APRESENTANDO LILI

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Dê um passeio pelas estradas principais da Baixada Fluminense. Preste atenção nos nomes da legião de motéis plantada às suas margens: Dallas, Nevada, Safari, Pink, Las Vegas, Arenas, Express, Bonanza, Te­xas, Rodeo… Até o Inca Motel, cuja decoração em vermelho lembra o próprio sangue de Atahualpa se­meado no Vale do Sol.

Sempre que passar pela Via Dutra ou pela Rio-Petrópolis e vir esses letreiros, ima­gine que as pessoas encarregadas de dar nome aos motéis da Baixada acabam por anotar um subtexto, uma escrita irônica e sutil que, devidamente traduzi­da, contaria de modo mais verdadeiro possível a crônica da violência permanente em que vive mergulhada a região.

Não é à toa que, para começar, eu lhe apresento Lili dentro de um desses motéis. Em sua brilhante car­reira de bandida, de estrela maldita de todas as bo­cas da Baixada Fluminense, ela conheceu a maioria deles. Alguns – uns poucos – como cliente sempre bem acompanhada; outros – a maioria – como uma espécie de anjo exterminador cuja espada era a sua sinistra carabina de calibre 12.

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Lili e seu bando, du­rante um breve período antes que partissem para vôos mais altos, especializaram-se em assaltar motéis, em operações relâmpagos das quais não escapavam nem mesmo os clientes, obrigados a se enfileirar, nus e envergonhados, enquanto seus pertences eram re­colhidos de quarto em quarto.

Sempre quis contar a vida de Lili Carabina, desde que a conheci por acaso numa visita que fiz à Vila Kennedy. Lembro-me como se fosse hoje: um terre­no baldio, num matagal banhado pelo sol das primei­ras horas da manhã, e lá estava ela rodeada de crian­ças com as quais brincava; não havia nada nela que lembrasse uma assassina, mas minha intuição nunca falhou: aureolada pela luz do sol, um brilho nos olhos quan­do me olhou apenas uma vez e rapidamente, ela tam­bém não me pareceu, naquele instante de fugaz ino­cência, uma simples dona de casa, uma mulher comum de Vila Kennedy. E o tempo ia me dizer – eu tinha razão.

De qualquer modo, sempre imaginei a história de Lili como se fosse um filme. Sempre alimentei, desde que a entrevistei a primeira vez, e depois, quando conversamos muitas outras vezes, o interesse venal de um dia escrevê-la e vendê-la para um produtor de cine­ma. Assim, não encontrei forma melhor para contá-la senão esta: nada a ver com os romances que até aqui escrevi, nem com os relatos ou as reportagens – mas como se a gente estivesse no meio de uma plateia, ven­do imagens marcantes da vida dessa mulher terrível, algumas ilustradas com minha voz a guisa de comen­tários.

Lili, como os motéis, é uma ocorrência típica da Bai­xada; como são muitos os motéis, muitas são as Lilis, embora nenhuma tão famosa quanto esta cujos fei­tos aqui relato. Eu me lembro, sempre que a história de Lili me vem à mente, daquela tese do brasileiro cor­dial; se ela prevalece, então, sinceramente: acho que a Baixada Fluminense não faz parte do Brasil.

(É assim que começa o meu livro “A História de Lili Carabina”, que já foi episódio num seriado de tevê, filme e agora, adaptado por Júnio Kadetti, torna-se uma peça de teatro estrelada por Viviane Araújo e grande elenco, que estreia no dia 11 de agosto no Teatro Jaraguá, em São Paulo. O livro terá uma nova edição ainda este ano)

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2 thoughts on “APRESENTANDO LILI”

  1. Spectro-Méier says:

    Ela faria bom par com o Tenório Cavalcanti, inofensivo na aparência mas quando se juntava a sua “Lurdinha”, sai de baixo …

  2. Severino Ramos Barbosa says:

    Parabenizo Aguinaldo Silva pela garra e dedicação que tem demonstrado para com seu trabalho. Parabenizo, também, Júlio Kadetti pela adaptação do texto do Mestre Aguinaldo. Sou escritor e sei o quanto é gratificante vermos nosso trabalho reconhecido e divulgado para que todos tomem conhecimento do nosso feitio Acompanho o trabalho de Aguinaldo desde a Minissérie Padre Cícero. E sei que o que este autor escreve sempre cai no gosto do povo. Sou admirador do trabalho de Aguinaldo Silva.

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