TIJUCA PROFUNDA E TRISTE

 

A história do casal homoafetivo (na foto abaixo) expulso da vila onde morava na Tijuca me leva a concluir que, 53 anos após minha passagem por lá, tudo continua na mesma.

casalagredido

Em 1964, quando cheguei no Rio de Janeiro, após algumas peripécias que não vale a pena relembrar aqui, fui morar na rua Itacuruçá, na Tijuca mais profunda e conservadora. Fiquei de favor no apartamento de uma senhora recém-desencarnada, sem lenço e sem documento como era a moda naquela estação, até conseguir um emprego de copydesk – profissão hoje em desuso – na redação do jornal Última Hora.

Minha temporada na Tijuca foi uma verdadeira estação no inferno. Não só por causa dos narizes empinados dos vizinhos, que me olhavam como se eu fosse um monte de lixo fedorento. Mas por causa dos filhos destes, que se dedicavam, com violenta aplicação, ao exercício da homofobia. Dizem que traumas passados resultam em neuroses no futuro. Não sei se aconteceu comigo por conta dos traumas sofridos na Tijuca – nunca frequentei o divã de um analista, e só faria isso se ele pagasse um preço altíssimo para ouvir minhas histórias de vida.

De qualquer modo, as más lembranças desse período, cinquenta e três anos depois, continuam vivas e de vez em quando me vêm à cabeça de forma muito nítida. Por exemplo: quando saía do jornal na Praça da Bandeira e chegava de ônibus na Conde de Bonfim às 23h encontrava sempre um bando de adolescentes esperando na esquina para me agredir. Eu tinha que descer do ônibus e sair correndo, com eles no meu encalço, até entrar no prédio onde morava. O meu pavor era tanto que eu quebrava todos os récordes dos 100 metros rasos e assim eles nunca me alcançavam. Mas me davam muitas pedradas nas costas.

Por que estou aqui, entregue a essas lembranças tão desagradáveis? Porque, cinquenta e três anos depois, a Tijuca profunda perdeu a qualidade de vida – hoje é um gueto cercado de favelas – mas, em matéria de nariz empinado e preconceito, parece que continua a mesma.

Senão, vejamos: o engenheiro Flávio Miceli e o funcionário público Eduardo Michels, um casal homoafetivo, ambos sessentões,  moram – ou moravam, não sei mais – numa vila na Tijuca. Imagino que os vizinhos não os viam com bons olhos, porém… O fato é que eles tinham o direito de morar onde quisessem e lá não tinham cometido nenhum crime. Por isso, apesar da hostilidade latente, estavam no direito de repetir para os vizinhos a famosa frase de Zagallo: “vocês vão ter que me engolir!”.

Podiam, sim, mas estavam enganados. Tanto que, no último fim de semana, depois de reclamar às 5h da manhã de uma festa barulhenta que se repetia na vila todas as semanas, os dois foramsurrados pela vizinhança, a qual, depois que saíram em busca de socorro no hospital, trocou as chaves do portão da vila e dessa forma, no retorno deles, impediu os dois de entrar em casa. Simples assim: foi essa a maneira mais direta de os vizinhos dizerem aos dois que eles não eram bem vindos.

O fato aconteceu no dia 21 de abril. Oito dias depois, no dia 29, os dois continuavam sem poder entrar na vila. Não houve um único vizinho que se dignasse a abrir o portão para que pudessem ter acesso à casa onde moram – ou moravam – nem que fosse para trocar de roupa. A essa altura, conforme o jornal O Globo noticiou, a Defensoria Pública ainda pensava em entrar com uma medida cautelar para que os dois tivessem acesso aos seus pertences. Se isso aconteceu, não sabemos, pois nada mais voltou a ser noticiado sobre o caso.

Ou seja: apesar dos prédios de muito andares que substituíram os da minha época, do metrô, da suposta modernidade que afinal chegou ao bairro, a Tijuca preconceituosa resistiu, sobreviveu a todas as mudanças e continua lá até hoje. E não perde uma ocasião de deixar isso bem claro como aconteceu neste caso. Sei que nem todo mundo no bairro é assim – e dou graças a Deus por poder escrever isso. Mas, quando acontece uma violência como essa os tijucanos que não concordam com ela precisam aparecer e se manifestar, para que a postura dos moradores da vila não se torne a oficial do bairro todo.

3 thoughts on “TIJUCA PROFUNDA E TRISTE”

  1. Jefferson machado says:

    Isso é muito triste! Vergonhoso!

  2. Ana Luisa Mainardi says:

    É isso aí. Profunda tristeza. Sei lá, as vezes penso que se fossem ETs dariam o maior ibope. Essa gente filha daquilo deveria levar uma surra pra jamais esquecer.

  3. Diogo Patzlaff says:

    Muito se fala em MUDANÇA nas leis, mudança no modo de pensar e ver a vida, mas EU, vejo que há avanços em muitas áreas, mas o ser humano não busca evoluir como pessoa, vive sempre no passado e para o passado, pessoas são infelizes e buscam na felicidade do outro fazer a destruição, e aonde estão as leis que tanto são ditas e informadas em todos os meios de canais?
    Que as pessoas possam evoluir como pessoas a cada dia, não regredir e se tornarem cada vez mais amargas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *