MINHA PROVA DE ARTISTA

 

 

“Muita sorte a Senhora do Destino”.

A frase, dita pela cantora Simone diante de 1600 pessoas, no final da festa de apresentação da novela no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, teve para mim um significado especial. Quatro anos depois de “Porto dos Milagres”, minha última novela, eu voltava ao gênero em 2004 com uma obra que nada tinha a ver com as que escrevera anteriormente. Uma novela urbana, situada numa região até então proibida para o horário das 21h: a Baixada Fluminense, que na época tinha uma péssima fama.

E ainda mais: uma novela que começava num dos momentos mais traumáticos da vida brasileira, o dia da assinatura do Ato Institucional número 5: 13 de dezembro de 1968, quando a jovem Maria do Carmo Ferreira da Silva (Carolina Dieckmann) chegava ao Rio de Janeiro com seus cinco filhos, via-se perdida numa cidade conflagrada e tinha sua filha Lindalva, ainda bebê, sequestrada.

Lembro-me de ter visto na casa de uma amiga o capítulo em que Maria do Carmo e sua família se vêem em meio aos protestos que aconteceram naquele dia, com a polícia e os tanques a perseguir os manifestantes e as bombas a explodir pelas ruas. Era um momento especial para mim, porque eu não escrevera sobre aqueles fatos apenas de ouvir falar. No dia 13 de dezembro de 1968, como jornalista e como cidadão, eu participei de todos aqueles acontecimentos e, nos protestos e nas correrias, eu estava lá. Atento ao televisor, o filho da minha amiga lhe perguntou a certa altura:

“Isso aconteceu mesmo mãe?”

E, após ouvir dela a resposta positiva concluiu:

“Que legal, então no Brasil já teve uma guerra”!

Na época eu achava que, ao falar daquele tema até então inédito na ficção televisiva, “Senhora do Destino” faria história. E ela fez, mas não por causa disso. Sua abordagem daqueles acontecimentos foi acintosamente ignorada, talvez por ter sido feita por mim, que não era tido como um intelectual de esquerda. Mas teve o efeito que eu pretendia: a história daquela mulher e sua família perdida no meio do vendaval, mas lutando teimosamente para  encontrar seu rumo galvanizou o país. E me deu a certeza de que escrever novelas era a melhor coisa que eu sabia fazer…

E era o que eu ia continuar fazendo.

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Simone: sim, ela nos deu muita sorte

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Desde então treze anos se passaram, e a partir de hoje “Senhora do Destino” é reprisada pela segunda vez, agora sem cortes, no “Vale a Pena Ver de Novo” da Rede Globo. A expectativa por conta da reprise, me diz o pessoal da divulgação da emissora, é tão grande  quanto a que se tinha antigamente na estréia de uma novela das 21 horas. Eu acredito, pois eu mesmo estou aqui, a roer as unhas de nervoso, como se estivesse a menos de algumas horas de uma estréia.

“Senhora do Destino”, com seu récorde de audiência do milênio, – inigualáveis 50.4 de Ibope – tornou-se uma novela mítica. Eu não a revi na reprise anterior por causa dos cortes. Mas sempre me perguntei se a história de Maria do Carmo e seus filhos ganhou ou perdeu com o tempo. Nesta segunda-feira, a partir das 16h20m, quando ela começar de novo, eu estarei diante da televisão e então terei a resposta à minha pergunta.

Detalhe: durante a estreia de “Senhora do Destino” eu estarei ao vivo no GShow comentando cenas e respondendo a perguntas dos telespectadores.

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4 thoughts on “MINHA PROVA DE ARTISTA”

  1. Julielson says:

    Aguinaldo, eu estou emocionado com essa cena. Eu nunca tinha visto. Que linda! Acontece que a primeira vez que vi senhora do destino completa mesmo, foi o ano passado, no youtube. Vi todos os capítulos mas o final é cheio de cortes. Por isso nunca tinha achado essa cena. Parabéns pela volta. Vai ser sucesso sim, acredite. Uma curiosidade: Senhora do destino reestreia dois anos exatos após o fim de Império. 😀 . Com certeza dois dos seus mais queridos trabalhos.

  2. Roberto Filho says:

    Foram quase 3 anos longe das novelas nao Aguinaldo? Segundo o MemoriaGlobo, “Porto” se encerrou em setembro de 2001 e “Senhora” começou em junho de 2004. Mas enfim…
    Curiosamente, também fiz a mesma pergunta que o filho de sua amiga ao ver a dramática cena da Maria do Carmo com os filhos no meio dos protestos, fiquei tao chocado(eu só tinha 9 anos) com o realismo dessa cena que logo perguntei a minha mae se aquilo tinha acontecido mesmo, ao que ela respondeu,no seu bom e desbocado cearencês:”Sim,essa época foi mó putaria” haha.
    Senhora do Destino marcou muito minha infância, foi um fenômeno mesmo, todos na minha vizinhança se reuniam pra assistir,comentar a novela,imitavam os bordões dos personagens, mesmo meu pai sendo machista com essas coisas não perdia um capítulo e ate hoje fala “felomenal”, os auto elogios da Nazaré viraram moda entre as mulheres da minha familia, meus amigos da escola disputavam para ser o “Shao-lin do pedaço”,era uma loucura.
    Acho que o diferencial da novela eram seus personagens bem populares e que retratavam bem o “povão”, uma novidade na época. Apesar das novelas anteriores no horário(Celebridade, Mulheres Apaixonadas, O Clone) terem feito sucesso,nem de longe suas tramas condiziam com a realidade da maioria da populaçao. Eu cresci num subúrbio tal qual o da novela e todos ali se identificavam com os personagens, os trejeitos do Giovanni Improta ,a garra da Maria do Carmo, a auto estima absurda da Nazaré; aliás aqui houve uma dinamica inédita: a mocinha trabalhadora e nordestina era a rica e a vilã era a pobre. Foi um marco.
    Parabéns Aguinaldo e muito obrigado por ter feito esse clássico atemporal da dramaturgia brasileira.

  3. Vania says:

    Uma pena que a globo vai cortar sima novela, na chamada estava a classificação de 10 anos. Más verei mesmo assim.

    1. Saifa says:

      Infelizmente os cortes são necessários. Mesmo assim dá para sentir a força dessa novela que é a imbatível campeã de audiência do milênio. Eu sou fã absoluta, verei tantas vezes quantas passe de novo. Obrigado do coração, Aguinaldo Silva.

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