O MELHOR É FICAR CALADO

 

Pense duas vezes antes de dizer “bom dia”, “como vai” ou até sorrir, pois, nos dias atuais, haverá sempre o risco de ser mal interpretado

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Foi no domingo da semana passada. Enquanto preparava o bacalhau da Páscoa  – vocês podem copiar minha receita aqui mesmo, num dos posts anteriores – aproveitei para pensar na vida – na minha e na dos que me cercam. E, de pensamento em pensamento, cheguei a Abelardo Barbosa, o Chacrinha, que costumava atirar na platéia pedaços do peixe já salgado aos gritos de: “vocês querem bacalhau?” E a platéia, em vez de se considerar agredida, respondia que “sim, queremos”, enquanto disputava os pedaços de bacalhau aos tapas.

Ah… Bons tempos aqueles em que o mais famoso apresentador de programas de tevê podia fazer isso sem ser acusado de racismo, machismo ou preconceito nem ser suspenso de suas funções e processado. Linda época em que tínhamos o hábito de confiar no próximo e não ver maldade em todas as suas palavras e atos. Eu me pergunto se  um Chacrinha, com todas as irreverências que era capaz de praticar ao vivo e a cores, teria vez nestes dias em que a ditadura do politicamente correto faz com que pensemos duas vezes antes dizer “bom dia”, “como vai” e até sorrir, pois há sempre há o risco de sermos mal interpretados.

De Chacrinha para cá o mundo mudou, E, ao contrário do que apregoam os adeptos do politicamente correto, cuja sede de justiça beira a insanidade, ele mudou para pior. Eu, que lido com a força das palavras, sinto isso mais que os outros. Ainda esta semana, enquanto escrevia uma cena da minha próxima novela em que pontificava dona Valentina Marsalla, a personagem de Lília Cabral, fiz ela escolher, dentre muitos vestidos jogados sobre a cama, um pretinho deslumbrante e usar o seguinte argumento para a escolha:

“O diabo veste preto. Eles que me aguardem!”

E aí, blém-blém! O sino da autocensura tocou: “o diabo veste preto?”- pensei: “será que alguém vai ficar ofendido ao ouvir isso?” No pensamento de um ficcionista a dúvida mora ao lado de uma senhora do nariz de corvo chamada Paranoia. E assim, no minuto seguinte, eu já me via, por causa desta simples frase que Lília dirá com a precisão que lhe é própria, execrado pelo público, demitido pela emissora e condenado à pena máxima que seria a proibição de escrever novelas para o resto da vida.

E é aí que estamos. No modo como nosso vocabulário é constantemente policiado. Dia desses, numa reunião de amigos, chamei um adulto que mede menos de um metro e meio de altura de “anão”. Fui imediatamente censurado por uma moça que usava uma camiseta com a imagem de Che Guevara:

“Uma pessoa de baixa estatura não é anão. É um cidadão verticalmente prejudicado”.

Depois de ouvir isso fiquei mudo e quedo, pois sabia que, se a contestasse, a moça seria cada vez mais radical nos seus argumentos até organizar contra mim um ato de protesto. Mas, dentro de mim, um diabo vestido de preto repetia às gargalhadas: “cidadão verticalmente prejudicado?” E acrescentava: “anão é anão. Assim foi e é assim que deve ser até o fim dos séculos”. Eu, temeroso que sua voz se fizesse ouvir através de mim e assim me tornasse uma pessoa “não confiável” aos olhos dos presentes, lhe pedi: “pelo amor de Deus, cala essa boca de praga!”

Boca de praga?!!!!!  Alguém vai se sentir ofendido com isso, não tenho a menor dúvida.

Porque sim, neste momento tão delicado de nossas vidas de criadores quem tem opinião tem medo. Basta uma simples palavra mal colocada e você será a vítima da semana em todas as mídias sociais, que, estas sim, têm o direito absoluto e quase Divino de ofender quem quer que seja com todas as palavras que não podem mais ser usadas, incluindo aquele clássico de todas as épocas que é: “veado!”. O mundo mudou, mesmo. E do jeito que vai, ficará insuportavelmente chato.

Eu disse “chato”? Desculpem, falha minha, esta é uma das palavras mais perigosas do momento, dizer que alguém é chato é o caminho mais fácil para ir parar nas masmorras do politicamente correto… Por favor, me corrijam! Em vez de chato, leiam “tedioso”.

3 thoughts on “O MELHOR É FICAR CALADO”

  1. Spectro-Méier says:

    É ilegal, imoral ou engorda.

    1. Studio says:

      Perfeito

  2. Carla Link says:

    Concordo plenamente com o texto!

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