QUEIMEM A CABELEIRA DO ZEZÉ

 

Cantar “Olha a Cabeleira do Zezé” não pode. Mas receber subvenções e patrocínio pra botar os blocos na rua, ah, lá isso pode, não é? Vocês acham que haveria tantos blocos desfilando nas ruas se isso não fosse um bom negócio? Minha sugestão é que os blocos de carnaval se transformem num desfile em que casais bem pensantes exibam, com justo orgulho eugênico, seus carrinhos de bebês. Seria um desfile triste porém, pelo menos, honesto. Ninguém estaria faturando às custas de ninguém. E quanto aos veados esquerdistas que vão abominar este meu texto, ah…, que se mudem todos para Cuba, que lá é o paraíso da liberdade.

Rio de Janeiro - É comum encontar homens vestidos com roupas feminas no blocos do carnaval carioca.

Saí do Brasil no dia 19 dezembro e ainda devo demorar um pouco no – como se dizia antigamente – “exterior”. Mas, interessado que sou no futuro (ou na falta do próprio) do meu país, procuro me manter informado sobre ele. Para isso apelo todos os dias, mal sento diante do computador, para a leitura dos jornais on-line. E, não sei se pela evidente preferência da mídia digital por notícias negativas, a cada leitura aumenta  a minha impressão de que nossa famosa alegria diminuiu… Ou seja, vistos com o necessário distanciamento os brasileiros andam meio tristes e de crista caída.

Nem a proximidade do carnaval parece nos empolgar. Ainda mais depois que alguns os blocos de carnaval, que já se orgulhavam de ser “familiares” resolveram banir de seus desfiles músicas consideradas politicamente incorretas. Por este caminho, chegaremos ao ponto de não-retorno em que homens não poderão mais se vestir de mulher  no carnaval e fingir que são, com licença da má palavra, “veados”, porque isto também será considerado ofensivo… Assim como sair por aí usando fralda e cantando “me dá a chupeta” será considerada uma ofensa à pureza eugênica dos nossos bebês.

Sempre digo que não é a Lava-Jato nem a eleição de Lula em 2018 que vai nos destruir, não… O que acabará com aquele Brasil alegre e despudorado que conhecemos e amamos será a atuação cada vez mais furiosa desses defensores do políticamente correto, que se acham no direito de decidir o que devemos dizer, escrever fazer e até pensar. Não sei onde chegaremos por este caminho. Mas esta decisão dos blocos de não entoar  músicas consideradas “ofensivas” em seus desfiles, mesmo que elas sejam tão clássicas como “A Cabeleira do Zezé”, é uma clara indicação de que por este caminho iremos muito longe… E o pior ainda está por vir.

Por isso tenho pensado em criar um Bloco-do-eu-Sozinho e, pela primeira vez na vida, desfilar no carnaval pelas ruas do Rio de Janeiro cantando até desmaiar de cansaço todas as músicas que os adeptos do politicamente correto resolveram proibir. Se o fizer, se não for internado num hospício, talvez seja linchado por eles. Mas o meu, digamos assim, “sacrifício”, poderia valer como um alerta aos defensores da liberdade e da criatividade: gente, está na hora de reagir!

O que não podemos é fazer o jogo dos defensores do politicamente correto e, com medo da reação deles, em geral virulenta, passar a medir primeiro nossos passos, depois nossa palavras, tudo que escrevemos e, por fim, nossos pensamentos, até nos tornamos um daqueles personagens do episódio “Nosedive”, do fantástico seriado “Black Mirror”, no qual uma pessoa será tão normal quanto mais se parecer não com o ser humano que é, mas com um robô.

Há algum tempo atrás fui ameaçado de processo por ter chamado uma pessoa visivelmente obesa de gordo. Por este caminho, se eu chamar uma pessoa subnutrida de magro ela também terá o direito de se ofender. E essa “sede de justiça” não é de agora – lembro-me de que um sindicato de classe me ameaçou de processo porque, na novela “Senhora do Destino”, a certa altura a vilã Nazaré Tedesco se disfarçava de enfermeira para fugir.

Desculpem, mas não há alegria nacional que resista a este patrulhamento, nem mesmo nos quatro dias de carnaval quando tudo é possível. Se não pudemos nos vestir de mulheres (e exagerar na caricatura) nem entoar com o deboche necessário a marchinha “Cabeleira do Zezé”, melhor abolir de vez o assim chamado “tríduo momesco” e transformar a passagem dos blocos carnavalescos num mero passeio de casais saudáveis e bem pensantes a empurrar, com todo o necessário orgulho, seus carrinhos de (verdadeiros) bebês.

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