MAS QUE BAIXINHO ATREVIDO!

 

Filho de árabes, nascido em Belém do Pará, onde cresceu ouvindo os discos de vinil de ópera do seu avô, certo dia Atalla Ayan abriu o bocão… E, de salto em salto, um tantinho bafejado pela sorte, nunca mais parou, até chegar ao palco do Metropolitan Opera House, onde foi consagrado como um dos mais talentosos tenores do momento, com um timbre que lembra muito o jovem Plácido Domingos.

Não sei se vocês sabem, mas eu sou apaixonado pela ópera. É dela que tiro algumas das mais tresloucadas histórias de minhas novelas. Sei até algumas de minhas árias preferidas de cor, embora, com minha voz de pato rouco atual, não consiga mais cantá-las. Não consigo ir a Paris sem fazer uma visita ao columbário do Cemitério Père Lachaise  para rezar pela Deusa Maria Callas diante do nicho onde suas cinzas estão guardadas.

Certa vez, andava eu a perambular pelo Père Lachaise,  quando um jovem japonesinho se aproximou de mim e, em inglês, me pediu uma informação. Eu nem esperei que ele dissesse qual era e já o orientei: “se você está procurando o túmulo de Jim Morrison, do The Doors”… Ele me interrompeu e continuou: “desculpe, não era isso que eu ia lhe perguntar, eu queria saber onde fica o túmulo de Maria Callas”.

Minha ópera preferida, apesar daquelas experiências germânicas de Wagner de que Paulo Francis gostava tanto, é “La Traviata”, de Verdi.  Certa vez, na Ópera de Paris, depois de ver a décima, sei lá, décima-primeira “Traviata” da minha vida, proferi uma frase que depois virou maldição:

“Só quero morrer depois de ver mais três “Traviatas”.

Já vi duas. Agora vivo fugindo da minha ópera preferida, pois  a frase, ainda que proferida de modo fútil, acabou ganhando na minha mente um peso que eu não esperava. A Traviata, não sei se vocês sabem, morre no final da ópera, e é uma das mortes mais tristes, mais pungentes de se ver. Sempre que a vejo, choro feito um viúvo desesperado. Mas nunca mais a verei. A não ser que algum dia eu decida morrer não no palco, como a pobre Camille (“A Traviata” é uma adaptação de A Dama das Camélias),  mas na platéia…  E não cantando de modo absurdamente trágico e maravilhoso… Mas engasgado de emoção.

Vejam  aí embaixo Atalla Ayan, o baixinho atrevido de Belém do Pará, cantando um dueto  de “La Traviata” com ninguém menos que Olga Peretyatko, a soprano preferida de Francisco Patrício, e tentem entrar no clima. Dizem que a ópera é uma arte em desuso, mas ela tem milhões de fanáticos admiradores em todo o mundo. Eu sou um deles. E, repito, posso lhes garantir que muitas das cenas de minhas novelas das quais vocês tanto gostaram foram inspiradas nelas.

Ah, sim, não posso deixar de lhes contar. Esta incrível Olga Peretyatko, a soprano mais prestigiada do momento, também viveu um conto de fadas. Muito jovem, ela  era uma simples faxineira de um teatro de ópera em seu país – vejam no Google, não me lembro qual é agora. Um dia, enquanto manejava o esfregão, ela soltou a voz e começou a cantar alguma coisa que ouvira pouco antes durante a sessão do teatro. Neste momento ia passando um professor de canto que frequentava os bastidores. Ele parou para ouvir aquele rouxinol que ainda por cima caprichava tanto na faxina… E bem… O resto, meus queridos, é pura ópera.

 

 

 

One thought on “MAS QUE BAIXINHO ATREVIDO!”

  1. JOAO DARLEI says:

    Lindas cenas de “Fera Ferida” com a família Weber ao fundo musical de Wagner e a morte de “Reginaldo” em “Senhora do Destino” ao som de ópera também são de arrepiar.

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