QUANDO FICO À VONTADE

Se me perguntarem em que ambiente profissional eu me sinto mais em casa, responderei sem pestanejar que não é entre roteiristas, menos ainda entre telenovelistas: é entre jornalistas.

Embora, pelo menos oficialmente, eu não exerça a profissão desde 1978, e neste momento trabalhe ao mesmo tempo e por conta própria em minhas 15ª e 16ª novelas  – sim, duas ao mesmo tempo, o que para mim não é nenhum bicho de sete cabeças -, ainda costumo dizer que só estou telenovelista, mas o que sou mesmo é jornalista. Assim, me senti à vontade e em meu próprio ambiente, ao gravar ontem o programa Persona da TV Cultura e dividir o palco com um auditório entusiasmado e três coleguinhas afiadíssimos: Atílio Bari, Cristina Padiglioni e José Armando Vanucci.

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Tão bom foi me encontrar e conversar com eles que alguém devia ter feito um making of nos bastidores. Pois no camarim, onde nos reunimos antes e depois da gravação do programa, exercitamos a pleno nossos vícios profissionais e falamos – bem e mal – de tudo e todos. Éramos jornalistas at work.

Ali, em meio a tanto papo, houve um momento em que lembrei dos meus primeiros tempos de jornalista, nos idos de 1962, ainda no Recife, quando saíamos da redação da Última Hora em plena madrugada e íamos comer um chambari (nem me perguntem o que é) num barraco do Cais de Santa Rita, e lá ficávamos a falar e falar de tudo e todos.

Sim, embora não a exerça, adoro esta profissão de jornalista. É por isso que, quando dou entrevistas, acabo falando demais. Não porque seja boquirroto, mas porque nunca me sinto um entrevistado e sim, alguém que bate um papo com um colega.

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E neste encontro de ontem, que colegas. Em nenhum momento da entrevista Padiglione, Vanucci e Bari se preocuparam com fofocas e sim com o que realmente deve ser notícia. Minha vida profissional foi esmiuçada por eles em suas perguntas sem que cedessem ao brilho falso e tão em voga da fofoca. Participar do bate-papo de bastidores primeiro, e depois do programa em si, foi para mim um prazer enorme. Ainda mais por causa do auditório, no qual havia pessoas de todas as idades, que também foram lá para me fazer perguntas e o fizeram – mas apenas sobre o meu trabalho.

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A elas eu disse que sou um trabalhador compulsivo; tenho obsessão pela palavra certa e a precisão nos meus diálogos; escrevo todos os dias, mesmo quando estou de férias, pois para mim escrever é como tocar piano ou jogar tênis – é tudo uma questão de treino; sim, sou capaz de escrever duas novelas ao mesmo tempo, embora a certa altura tenha que me decidir por alguma delas e seguir em frente apenas com esta; não vou parar de escrever, pois, depois disso, só me restaria atravessar a porta sobre a qual está escrita a palavra “saída”, ou seja, a morte; que não teria escrito tudo que escrevi se antes não tivesse vivido e aprontado muito; que, nos Estados Unidos, pessoas do nosso metier se curvam respeitosas quando descobrem que já ganhei dois Emmys, mas aqui, mesmo que eu exiba minhas cicatrizes em praça pública, são poucos os que me aprovam e respeitam e a maioria exige de mim que prove minha capacidade a cada instante.

Enfim, falei e disse, fui ouvido, aplaudido e acarinhado pelo coleguinhas e pelo auditório no que para mim foi uma tarde mágica… Tão mágica que fiquei com pena que – como tudo na vida – ela tenha terminado.

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As fotos que ilustram este texto foram gentilmente cedidas pelo ator José Negreiros, que estava na plateia e registrou tudo.

10 thoughts on “QUANDO FICO À VONTADE”

  1. José Negreiros says:

    Foi uma tarde maravilhosa. ..parecia uma conversa e não uma entrevista….muito descontraido….foi uma alegria fotografar….fico feliz que vc gostou.

  2. Julielson says:

    Já ansioso para assistir. Parabéns ao Aguinaldo jornalista, novelista e pessoa.
    Não pare! Forte abraço.

  3. Lucas Martins Néia says:

    Quando estive em Cartagena, alguém citou uma frase de Gabriel García Márquez que, numa tradução livre, era mais ou menos assim: “sou fundamentalmente um jornalista. Tenho sido jornalista durante toda a minha vida. Meus livros são livros de jornalista, ainda que se veja pouco isso. Esses livros nascem de um trabalho tão grande de investigação, verificação de dados, precisão histórica e pesquisa da fidelidade dos fatos que, no fundo, são grandes reportagens noveladas ou fantásticas. O método de pesquisa e de manejo da informação e dos fatos são de um jornalista.”

    Ao ouvir isso, lembrei-me imediatamente de ti, Aguinaldo! No Turno da Noite, se eu não me engano – e em outras entrevistas -, você comenta que suas novelas são grandes reportagens. É bonito pensar que tanto você quanto García Márquez têm no jornalismo a gênese de suas “personas” ficcionistas e, sob este rótulo, enveredam justamente pelo fantástico – cada qual em um estilo muito próprio. Isso só corrobora a velha máxima de que, no contexto latino-americano, realidade e fantasia são praticamente indissociáveis – daí o “realismo mágico” que vemos todos os dias saltando das páginas dos jornais.

  4. Cristina Padiglione says:

    Eu simplesmente adorei. Foi muita honra enttevista-lo e é sempe uma aula ouvir o que você tem a nos dizer! Obrigada!

  5. Atilio Bari says:

    Aguinaldo, grato pelas suas palavras. Foi muito bacana ter você no Persona. Charme, inteligencia, conteúdo, simpatia… Um grande abraço.

  6. Atilio Bari says:

    Aguinaldo, grato por suas palavras. Foi um programa de grande conteúdo, graças à sua simpatia, sua inteligencia e a sua disponibilidade para expor os seus pensamentos sobre o seu oficio. Um grande abraço.

  7. Mauricio Valim says:

    O tempo passo rápido…
    Muito feliz com a sua presença!
    Sou seu fã!
    Triste por não encontrá-lo no estúdio, pois fiquei no switches.
    Um forte abraço,
    MAURICIO VALIM

  8. Mauricio Valim says:

    O tempo passo rápido…
    Muito feliz com a sua presença!
    Sou seu fã!
    Triste por não encontrá-lo no estúdio, pois fiquei no switches.
    Um forte abraço,

  9. Spectro-Méier says:

    Aguinaldo já ultrapassou a barreira da personalidade que é jornalista / autor e se transformou em entidade, a tal figura que melhor representa a arte de escrever. E vamos que vamos, porque já que um certo senhor foi absolvido por pessoas que representam uma nação, nada mais a registrar a não ser um “Aceita um nariz de palhaço nas cores verde e amarelo ?”.

  10. João Darlei says:

    Mas explique essa história direito,criatura! De duas novelas.

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