SIM, DANÇAREMOS O TANGO

 

Aos 73 anos, e com certo exagero, posso dizer que já vi de tudo.  Alguma coisa desse “tudo” seria apenas uma bobagem para alguns, mas para mim foi muito. Hoje, por exemplo, me lembrei de uma cena que de vez em quando me vem à mente. Aconteceu na Argentina, mais precisamente em Buenos Aires, dentro de um táxi, no dia 15 de julho de 2010.

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Naquela data a Argentina, um país de tradições particularmente machistas, tornou-se o primeiro país da América Latina e o décimo do mundo a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Eu estava dentro do táxi quando o rádio noticiou que a lei acabara de ser promulgada. O motorista, um visível dançarino de tango ao qual não faltavam as fartas costeletas e a cera no ouvido, ao ouvir aquilo bufou, esbravejou e se rasgou todo. Abriu o vidro do carro e proclamou aos quatro ventos:

Ahora nosotros somos um país de maricones!

O maricon sentado no banco de trás não resistiu e caiu na gargalhada… Ao que o motorista virou-se para trás e vociferou:

Ya fuera de mi coche!

Claro, sempre a gargalhar, agora de deboche, eu desci do coche dele. E depois que ele partiu cantando pneus e sempre a vociferar, olhei em torno e constatei: nada mudara na Argentina. Apesar da aprovação do casamento gay tudo continuava na mesma, inclusive a cultura do seu povo, que é machista até a raiz dos fartíssimos pentelhos.

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Hoje dizem que Buenos Aires é uma cidade “gay friendly”. Não posso confirmar, já que não vou lá há mais de cinco anos. Não porque o casamento gay foi permitido – tenho o vício de achar o proibido muito mais interessante -, mas porque, com ou sem casamento gay, a Argentina, por força da incapacidade, da ganância e da desonestidade dos seus governantes, tornou-se em todos os sentidos um país pobre.

Onde estou querendo chegar com todo este rame-rame? Neste fato para mim indiscutível: o que leva uma nação à decadência não é a evolução natural dos costumes. É a desonestidade, a falta de escrúpulos e de ética das suas classes dominantes, que se espalha por todas as classes e vai reverberar de modo mais evidente nos menos favorecidos e pobres.

No dia em que decapitaram aqueles presos numa cadeia do Norte eu estava a sete mil quilômetros de distância do Brasil. Mas, depois de ver as fotos do evento na internet, fiquei tão arrasado com toda aquela violência que não consegui sequer sair de casa. Pensei com meus botões:

“Isso está acontecendo no meu país, caralho, não é na Síria nem no Iraque”!

Mas o mesmo jornal on-line no qual as tais fotos me faziam lembrar Joseph Conrad (“o Horror, o Horror!” Não sabem o que é? vejam no Google), o mesmo jornal, eu dizia, noticiava que ia ter praia no dia seguinte e sim, o dia seria lindo e o consumo da cerveja bateria récordes.

Depois do casamento gay a Argentina não virou um país de maricones, nem o Brasil uma terra de viados. Mas, depois de todas essas decapitações nos presídios que continuam acontecendo – a média este ano é de cinco por dia até agora, segundo a mídia – e se a Operação Lava-Jato terminar em pizza o que nos tornaremos? Uma nação de insensíveis e cínicos?

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One thought on “SIM, DANÇAREMOS O TANGO”

  1. Spectro-Méier says:

    As barbáries rolam soltas em todo Norte brasileiro. É que o que chega aos ouvidos é nada diante da realidade cruel que o povo de lá vive, em todos o sentidos. Enquanto isso, onde está o “X” da questão ? Vamos que vamos …

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