ESPERA POR MIM, MARILDA!

 

QUERIDO DIÁRIO,

Não sei se serei sincero ao afirmar que, nos últimos dez dias, você foi minha única companhia. Mesmo porque, além de você, que é virtual – e apenas me ouve, mas não responde nunca -, neste momento 45 pessoas invasivas, cheias de exigências, temperamentais e difíceis ocupam minha casa e com suas demandas tomam todo o meu tempo.

Quem são estas pessoas? Os personagens de “O Sétimo Guardião”, minha próxima novela. Não é fácil conviver com eles. Alguns, como a Marilda (que, espero, seja vivida pela bela e do lar, mas, graças a Deus pouco recatada Luana Piovani), tomaram as próprias rédeas de minhas mãos já na primeira cena e saíram por aí desembestadas. Outras ainda resistem às minhas tentativas de aproximação, fingem que não me conhecem, me dão as costas… E eu tenho que perder boa parte do meu precioso tempo tentando seduzi-las.

Claro, nesta minha relação com as (os?) personagens tudo seria mais fácil se eu fosse um desses novelistas que consideram um novo trabalho apenas “mais uma novela”, mas não:  embora esta seja a minha décima-quarta, penso sempre que é a minha primeira e dela depende vitalmente o resto da minha vida.

Parece melodramático, não é? Mas novela é isso, melodrama. E é através delas que monto o verdadeiro quebra-cabeças que é o melodrama de minha vida. Como já disse, neste momento ando em busca das (dos?) personagens que ainda me escapam e deixo à vontade os que já fugiram do meu controle e passaram a se escrever a si mesmos. Eles que sejam felizes, a eles desejo muito sorte nesta longa jornada. Quanto a mim…

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Não, Diário querido, nunca penei tanto para começar uma novela.Foi tudo bem até o capítulo 6. Mas no sétimo eu penei feito um condenado e gastei nele nada menos do que dez dos meus preciosos dias. Não vou dizer quantas vezes o reescrevi, porque perdi a conta. O que sei é que neste sábado que passou, precisamente às 19h, eu escrevi a palavra FIM na página 45 e, pelo menos até agora, estou muito satisfeito com o que resultou de tanto sofrimento. Só que agora tenho que começar com a maior ligeireza possível o oitavo capítulo.

Morro de rir com as pessoas que sonham em ser novelistas e da profissão enxergam apenas o glamour e o brilho. Eu lhes pergunto: que glamour e que brilho? Não vejo nada disso num trabalho em que fico durante doze meses trancado meses trancado em casa e no qual gasto, na mais absoluta solidão, pelo menos doze horas dos meus cada vez mais preciosos dias.

Estou naquela fase de ser chato, obsessivo, impaciente, dado a sair pela casa afora quebrando coisas, com o celular sempre no modo avião para evitar o “incômodo” de ter que jogar conversa fora com os amigos. Ao contrário dos meus (minhas?) personagens, não tenho vida pessoal que me permita dizer aquela famosa frase: “minha vida daria uma novela”. Enquanto escrevo, fico preso à mais tediosa de todas as rotinas.

Asssim, Diário Querido, desculpe se nos próximos dias eu lhe deixar de lado para me dedicar apenas aos (às?) personagens ainda fugidias. Claro que vou domar e por cabresto em todos; isso é parte do que aprendi sobre essa profissão de poucos… E loucos. Aos que sonham em exercê-la, não hesito em dar um conselho: pensem em outra função que lhes proporcione menos tédio e ainda menos sorimento… Ainda que menos fama e menos dinheiro.

4 thoughts on “ESPERA POR MIM, MARILDA!”

  1. Julielson says:

    Aguinaldo, que delícia de ler o seu diário. Faça-o mais vezes, não o abandone. Sei que o trabalho é árduo e és extremamente dedicado, mas faz bem desabafar sempre um pouco, nem que seja assim, com um diário virtual. Muito feliz com as notícias sobre a novela, a sua dedicação com os capítulos, o elenco que vai criando corpo, nossa! Quanta alegria. Parabéns pelo empenho. Te admiro cada vez mais. Depois de te conhecer esse carinho só cresceu. Um abraço apertado de seu eterno pupilo. Tenha uma ótima semana. Manda balaaaa 😀

  2. André Luiz de Mendonça Silva says:

    Eu não sei se essa novela está sendo escrita com colaboradores ou não. Mas, de qualquer forma é um trabalho hercúleo escrever uma novela que fica no ar por oito, dez meses, e com grande qualidade. Eu admiro qualquer trabalho artístico, inclusive o de roteirista. É um sonho para mim. Não sei se autor de novelas, que é uma responsabilidade imensa, mas roteiros um pouco menores, como séries e sitcoms, por exemplo. O roteiro também pode ser o começo e, havendo outras habilidades e competências, depois, estando no meio, fica mais fácil. O seu curso de atuação, por exemplo, é difícil para muitos que residem fora do Rio de Janeiro e de São Paulo por durar muitos meses, ao passo que o curso de roteiro tem carga horária menor. Espero ter a oportunidade de participar da sua próxima oficina de roteiro. Esse trabalho de ensinar e garimpar novos talentos que você está fazendo, sem precisar disso, é de uma imensa generosidade! Eu passei a admirá-lo além das qualidades de autor depois que descobri esse espaço que você abre e o seu tão escasso tempo que dedica aos amadores que sonham em entrar na profissão! Bom trabalho e saiba que muitos torcem por você!

  3. Adriano Rafael says:

    Aguinaldo,
    Um trabalho solitário e rodeado de fantasmas. Ou melhor: de amigos imaginários – (as) os personagens!
    Aprendendo sempre contigo.

    Bom trabalho, mestre.
    Abraçaço.

  4. Mourão.Lima says:

    Nunca senti vontade ser ser novelista,não tenho capacidade.O que eu gosto mesmo é de tomar minhas cachaças e pensar em bordões. PS.: Gosto de deixar as meninas de 87 anos taradas…hehehe..Abraços,mestre Aguinaldo.

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