LEMBRANDO IBRAHIM SUED

Quem nunca preparou e comeu macarrão com mortadela perdeu uma parte importante do que nós costumamos chamar de “experiência de vida”

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“Já comi muito macarrão com mortadela no Natal” – me disse certa vez Ibrahim Sued, colunista social e um dos homens mais refinados de sua época.
Sim, perguntarão vocês, mas de que época? Afinal, hoje em dia são poucos os que já ouviram falar dessa figura tão importante do seu tempo. E eu respondo: como bem diz o título de sua autobiografia – “30 anos de Caviar” – Ibrahim pontificou na crônica social durante trinta anos, entre os meados das décadas de 50 e 80. E continuou fazendo o que sempre fez – colunismo social – até morrer em 1995, quando sua especialidade jornalística já caira em desuso e ele não tinha mais o mesmo prestígio.
“Sorry, periferia”. Era assim que ele costumava se referir, com certa ironia, aos deserdados da sorte que não tinham acesso ao mundo de ricos, belos e malditos em que vivia, sem saber que, no fim da vida, era lá que ele estaria: na periferia do jornalismo. A coluna social foi em sua época, o que é agora a futilidade dos bloggers: uma verdadeira mania. Cada jornal tinha o seu. Mas nenhum alcançou a notoriedade de Ibrahim, que pairou sobre todos os outros por uma única razão: ele criou um tipo.
Sim, havia dois Ibrahim Sued: o que vivia engalfinhado com a língua portuguesa – ele não conseguia dominá-la e assumia isso -, fanfarrão e dado a rompantes… E havia o outro, que tinha uma certa consciência do seu despreparo e se afligia com isso. Eu, que fui escalado na redação de O Globo para revisar e tornar apresentável o texto de sua coluna – e fiz isso durante cinco anos -, conheci os dois. Abominei o primeiro, mas me encantei com segundo.
Todos os dias, por volta de 17 horas, Ibrahim chegava na redação, ia direto à minha mesa e me entregava a coluna. E eu tratava de torná-la legível e engraçada, sabendo que aquele seria o trabalho mais difícil desse dia. Numa véspera de Natal em que ele chegou à hora de sempre e me entregou o presente de todos os anos – uma gravata -, travamos um diálogo no qual ele pronunciou a frase com que inicio essa crônica: “já comi muito macarrão com mortadela no Natal” – ele me disse. E eu sorri, porque naquele meu Natal a minha ceia seria essa.
Pois, tal como Ibrahim Sued na sua fase inicial de jornalista, já comi muito macarrão com mortadela, além de outras iguarias improvisadas a partir do que minha precariedade financeira permitia. O que resultou desse improviso? Uma boa experiência de vida que utilizo em minhas novelas… Além do gosto, que o tempo e o progresso refinaram – pela arte da cozinha. Sim, eu adoro cozinhar, assim como adoro degustar o que cozinho. Embora a vida me leve a frequentar restaurantes estrelados e chefs idem, e mesmo apreciando a comida que eles me servem, devo deixar a modéstia de lado e dizer que em nenhum deles encontro o sabor de vitoriosa realização proporcionado pelos pratos que eu mesmo preparo.
Sei que há várias maneiras de contar o que foi minha vida até chegar aos dias de hoje. E uma delas seria através dos pratos que aprendi a preparar – ou a degustar – desde aquele macarrão com mortadela improvisado no meu começo difícil.
Fui ingrato com Ibrahim Sued. Ainda fazia a revisão de sua coluna quando escrevi no jornal alternativo “Opinão” um texto devastador sobre ele intitulado “Sorry, periferia… Já não se come caviar como antigamente”. No dia em que meu texto foi publicado, todos na redação esperavam um violento desenlace; achavam que Ibrahim, cruelmente retratado por mim, partiria para o desforço físico. Mas naquela tarde ele fez o de sempre. Chegou, foi até minha mesa, me cumprimentou e me entregou a coluna… E nunca tocou no assunto. Grande Ibrahim Sued. Já não se faz mais colunistas – sociais ou não – como antigamente.

2 thoughts on “LEMBRANDO IBRAHIM SUED”

  1. Spectro-Méier says:

    Hoje podemos citar, para efeito de comparação, o longevo Amaury Jr. que bebe nessa fonte. Dito isso, “ademã que eu vou em frente”.

  2. Antonio canuto neto says:

    Colunista que sempre admmirei, Ibrahim dispensa comentario. uma otima afirmaçao do seu colega que todos os dias recebia o que o mesmo sempre criava

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