JÁ DECOROU SUAS FALAS?

 

Além de mestres na arte de dar vida a terceiros, os atores são verdadeiras máquinas de decorar textos. Mas quando o mecanismo falha…  Sai de baixo.

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Uma coisa que sempre me espantou foi essa facilidade dos atores  de decorar páginas e páginas de texto.  Como  eles conseguem? Cada um afirma ter seus próprios truques. E existem até fenômenos fartamente comprovados, como é o caso de Antônio Fagundes, que lê o texto apenas uma vez e depois, pimba!, repete palavra por palavra sem esquecer nem ao menos uma miserável vírgula.

A única vez que consegui decorar um texto (e de tal modo o fiz que o guardei pra sempre na memória), foi nos tempos de ginásio. Ia haver uma festa qualquer, e uma aluna CDF, cujo nome usei depois numa de minhas novelas (“Linda Inês”) fora designada pra nela declamar o monumental poema “Navio Negreiro”, de Castro Alves. Só que, a certa altura dos ensaios, Linda Inês ficou gripadíssima. Alguém achou que deviam indicar um stand-by pro caso de, no dia D, ela amanhecer afônica… E adivinhem quem foi o escolhido: eu, é claro.

Virei um dia e uma noite a decorar o poema, que começava assim:

“Era um sonho dantesco./O tombadilho que das luzernas/avermelha o brilho/em sangue a se banhar./Tinir de ferros, estalar de açoites/legiões de homens negros como a noite/horrendos a dançar.” E por aí fui, centenas de vezes. Decorei não apenas as palavras, mas também a entonação que achava mais apropriada. E, ao final de uma noite insone, me vi com o texto na ponta da língua, tal como o tenho até hoje.

Mas no dia seguinte Linda Inês apareceu sem o menor vestígio de rouquidão, e eu tive que me recolher à minha insignificância de stand by. Com um travo de despeito na garganta, nada mais pude fazer além de, no final do seu “Navio Negreiro”, aplaudi-la. O fato é que os truques dos atores funcionam.

Em “Senhora do Destino” Susana Vieira era capaz de gravar 40 cenas num só dia e ainda fazer lista de compras do supermercado no intervalo. Já em “Vale Tudo” houve um momento em que Regina Duarte reclamou: “Meu cérebro está parecendo uma esponja! Já se encharcou tanto de palavras que não consegue absorver mais nada!”

Além de gênios na arte de dar vida a terceiros, os atores também são verdadeiras máquinas da arte de decorar textos. Mas de vez em quando o mecanismo falha, e aí… Sai de baixo

Uma vez eu vi isso acontecer com Ítalo Rossi. Ele fazia um travesti chamado “Elpídio” num episódio de Plantão de Polícia escrito por mim e, no final, aparecia vestido de Sarita Montiel e cantava “La Violetera”.

A canção começava assim: “como aves precursoras, de primavera…” Ítalo entrou com seu vestido longo e sua cestinha de violetas à mão e cantou: “Como aves primaveras, de precursora…”

O diretor mandou parar, alertou o ator para o engano e mandou ele começou de novo. E Ítalo começou… E recomeçou por 18 vezes… E durante 18 vezes cometeu o mesmo erro… Até que o diretor, desesperado, disse que era melhor cortar a cena.

Ao que o ator deve ter pensado: ele, vestido de Sarita Montiel, com aquela cestinha cheia de flores na mão, a cantar “La Violetera”… E iam cortar a SUA cena?! E pediu:

“Deixa eu tentar de novo!”

O diretor disse que não e não, mas, ante a insistência do ator, afinal cedeu, com uma ressalva:

“Vai ser a última vez!”

E foi, sim, porque dessa vez não teve erro.

 

2 thoughts on “JÁ DECOROU SUAS FALAS?”

  1. Ayacos Cavendish says:

    Ansioso pelo retorno das vilãs Nazaré e Perpétua, mas não podemos nos esquecer de Altiva Pedrosa que anunciou um “I’LL BE BACK”. Que ela retorne de fumacinha kkkkkkkkkkkk

  2. Ayacos Cavendish says:

    Já ia me esquecendo, assim como fizeram em “Guerra dos Sexos” um homenagem ao Paulo Autran no quadro-vivo. Poderia ter uma estátua na praça da cidade com as feições de Cândido Alegria para homenagear Armando Bogus e sua personagem inexorável.

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