BARCELONA: POSTAL DA TRAGÉDIA

 

texto, vídeo e fotos de:

ANDRÉ LUÍS CIA

(Tristeza, impotência, indignação e revolta. Sentimentos visíveis no semblante de qualquer pessoa que está hoje em Barcelona, cenário do mais recente atentado terrorista na Europa, ocorrido às 16h50 horário local (11h50 horário de Brasília), anteontem. Desta vez, o alvo foi um dos principais cartões postais e pontos turísticos da Catalunha Quatorze pessoas morrem e mais de cem ficaram feridas,  vítimas de um atropelamento em massa causado por uma van que seguiu em movimentos de ziguezague por 550 metros na Rambla Cataluña.  O Estado Islâmico) assumiu a autoria do atentado.  Em 2016, ocorreram ataques semelhantes na França e na Alemanha, e neste ano, aconteceram mais três, sendo dois em Londres, e um na Suécia, totalizando 115 mortes. O ataque de ontem foi o segundo pior na Espanha desde 2004, quando 190 pessoas morreram em atentados a bomba no metrô de Madri. O Itamaraty confirmou que não há brasileiros entre as vítimas, que são de mais de 30 países. O roteirista e jornalista André Luís Cia, morador de Barcelona, fez especialmente para um relato dos dias seguintes à tragédia.)

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Vivo em Barcelona desde o final de janeiro deste ano. A Rambla é um dos meus percursos diários, já que geralmente saio do curso de espanhol e sigo caminhando até a praça Cataluña onde estão as estações de metrô. Anteontem no horário da tragédia eu ia para o local como de costume, mas decidi mudar os planos de última hora e ir para outra estação. Acredito na força e na proteção de Deus que me desviou daquele caminho, pois hoje eu poderia não estar escrevendo este texto, mas sim, integrar a triste estatística dos mortos e feridos dessa barbárie.

Dormi pensando em tudo isso, e de como estamos reféns desse medo. E o pior é que ele não se restringe somente à Europa ou aos Estados Unidos- principais alvos dos extremistas. Pois quem se arrisca a dizer, por exemplo, que se sente em plena segurança no Rio de Janeiro ou em uma grande capital brasileira? Infelizmente a criminalidade e a insegurança é algo que se faz presente e domina a sociedade como um todo.

Hoje pela manhã, por mais triste e pensativo que estivesse, não tive dúvidas do que faria. Levantei muito cedo e decidi que iria até a Rambla. Alma de repórter é algo que não se explica. Ou temos ou não temos. Eu sentia necessidade de estar ali, ouvir as pessoas, de dar voz a elas e compartilhar estes testemunhos. Creio que diante de tragédias como essa não podemos recuar, ou nos calar. Cada um deve ajudar como pode. Temos que nos unir e seguir em frente, apesar da dor e da revolta. E, no meu caso, meu papel nesse contexto é o de repórter. Por mais que me doesse estar ali eu tinha que executá-lo. Essa era a minha missão.

Após caminhar pelo mesmo trajeto percorrido pelo terrorista tive um momento único de alívio, pois a tragédia poderia ter sido muito maior, já que ele não tinha obstáculos à sua frente. A Rambla tem uma extensão total de 1,2 quilômetro, e o terrorista parou o veículo depois de atingir pessoas por mais de 500 metros, fugindo em seguida.

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O casal de gaúchos Fábio e Mónica Pizzo (na foto acima), chegaram ontem à tarde em Barcelona vindos de Portugal. Eles ficaram sabendo do atentado ainda no aeroporto de Lisboa. Assustados e com medo, disseram que vão mudar os planos durante a estadia de quatro dias na cidade. “Ao invés de usarmos o transporte público, só vamos utilizar o cabify (sistema privado de taxi)”. É a segunda vez que eles se veem reféns de um atentado. Em 2015, estavam em Paris durante os ataques sucessivos na capital francesa que culminaram com 129 mortos. “Nosso maior medo é que vamos para Roma depois, e lá é um dos principais focos desses terroristas. Apesar dos problemas que temos no nosso país, o Brasil, hoje, ainda é mais seguro que outros locais”, defendeu Fábio.

O espanhol Atílio Bonino trabalha numa banca de revistas que fica bem em frente à Rambla. Ele presenciou tudo ontem e conta que no momento que a van entrou na passarela foi um pânico geral de pessoas gritando, correndo desesperadas sem rumo e corpos sendo atirados pelo chão. “Foram momentos desesperadores. Eu não pude sair da banca porque quatro turistas alemãs vieram correndo para cá pedir proteção. Foi assustador as cenas que vimos em seguida”, lamenta.

Visivelmente emocionada, a espanhola Rita Braziola, de 57 anos, chorava copiosamente em frente a um dos inúmeros locais da Rambla onde moradores e turistas prestavam suas homenagens às vítimas (cartas, flores, bichinhos de pelúcias e velas). “A polícia faz muito bem o seu trabalho, mas, hoje, já não me sinto segura em lugar nenhum. Nunca sabemos como e quando esses ataques vão acontecer e isso nos deixa frágeis e impotentes”. O mesmo sentimento foi compartilhado pelo turista australiano Diylan Willians, de 22 anos . Ele chorou ao lembrar das vítimas e disse temer novos ataques.

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Radicalismo. Foi esse o caminho defendido pelo casal de espanhóis Julio e Paqui Lopez (na foto acima) para conter os terroristas pelo mundo. “Essa onda de terror tem que acabar uma hora. Não podemos ficar calados diante de tudo isso.  Os serviços de segurança dos países têm que intensificar as buscas por esses assassinos e quando prendê-los serem rigorosos na punição”, defendeu Julio.

Já a colombiana Gensy Arsy, de 38 anos, que vive há 14 anos na Cataluña ao lado da família, se mostrou horrorizada com as cenas presenciadas ontem. Ela acompanhou tudo pela TV. Hoje, ao lado de outra amiga (na foto abaixo), fez questão de pintar um cartaz e levá-lo até um dos monumentos. Nele, estava escrito em espanhol duas frases, uma de cada lado: “Barcelona no tenemos miedo” (Barcelona não temos medo) e “Barcelona estamos contigo”.

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“A Espanha é a minha segunda pátria. Estou muito triste por tudo isso, mas é hora de nos unirmos”.

E o sentimento de união foi a tônica desde ontem à tarde em toda cidade. Todos unidos e solidários para tentar minimizar a dor e sofrimento de tantas vítimas. Taxistas realizaram corridas de graça, moradores ofereceram abrigos para pessoas que ficaram desabrigadas, hospitais receberam um grande número de voluntários que doaram sangue. Nestes dois dias foram realizadas inúmeras homenagens aos mortos, principalmente no local do ataque. A mais tocante para mim foi feita por uma artista plástica espanhola. Ela distribuiu cartolinas brancas pelo chão da Rambla desde o ponto final do massacre até seu início, e pedia que as pessoas fizessem rabiscos ou frases com giz de cera.  Sem ainda saber o que faria depois com as cartolinas, ela disse que o importante era fazer algo de bonito para tantas famílias que estão sofrendo a dor da perda de entes queridos.

Depois de vivenciar tudo isso de perto – até então, só havia acompanhado atentados pela mídia – desta vez, como repórter e morador de um dos locais atingidos minha sensação é de tristeza por tudo que vi, mas, por outro lado, o que acalenta o nosso coração é saber que por mais dor que estes extremistas têm causado ao mundo e a milhares de famílias, eles nunca vão vencer algo que não conhecem: o amor e a solidariedade que, num momento deste, sempre nos une e nos faz mais fortes.  ( texto e fotos de ANDRÉ LUÍS CIA)

One thought on “BARCELONA: POSTAL DA TRAGÉDIA”

  1. Spectro-Méier says:

    O mundo se tornou intolerante e isso é fato. Mas vale refletir sobre quantos milhares de anos a religião está aí para quem quiser segui-la, mas só agora há pouco é motivação para o ódio inexplicável ? Talvez a explicação (se é que exista algo único) esteja nas falas dos líderes políticos. Cada um com seu peso. E, se é desde cedo que se aprende, o Brasil (coitado) está naufragando. O que se vê atualmente no horário nobre da maior emissora do país chega a ser um insulto, mas que é acobertado pela “arte” de pessoas que apenas contam uma história. Será que a dura realidade não basta e resolveram de vez abolir o famoso trecho final onde se lê “obra de ficção” ? Se a tv serve de cultura e as novelas são um “braço” importante disso, que além de educar abrem os olhos da sociedade, porque não proporcionar entretenimento no melhor sentido da palavra ? Algo mais leve, sem o peso de uma bala perdida (ou achada). Uma história bem contada não precisa de certas apelações, pois essas servem de linha condutora para jovens e adultos desprovidos de senso crítico. Uma propaganda subliminar. Uma lavagem cerebral. Depois reclamam que tudo está ruim e confuso. O mundo enlouqueceu. Agir de forma correta, em dias atuais, merece aplausos quando na verdade deveria ser considerado uma atitude normal. Enfim, quem (sobre)viver, verá. E vamos que vamos …

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