirmarei, sem medo de ofender as duas, que elas são morenas.  E para certas pessoas preconceituosas, da morena para a mulata é apenas um passo de samba.

Ah, mulata… Será mesmo verdade que teu cabelo não nega? Quando nossas mulheres chegam a essa classificação especialíssima viram produto de exportação/quer dizer: de exploração…e de preconceito. Pois, o cartunista Lan, aliás, já morto, que me desculpe, mas eu sempre achei que se referir a uma mulher como “aquela mulata” é uma ofensa. Uma mulher é uma mulher e pronto, qualquer que seja a sua raça.

Ou seja: não existem pardos, assim como não existem mulatos. O que existe somos nós todos, brancos, negros, índios, sozinhos ou misturados… Apenas pessoas. No dia em que nós próprios nos virmos assim talvez as coisas melhorem por aqui e aí mude a nossa imagem aos olhos do resto do mundo.

4 thoughts on “NENHUMA ALMA É PARDA”

  1. Rafaella says:

    Eu moro no exterior e acho que eles só reconhecem o brasileiro pela maneira de expressar de falar não importar o sotoque nós temos aquele jeito mais caloroso de falar mais floriado de falar por que geralmente o europeu é seco, curto e grosso a sem falar que os brasileiros adoram gastar uma fortuna na lojas da europa e boa vendedora descobre logo quem são e o jeito e tipo sim por que pela cara é difícil de descobrir mas quando abrimos a boca sempre nós denunciamos mas não vejo isso como ruim é como espanhol tentando falando francês ou inglês, nós somos os exóticos do país tropical com cultura própria incluindo o soto- que

  2. Spectro-Méier says:

    Nas novelas ainda predominam as peles claras. Parece que no Brasil só tem alemão com canela de palmito . Já passou da hora das emissoras de tv convocarem negros para atuar nos folhetins. Infelizmente não há um retrato fiel da nossa realidade. Parece que somos compostos por 99% de brancos e 1% de negros. Até os comerciais de tv distorcem a vida real. E olha que tem muitos atores talentosos por aí, mas sem chance por conta da sua cor de pele. Preconceito escancarado que já não é de hoje e poucos comentam.

  3. Jacob says:

    texto maravilho. Como sempre Aguinaldo suprendendo

  4. ANTONIO GUEDES ALCOFORADO says:

    Dentro do Brasil ocorre o mesmo. A garota do tempo do jornal nacional quando fala da região especifica cada estado e às vezes até cada microrregião de cada estado. Quando vai falar na região nordeste ela fala no geral, e olha que são nove estados. Jamais falou do Rio Parnaíba (PI), já o rio Itajaí (SC). Se alguém do sudeste se refere a um nordestino é como “paraíba”, no geral. Aparentam não saber geografia, deduzem ser nordeste um estado só, único. Penso que nossos representantes deveriam separar a região nordeste em três ou quatro. Só assim os brasileiros das demais regiões compreenderiam a quantidade de estados diferentes há por aqui. E isso nos faz sentir como o Aguinaldo se descreveu no texto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *