NOVELA É COISA DE MACHO

 

Quando escreve uma novela o autor é o único deus e senhor do seu mundo. Mas corre sempre o risco de ficar aprisionado para sempre dentro dele.

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Sempre digo, com alguma ironia mas toda propriedade, que escrever novelas não é coisa para mariquitas. E agora que estou começando “O Sétimo Guardião”, meu décimo quarto trabalho no gênero, informo a vocês: a frase, mesmo de efeito me é mais apropriada que nunca. Seja homem ou mulher: para ter algum êxito no seu ofício o autor de novelas precisa ser macho no sentido mais “estivador” que se dá ao termo.

Sim, escrever novelas não é fácil. Era, talvez, nos tempos da máquina de escrever, quando a primeira versão de tudo que se escrevia era a definitiva. Para mim, que sou obcecado pelo texto, que vivo sempre em busca do impossível, ou seja, a escrita perfeita, escrever por exemplo “Roque Santeiro” numa máquina de escrever foi uma tortura. Lembro-me das muitas vezes em que, para corrigir o texto, usei tesoura e cola, únicos meios de mudar, sobrepondo um texto novo ao que já estava escrito.

O computador facilitou nosso trabalho, porém deu asas de avião a jato à minha obsessão. No caso de “O Sétimo Guardião” estou há duas semanas às voltas com o primeiro capítulo. Já escrevi cinco versões, cortei e acrescentei palavras, frases, cenas inteiras em todas elas, e até agora não me dei por satisfeito. Neste momento mesmo, depois de ler, reler e treler a quinta versão já sei que, logo após perpetrar esse texto que vocês agora leem, começarei tudo de novo.

O que falta para que dê este primeiro capítulo por concluído? O ritmo. É preciso que, na leitura, eu tenha a impressão que as palavras, as frases, as cenas inteiras fluem como se fosse um rio, uma levando à outra, que leva à outra e a mais outra, como se tudo fizesse de parte uma corrente movida por uma invisível harmonia. Será que estou sendo muito técnico? Talvez. Mas quando vocês – que de tanto ver novela sabem tudo sobre elas – acham um capítulo ótimo é porque essa harmonia foi atingida. E é ela que eu, obstinadamente, persigo.

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Todas as semanas recebo cartas, emails, mensagens telefônicas vindas de todo o país, enviadas por pessoas nem sempre jovens que sonham em ser novelistas de televisão. E percebo que estas pessoas almejam da profissão apenas o mar de rosas que nela não existe. Dizem as boas (e as más) línguas que os novelistas do horário nobre ganham fortunas. Mas o que eles recebem é apenas o pagamento justo pela quantidade de sangue, suor e lágrimas que vertem quando estão “em serviço”. Ainda falta mais de um ano para que minha novela – se tudo der certo, é claro – chegue às telinhas. Mas já estou sofrendo como um cão danado, em busca dessa harmonia de que falei acima.

Não vou ser de todo masoquista, por isso devo dizer a vocês que às vezes se sofre menos. Aconteceu, por exemplo, em “Tieta”, “A Indomada” e em “Império”, novelas que eu chamo de “abençoadas”, ou seja, aquelas nas quais tudo, de A a Z, sem esquecer o W e o Ypsilone, parece dar certo. E, nesses casos, não estou falando só do texto, mas também da direção, dos atores, dos editores, do fotógrafo e dos demais técnicos… Sem esquecer o pessoal que fica atrás das portas – camareiras, maquiladores e cabeleireiros.

Porque, embora o autor seja o senhor do texto, o único que sabe o futuro da novela e,  portanto, o dono dela, a verdade é que a novela é um trabalho de equipe e nesta é preciso que haja também a tal harmonia. Já escrevi novelas em que coisa nenhuma dava certo porque ninguém se entendia. E outras em que parecia haver um pacto, com o qual todos tinham se comprometido, para que nada desse errado e o resultado fosse o mais harmônico possível.

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Já falei várias vezes quando começo uma novela que ela será a última. Agora já não falo mais. Pois percebi que este sofrimento sobre o qual escrevi acima para mim se transformou num vício. Sofro dele e gosto de sofrer, porque adoro escrever novelas. Não há nada mais – não sei se é a palavra certa, mas enfim – afrodisíaco do que criar todo um universo e depois se mover dentro dele. Você é o seu dono e senhor. E por isso, no final, se sentirá uma espécie de Deus… Isso – rezem por mim! – se não morrer antes e amanhecer com a boca cheia de formiga num dos seus becos mais escuros.

13 thoughts on “NOVELA É COISA DE MACHO”

  1. Valdir sales says:

    Boa noite!!!!Recentemente vc falou que a globo havia mudado o soltware dos textos e que vc ainda estava aprendendo,esses programas ajudam mais ou atrapalham o autor no desenvolvimento de trama?

    1. Aida Mendes says:

      Eu acho que a novela tem de ter de tudo um pouco. Comédia, Drama, e suspense. Porque quem Matou Odete, e quem Matou o Nilo de Avenida Brasil foi muito intrigante. Tem que ter um Local, uma cidade igual do Rock Santeiro. Pra fazer suspense e Drama, e também Comédia. As Novelas eram comentadas em Bares, e festas Hoje ninguém Liga mais! Aquela essência, de uma boa Novela.

  2. Julielson says:

    E bota macho nisso Aguinaldo. Digo isso humildemente, com toda propriedade de quem não tem a menor experiência no assunto. Para escrever um texto, um conto, uma peça ou até um episódio de websérie, sofro horrores. O que dizer então de uma trama de 200 capítulos? É realmente para poucos. Essa sua obsessão pela perfeição é o que te diferencia. Acho que vale à pena,(claro sem sofrer demais por isso) levar essa obsessão para a vida. Em tudo. Pois jamais vamos ser completamente perfeitos. Mas aqueles que conseguem ao menos dar o máximo de si em tudo, já podem ser considerados vitoriosos. Grande abraço.

    1. Aida Mendes says:

      Eu acho que a novela tem de ter de tudo um pouco. Comédia, Drama, e suspense. Porque quem Matou Odete, e quem Matou o Nilo de Avenida Brasil foi muito intrigante. Tem que ter um Local, uma cidade igual do Rock Santeiro. Pra fazer suspense e Drama, e também Comédia. As Novelas eram comentadas em Bares, e festas Hoje ninguém Liga mais! Aquela essência, de uma boa Novela.

  3. Maria says:

    Adoro como você escreve e como transparece a vida com seu modo de viver, sempre que posso te acompanho. Grande beijo de sua leitora e eterna aprendiz.

  4. Spectro-Méier says:

    E se a história for uma obra prima mas a empresa bate o pé que um diretor “autoral” mande e desmande na obra ?

  5. Duque says:

    Tem dias que chego a pensar que o novelista realmente seja um Deus. É um trabalho muito difícil, árduo, estafante… É sacrificar diariamente seus pobres neurônios, exigindo deles o que o máximo possível. Não vejo nada de glamoroso nesse ofício. É preciso suar muito, se dedicar muito, morrer mil vezes, sofrer milhões de dias num exílio e ressuscitar ano após ano. Reencarnar a cada trabalho. E se reinventar, o que é mais difícil ainda. Isso é admirável. Aplausos e mais aplausos, Aguinaldo. Somente os loucos e insanos são capazes de sobreviver ao tsunami chamado novela.

  6. Leo Brasil says:

    Aguinaldo, eu como telespectador quero te dizer que na monja opinião a melhor novela que você já escreveu foi Porto dos Milagres! A melhor novela de todos os tempos, e olha que já vi dezenas de novelas, e todas as suas novelas. Em Porto dos Milagres, tudo é perfeito, interligado do primeiro até o último capítulo, o texto flui como um rio, os acontecimentos se encadeiam um atrás do outro.. A melhor novela!

    1. Maurício Peçanha says:

      Apesar de ser uma novela já “esquecida”, para mim também é a melhor, não só do Aguinaldo, mas de todas as produzidas pela globo. Pode parecer esquisito diante do acervo de novelas, mas creio que tanto no meu caso quanto no seu é algo pessoal, questão de gosto. E também influência do universo da minha vida na época dessa novela. O encanto que ela me causa é justamente pela sua simplicidade. Nada de paisagens paradisíacas ou efeitos especiais mirabolantes. Nunca tive o atrevimento de expressar minha preferência por ela aqui. Li num texto do Aguinaldo, que ele comenta o porque de deixar ela meio de lado, entre suas obras, para minha tristeza. Entendo os motivos do Aguinaldo, pois outros trabalhos renderam mais frutos e alegrias do que Porto dos Milagres. Enquanto telespectadores não captamos certos detalhes de bastidores, que só descobrimos com o passar dos anos, mas em nada apaga o brilho da novela. E como ele mesmo disse, devido as suas proporções a novela pertence a quem a escreve, e ela pertence a você Aguinaldo, e ponto.

  7. JOAO DARLEI says:

    Então tá faltando “macheza ” para a autora atual da novela das nove.

  8. Danilo says:

    Não me aguento mais de ansiedade. Que venha logo O Sétimo Guardião.

  9. Manoel Neto says:

    É justamente a perfeição pelo texto que torna os seus trabalhos tão especiais, Aguinaldo. Cada um com uma peculiaridade. Sou telespectador de novelas da Globo e seriados há muito tempo e é incrível como, muitas vezes, os roteiros se perdem por conta de cenas sem propósito. A garantia de um bom episódio, consequentemente de um bom produto, está justamente, como você mesmo sempre diz, na progressão dramática. Essa harmonia é indispensável para deixar o telespectador satisfeito! E é por isso mesmo que essa sua obstinação sempre rende novelas de alta qualidade

    Que venha logo O Sétimo Guardião! Pois a cena da morte do Comendador – ao som de Cartola – ainda está pra lá de viva em minha mente. Vida longa!!

  10. Adriano Rafael says:

    E além de tudo isso, ter o domínio indispensável da narrativa.

    Você nos ensina, nos inspira.

    Grande Agui!

    Beijo queridão

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