VALE A PENA SAIR DO BRASIL?

 

Você está decepcionado com o Brasil e pensa em ir embora do país? Então se prepare, porque, lá fora, conseguir um lugar ao sol, ou pelo menos à sombra, não está fácil. Que o diga ANDRÉ LUÍS CIA, na foto e autor do texto abaixo, sobre a barra que vem enfrentando para se estabelecer em outro país num outro continente. Se vale a pena passar por tudo isso? Leiam o artigo  e vejam o que ele acha a respeito.

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Há quase dois anos sofri o maior golpe da minha vida e fui literalmente nocauteado ao chão. Conheci na sua total complexidade o que era a palavra inferno. Tudo começou naquela fatídica noite de 3 de agosto de 2015 quando perdi de uma forma trágica e brutal a pessoa que mais amei em toda minha vida: minha mãe. O sentimento de impotência, de tristeza, a angústia e a depressão foram inevitáveis.  Eu tinha dois únicos caminhos a seguir: ou morria junto com ela ou seguiria apesar da insistente e interminável dor que me consumia a cada dia. Optei pelo segundo trajeto, pois a conhecendo tão bem como eu a conhecia, sabia que ela nunca aceitaria que eu desistisse de viver. Não sei de onde tirei força, mas ela veio sem pedir passagem.

E, coincidentemente, “Desejo de viver” foi o nome dado ao livro que escrevi dois meses depois de seu falecimento – seu último pedido em vida. Ela acreditava que quem conhecesse um pouco de sua triste e emocionante história de lutas e de superação nunca abdicaria à própria vida. E a mensagem do livro passou a ser também o meu lema.  Comecei a viver o hoje sem pensar muito no amanhã, afinal de contas, esse amanhã não nos pertence. Temos que viver bem o nosso presente. O futuro é algo imprevisível.

Sabemos que estamos no caminho certo quando perdemos o interesse de olhar para trás. O objetivo deste relato foi o de que ele possa ajudar outras pessoas que, assim como eu, em algum momento de suas vidas passaram por algo que lhes tenha tirado a vontade de viver e de lutar, mas que, em contrapartida seguiram sem olhar para trás.

Quando decidi que continuaria lutando eu sabia que o destino ainda me colocaria à prova, mas eu tinha convicção de que as lutas que viriam seriam para me mostrar se eu merecia essa segunda chance de viver. E posso lhes garantir que minha intuição estava certa. Seis meses após a morte da minha mãe eu havia lançado o livro no Brasil e quatro meses depois do lançamento, tomei uma decisão radical que mudaria para sempre minha vida: sairia sozinho do país em busca de um sonho maior que era o levar a mensagem do livro para pessoas de diferentes lugares e culturas.

Um risco? Sim! Um grande risco.  Sair do conforto da minha casa, do apoio familiar e dos amigos, separar-me do meu grande companheiro e amor de minha vida, Fer, e me aventurar rumo ao desconhecido não foi uma tarefa fácil de ser tomada, pelo contrário. Seria literalmente recomeçar do zero, mas o que é a nossa vida senão um eterno recomeço?

Há um ano fora de casa o que vivi já daria uma nova história repleta de nuances. Como numa roda gigante de um parque de diversões, posso lhes garantir que fui do alto ao solo muitas e muitas vezes, e que o desespero e a vontade de desistir também retornaram ainda mais fortes e intensos do que no passado. Só que a cada novo tropeço ou barreira que eu enfrentava existia uma força muito forte que soprava nos meus ouvidos: “Vá! Siga em frente. Levante a cabeça e não desista nunca”.  Não precisa ser sábio para adivinhar de onde vinha essa voz, não?

Meu primeiro destino nessa nova jornada foi Dublin, na Irlanda. Eu que já havia morado ali em 2008, achei que uma segunda vez no país seria mais fácil. Ledo engano! Para sobreviver no exterior, muitas vezes, você tem que se despir de qualquer vaidade pessoal ou profissional. Mesmo amando meu trabalho como jornalista e roteirista, fui obrigado a encarar os chamados subempregos para sobreviver mesmo tendo passaporte europeu – fica a dica para quem imagina que ele seja a salvação de tudo-. Fui cleaner, cuidador de idosos, preparador de alimentos na cozinha de um restaurante, entregador de panfletos, enfim, vivi uma nova rotina que não estava mais nos meus planos. Só que eu tinha por trás disso tudo a missão que havia me levado até ali: lançar o meu livro naquele país, algo que consegui em janeiro deste ano graças ao apoio incondicional de um grupo de artistas brasileiras de diferentes manifestações que realizaram um lindo evento em homenagem à minha mãe.

Era hora então de alçar novos voos. E foi assim que decidi vir para Barcelona, cidade que me encantava pela diversidade e pela possibilidade de um dia trabalhar com o que mais amo: escrever. Mas, como sempre, de aventuras e desventuras, novos capítulos da minha trajetória foram sendo escritos. O fantasma do desemprego aqui ainda é grande, o famoso QI (quem indica) é o que impera, e o subemprego é o único caminho para quem não domina dois idiomas imprescindíveis: o espanhol e o catalão.

Há seis meses na cidade, já fiz de tudo um pouco: faxina, atendente de sex shop, vendedor de cosméticos, dentre outros trabalhos temporários. Perdi duas vezes minha carteira, todo dinheiro do depósito, dentre outros problemas que passei. Muitas vezes bateu o desespero e os questionamentos: “Por que estou passando por tudo isso? Por que trabalho para sobreviver em algo que não me dá prazer? Por que abandonei minhas duas maiores vocações: o jornalismo e o roteiro?”. Foram tantos os porquês sem respostas, porém, eu sabia que algo estava por trás desta viagem. Nada acontece na nossa vida por acaso. Se eu tinha vindo parar aqui é porque havia algo por trás disso tudo. E a vida me mostrou novamente que eu não estava errado

Retomei recentemente meu trabalho como repórter- estou fazendo uma série sobre brasileiros que, assim como eu, saíram de nosso país em busca de novos sonhos de vida. Outros dois projetos são o de traduzir e lançar o livro em espanhol e depois adaptá-lo para o cinema.  Projetos e vontade de realizá-los não me faltam.

Sem medo de errar posso dizer que tive mais acertos do que perdas nessa minha “nova vida”. Nada tem sido fácil prá mim, pelo contrário, mas quem disse que seria?? Quando eu saí de casa estava consciente de tudo que poderia passar: carência, solidão, medo, frustração, desemprego, dificuldades financeiras, mas absolutamente nada me fez desistir. A cada dia me sinto mais motivado e desafiado a sonhar. Melhor do que isso: a deixar o sonho sair do papel, ganhar asas e voar livremente como um pássaro. (André Luís Cia)

9 thoughts on “VALE A PENA SAIR DO BRASIL?”

  1. Lisleine Lago says:

    Belo depoimento, André. Siga em frente e sucesso! Beijos

  2. Diogo Patzlaff says:

    Nunca podemos ter medo de cair, pois levantar é sempre o ponto mais importante, nossa queda não pode nos limitar e sim nos fortalecer sempre, é sempre mais fácil olhar para o lado e para os outros, o do outro é sempre mais fácil e bom !
    Que possamos nos espelhar sempre em tudo para que possamos cair, mas de forma mais macia.

  3. Bolívar Soares says:

    Eu que acompanho sua trajetória em outros países, como seu grande amigo e confidente, só posso deixar aqui minha admiração por sua coragem e garra em dar um novo sentido a sua vida!! Parabéns!!

  4. Mônica Pradela says:

    Parabéns meu querido André, belíssimo depoimento!
    Sucesso sempre… Estou na torcida por ti!

  5. Fabiana Pontes says:

    André Cia Parabéns, admiro seu trabalho e sua trajetória é linda apesar de tantas tristezas… Você é um brasileiro que não desiste nunca, brasileiro que inspira outras pessoas a continuar lutando… Obrigada por compartilhar de suas experiências. Parabéns guerreiro

  6. Néia Gomes says:

    Muito lindo André.. sempre acreditei em vc..e não há vitórias sem.lutas…

  7. Rômulo Gonçalves says:

    Estimado amigo André!
    Coragem e determinação são adjetivos valorosos que você tem, reconhecidamente! Os seus sonhos são nobres e verdadeiros!
    Eu, minha família e todos os seus amigos estamos torcendo muito pelo seu êxito e sucesso!

  8. adriano rafael vaz says:

    Grande André!
    Amigo fiel como poucos. Belíssimo e corajoso depoimento.
    Abraçaço

  9. Julielson says:

    André Cia querido, que orgulho de você e desse seu relato. Abandonar toda uma história para ir atrás dos próprios sonhos, é uma tarefa árdua e demasiadamente desafiadora. Você é um exemplo para mim, que venho passando por algo semelhante ( nas devidas proporções ) . Desejo-lhe tudo de melhor. Adorei seu texto. Meus parabéns e muito sucesso nessa sua jornada que já é vitoriosa. Um beijo no seu coração. Amo muito você.

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