NÃO ME TOQUEM PRA SUBIR

MORREU UM GRANDE ESCRITOR. QUEM SE IMPORTA?

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Todas os sábados, mal recebo a revista Veja no meu ipad, vou correndo à seção dos obituários. Por quê? Simples: já estando eu na extensa fila dos esperam que lhes cantem para subir, sempre tenho a impressão de que posso estar lá. Pois o que mais temos por aí é gente que já morreu e insiste em desconhecer o fato. E quem sabe eu não seria um deles? Só a Veja poderia me garantir que não. E, graças aos céus e por enquanto,  ela faz isso todas as semanas. Desta vez eu ainda não estava lá. Mesmo assim tive um choque ao ler que João Gilberto Noll, 70 anos, fora encontrado morto na casa onde vivia só.

Bom, “morrer, todo mundo morre” – já dizia minha mãe, dona Maria do Carmo Ferreira, aliás protagonista de “Senhora do Destino”. Tanto faz se essa morte é cercada de choro, velas e ranger de dentes dos parentes e amigos, ou se é solitária como foi a de Noll, um homem que escolheu a solidão para exercer melhor o seu ofício.

João Gilberto Noll era escritor de livros. Ao longo de sua carreira ganhou inacreditáveis cinco prêmios Jabutis, que é o modesto Prêmio Nobel brasileiro. Seria, mal comparando, nosso equivalente ao norte-americano Philip Roth. Num país onde a literatura tivesse valor ele teria o mesmo prestígio que Roth tem nos Estados Unidos e no resto do mundo. Mas quem, além dos críticos e do restrito público de leitores universitários (ainda existem, ou restaram só os grevistas?) sabia da existência dele e dos seus livros? Não acredito que mais do que dez, vinte, trinta mil pessoas. Para um escritor de tamanha importância, isso não é pouco, apenas. É nada, mesmo.

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Noll era gaúcho e homossexual. Na juventude tivera problemas psiquiátricos – chegou a ser internado. Tudo isso junto resultou em sua boa, atormentada e refinada ficção. Muito mais elaborada que a de outro conterrâneo seu, Caio Fernando Abreu, que não tinha a mesma estatura, porém hoje é cultuado como uma espécie de Renato Russo da literatura.

Eu disse que a literatura do falecido Noll era boa. Por que não disse que era ótima? Porque era um tanto ou quanto errática. Não havia nela um plano de trabalho. Os livros lhe saíam numa espécie de golfada. Sim, eram elaborados. Eram fruto de uma rigorosa disciplina. Mas, ao mesmo tempo, em sua obsessão pela forma, pela inovação, eram caóticos.

Vale a pena lê-lo? Sim, claro. Mas eu não recomendaria seus livros aos leitores de Danielle Steele, menos ainda aos de Kéfera. E hoje em dia estes são os únicos que ainda compram livros. Sou um rato – ou uma traça – de livraria. Não consigo passar por uma delas sem entrar e dar uma olhada nos livros. E o que vejo, ah, o que vejo… Na capa da maioria deles o que vejo é a mensagem clara de que o mundo como o conhecemos caminha para o fim e que a chamada cultura ocidental se deixou levar por caminhos tão estranhos e tortuosos que só poderá ser salva por um novo dilúvio.

Estou pessimista hoje, não? Falo de morte, de solidão, de juízo final… Tudo isso enquanto escrevo uma novela cujo objetivo claro é divertir as pessoas e fazer elas se mijarem de tanto riso. Mas o fato é que, para mim, existem dois mundos.  Aquele, do universal, que vai de mal a pior, e aquele meu, pessoal, que eu tento melhorar a todo custo.

Que tristeza, João Gilberto Noll. Tanto você fez e tão pouco você teve. Mas, pelo menos, foi fiel ao seu trabalho e a si mesmo. E isso é o que todos nós, mesmo os que já estão na fila dos que subirão em breve, devem ser a todo custo.

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6 thoughts on “NÃO ME TOQUEM PRA SUBIR”

  1. Bolívar Soares says:

    Lá se foi mais um grande nome da literatura, é só resta dizer que não se fazem mais escritores como antigamente, escritores como João Gilberto Noll!

  2. jorge rossi says:

    é , bem existencialista, fiquei triste com essa matéria

  3. Lisleine Lago says:

    O que conforta é saber que sua obra fica. E como todo grande nome à frente do seu tempo, o reconhecimento da maioria virá no futuro.

  4. Francisco Malta says:

    Grande escritor. Soube como ninguém lapidar um texto com as melhores palavras.

  5. Vania says:

    ele se parece com o Silvio

  6. Adriano Rafael says:

    Aguinaldo,

    João Gilberto Noll com seu jeito próprio de narrar seus personagens, sabia nos prender em suas deliciosas estórias.
    Vale lembrar que Noll teve muitos de seus livros adaptados para o cinema, como “Hotel Atlântico”, dirigido por Suzana Amaral em 2009.

    Um verdadeiro guerreiro da literatura brasileira.

    Abraçaço

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