NA CAMA COM BARCELONA (1)

 

Leia aqui, hoje e amanhã, as duas reportagens que André Luís Cia fez para o aguinadosilvadigital sobre o cada vez mais florescente mercado do sexo em Barcelona no qual muitos imigrantes brasileiros trilham um caminho nada fácil para sobreviver na Europa.

f107e11dc9e458dd2ce19ca0f7e32c18

BARCELONA...7/10/09...PROSTITUTAS EN EL BARRIO DEL RAVAL....FOTOS INES BAUCELLS....ARCHDC unknown

A vida de muitos imigrantes brasileiros que trabalham no chamado “mercado do sexo” na Europa não pode ser considerada um trabalho fácil, já que todos são obrigados a conviver com diferentes situações, o que os leva a repensar até quando conseguirão resistir a este tipo de trabalho. Se no passado, a profissão mais antiga do mundo se restringia às ruas e aos classificados de jornais impressos, hoje, com a globalização, os trabalhadores do sexo migraram para outras plataformas, como a internet.  A maioria deles “vende o corpo”, ou melhor, se vende, em websites e também em aplicativos de celulares. Em Barcelona, considerada uma das cidades mais cosmopolitas do mundo e aberta à diversidade sexual, essa prática vem se tornando cada vez mais comum.

Segundo os trabalhadores do sexo entrevistados aqui, o mercado online está em plena ascensão, o que favorece no agendamento e na conquista de novos clientes. Pela rede, é possível compartilhar fotos, vídeos e seduzir muito mais do que nas ruas. Apesar disso, a famosa e antiga prostituição de rua ainda resiste ao tempo (ver abaixo).  

Para a realização desta reportagem especial, optei em buscar os entrevistados de três diferentes formas. Em uma delas, por telefone, passando como um cliente comum tanto para sexo gay quanto heterossexual. Em outra; falando a verdade: a de que estava fazendo uma matéria sobre sexualidade para um site brasileiro; e por último, indo direto à fonte, ou seja, buscando pelas calles (ruas) de Barcelona alguns dos principais pontos de prostituição da cidade.  

UM HOMEM…

Aos 17 anos, o paranaense Patrick (nome fictício), já sonhava com uma vida diferente da que levava no Brasil. Era vendedor de uma loja de calçados, ganhava bem e tinha uma vida estável. No entanto, sonhava com outras coisas, e uma delas era o de viver no exterior. Ao completar 18 anos tirou o passaporte e avisou à família que mudaria de país. O primeiro destino foi Portugal, onde se especializou na área de hotelaria. Para isso, trabalhava em dois turnos e conseguiu juntar um bom dinheiro, o que o fez sonhar com a abertura de um negócio próprio. Ao lado de um amigo, também brasileiro, montou um pequeno café que não prosperou. Insatisfeito com sua situação e cansado da dura rotina de trabalho de quatro anos consecutivos, viajou de férias para Barcelona e se apaixonou pela cidade, o que o fez mudar novamente de país.

“Cheguei na Espanha em 2004 e comprei um documento português o que me abriu muitas portas de trabalho. O que facilitou também foi o fato de eu ter acumulado muita experiência em Portugal”, relembra.

Com o tempo, Patrick foi juntando novamente dinheiro, o que lhe permitia viajar. Nas férias de verão, o destino principal era Ibiza. E foi lá que sua vida passou por uma grande reviravolta e que ele entrou definitivamente para o mundo da prostituição. Em uma das inúmeras festas que frequentava e já embriagado, recebeu o convite para fazer um programa com um filipino que vivia em Mônaco. “Eu não queria nada daquilo. Não era o que eu estava buscando até porque eu sempre fui hétero, mas o cara me puxou pela mão e acabei indo sem saber o que me esperava do outro lado”.

No quarto do hotel, ele diz que precisou fazer apenas sexo oral com o cliente e que recebeu ‎€ 700 euros. “Não posso negar que aquele foi o passaporte que eu precisava para entrar nessa nova vida. Eu nunca tinha ganhado tanto dinheiro de uma forma tão rápida”, justifica. Depois disso, ele começou a dançar numa boate como gogo boy, mesmo sem nunca ter dançado antes. As primeiras viagens por programa foram aparecendo e isso virou uma constante que segue até hoje.

Patrick foi se especializando cada vez mais no mercado sexual e fazendo uma clientela cativa. Apesar disso, continuou morando em Barcelona, mas as viagens a trabalho foram só aumentando.  Por sexo, conheceu diferentes países da Europa, América do Sul e também o México. Algumas viagens foram mais curtas (de três dias); enquanto outras, duraram semanas. Em todas, tudo sempre é combinado antecipadamente com os clientes. “Só que da mesma forma que o dinheiro vem rapidamente, ele também vai. Eu nunca consegui fazer uma economia porque fui aproveitando tudo que eu não tinha tido oportunidade de viver antes”.

Em 2014, cansado e deprimido com a vida que vinha tendo há mais de 10 anos, Patrick decidiu retornar um tempo para o Brasil porque acreditava que a Copa do Mundo de futebol ia aquecer a economia do país. Em São Paulo, conheceu uma garota de programa paraguaia que o ajudou no mercado do sexo paulista sem imaginar que, anos depois, ela se tornaria sua esposa.  Após quase três anos vivendo no Brasil, Patrick decidiu regressar para Barcelona e levou consigo a namorada. Hoje, ambos trabalham apenas com prostituição, mas já traçam planos para o futuro. Eles pretendem atuar na área de hotelaria e ter seu próprio negócio. Indagado se consegue ser feliz com a vida que leva, ele ressaltou que a prostituição lhe garante estabilidade financeira, mas que o preço é muito alto. “ Com o tempo, fui aprendendo a tirar proveito da situação e até mesmo a sentir prazer com alguns clientes, mas o começo foi bem difícil”, diz.

Para ele, o mais complicado é que no início não podia escolher seus clientes, algo que já se pode dar ao luxo hoje. “Por telefone, eu já saco qual é o perfil do cliente e cabe a mim decidir se faço ou não o programa”. Sua média mensal é superior a 2 mil euros por mês, e o que lhe garante estabilidade é o fato de ter clientes fixos há muitos anos. Um deles, inclusive, é algo inusitado pela idade: um senhor de 82 anos.

Patrick tem perfil em três diferentes sites e suas fotos chamam atenção pelo físico perfeito e pela beleza. “Quem atua nessa área tem que ser vaidoso e cuidar do corpo porque ele é o nosso instrumento de trabalho”. Nas horas vagas, ele malha muito na academia e diz que seu físico chama atenção nas ruas.

Carril Vici

prostituição 700000_link

UMA MULHER…

Como no filme “Uma linda mulher”, no qual Julia Roberts (Vivian) se apaixona por Richard Gere (Edward), a carioca Magali (nome fictício), sonha que a vida real imite a arte. Trabalhadora do sexo há dois anos, ela conheceu recentemente um espanhol que pode mudar radicalmente seu destino, já que ele a pediu em namoro e lhe prometeu tirá-la dos programas. “Eu sempre me emociono quando vejo esse filme e acho que posso ter um final feliz assim como a personagem do filme. Ele foi meu cliente por um tempo e nos apaixonamos. Cheguei a conhecer a família dele. Nas minhas horas vagas saímos como um verdadeiro casal. Estou muito feliz por essa chance que a vida me deu de recomeçar”.

No Brasil, Magali trabalhava como enfermeira e, assim como Patrick, vivia uma vida estável. Tinha um filho de quatro anos, trabalhava e morava numa casa confortável até que decidiu seguir os passos da mãe e do irmão que já moravam na Europa há 30 anos, e se mudar do Brasil. Porém, ao chegar à Espanha, ela foi sentindo dia após dia as dificuldades enfrentadas por um imigrante ilegal sem documentação. Sem alternativa de empregos melhores teve que se submeter aos chamados “subempregos” e foi trabalhar limpando pisos.

Numa destas limpezas conheceu uma equatoriana que agenciava mulheres para programas. “Ela vivia me convidando para entrar nesse mundo. Dizia que eu poderia ganhar muito mais dinheiro do que fazendo faxina e que teria uma nova vida. Eu relutei enquanto pude, mas num momento as coisas foram apertando para mim. Eu tinha o meu filho para criar, precisava sair da casa do meu irmão e alugar uma casa. E o pouco que ganhava com faxina não dava para sobreviver em Barcelona. Foi assim que acabei aceitando fazer uma experiência e nunca mais saí dessa vida”, relembra.

No seu primeiro dia como garota de programa, Magali ganhou 400 euros, sendo que, 200 foram repassados à agenciadora, o que acontece até hoje, ou seja, ela fica com 50 % do que lucra na noite-. Ela aponta que, apesar de não ter gostado nem um pouco de fazer sexo por dinheiro, o tanto que ganhou em sua primeira noite  pesou mais alto na sua decisão, e assim não conseguiu mais retomar às faxinas. “Em poucas horas ganhei quase metade do que ganhava num mês todo fazendo faxina pesada. E isso me fez decidir mudar toda minha vida”.

Seu lucro mensal é alto: cerca de 3,5 mil euros por oito horas de trabalho diário: das 20h às 8h da manhã. O programa de uma hora custa 80 euros; meia hora são  40 euros, e o sexo anal de uma hora, 100 euros. Ninguém da sua família sabe sobre sua profissão. Todos imaginam que ela trabalha como cuidadora de idosos. O filho, hoje, com seis anos, mora com sua mãe, em Lisboa, mas ela faz questão de proporcionar uma vida estável a ele. Paga colégio particular e futebol, além de outras contas, e sempre que pode vai visitá-lo. Para ela, o dinheiro é gasto em cursos de idiomas e também em academia. “Tenho que cuidar do meu corpo e também gasto muito com roupas”.

Magali tem uma vida tranquila em Barcelona, mas diz que tudo isso tem um alto preço, e o mais difícil é ter que se submeter a deitar com todos os tipos de clientes.

“Nunca imaginei que seria capaz de fazer o que faço hoje. Não é a vida que escolhi ou sonhei para mim, mas as coisas foram acontecendo e não tive como sair desse mundo, mas se você me perguntar se sou feliz, com certeza, a minha resposta será negativa. Faço por necessidade, mas pretendo logo deixar essa vida e retomar meus projetos e sonhos”, disse. Dentre eles, está o de formar uma família, voltar a morar com o filho, trabalhar novamente como enfermeira ou até mesmo debutar como cantora. “Esse é o grande sonho da minha vida. Sou de uma família de músicos e sempre gostei de cantar. Tenho uma boa voz e adoraria ser cantora”.

(Leia amanhã, aqui no aguinaldosilvadigital, a segunda parte desta reportagem de André Luís Cia)

 

6 thoughts on “NA CAMA COM BARCELONA (1)”

  1. Duque says:

    Que matéria sensacional, André. Gostei muito do tema abordado. Seu texto é de uma qualidade irretocável. Parabéns.

  2. Adriano Vaz says:

    O que me chamou a atenção nessa matéria, além do tema, é claro, é que por trás do desejo de vencer na vida, existe uma passagem secreta pelo desejo inconsciente de se permitir a viver o contraditório. A pressão nos faz viver o contraditório? Elas poderiam ter continuado na faxina, ganhando pouco, e viver de acordo com aquilo que acreditam ser o certo. Viver a razão de suas crenças. Existe uma grande revelação da personalidade dessas pessoas, que, se fossem investigadas, teriam sérias raízes ocultas.
    O ser Homem é realmente surpreendente, vive em constante experiência e transformam os mais adversos caminhos em atalhos para chegar onde realmente deseja. Afinal, o certo ou errado é apenas a vista de um ponto. Pelo menos é o que eu acredito.

    Adorei Aguinaldo e André.
    Parabéns pelo belíssimo trabalho, André Cia, e parabéns, Aguinaldo, pelo brilhante faro jornalístico. Como sempre, matéria de alto nível no “Blogão do Aguinaldão”.

  3. Rebeka says:

    Materia feita com muita empatia e sensibilidade do jornalista

  4. Karina says:

    Ador a matéria e o jeito que foi tratado o tema! Parabéns aos envolvidos! Espero poder ler mais matérias como essas!

  5. Claudineia Cardinali says:

    Andre fiquei fascinada de, como voce contou, esta materia. Prendeu Minh a atencao do comeco ate o final e nao vejo a hora de ler restante.
    Voce conseguiu tratar de um tema delicado de uma maneira muito cuidadosa. Parabens por abordar este assunto de uma forma tao precisa!!!!

  6. Mayara Dias says:

    Impressionante essas histórias. Fico imaginando que realmente é uma mudança no estilo de vida que deve fascinar mesmo, triste é que nunca ouvir falar que essas pessoas são felizes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *