QUANDO OS DEUSES AMAM

Pois é, queridos, voltei a este nosso tradicional ponto de encontro…

E voltei com um objetivo: fazer aqui um making of da sinopse de novela que estou escrevendo atualmente. Como nasce, cresce e frutifica uma história central e suas tramas paralelas; como um autor levanta dos mortos e dá carne, sangue e principalmente uma alma aos seus personagens. Minha ideia é escrever aqui uma espécie de diário no qual pretendo falar sobre tudo isso… E o farei a partir do dia 31 de outubro.

Mas antes…

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American Gods Season 1 2017

Repararam no tamanho da tarja preta na foto lá em cima? Pois é.

Antes eu quero falar de um seriado cuja primeira temporada acabei de ver. Ele está na Amazon e se chama “American Gods”. É um seriado sui generis, pois quebra os padrões realistas ou distópicos dos seriados americanos para adentrar, de modo radical, através do terreno do realismo fantástico. Sim, é isso mesmo, um gênero com o qual os americanos sempre se deram mal é exercido em toda a sua plenitude em “American Gods” junto com a sátira e o deboche, elementos essenciais para uma verdadeira obra de arte. Não vou falar da trama, não vou falar nem mesmo do desempenho visceral do ator Ian McShane no papel de “Mr. Wednesday”, de quem depois se descobre, no final da temporada, que ele é ninguém menos que… Não vou dizer quem, sosseguem vossos fachos.

O que vou dizer é que, por ser ser um seriado destinado a quebrar padrões, “American Gods” apresentou, no seu episódio três, a mais longa e mais explícita cena de sexo gay jamais vista na televisão americana, segundo noticiou a mídia no dia seguinte àquele em que ela foi ao ar. Com um agravante: a cena é entre dois muçulmanos. Tudo bem, um deles é um espírito, um Jinn, uma entidade que satisfaz desejos segundo a mitologia muçulmana, e que se diferencia dos homens comuns porque, nos momentos de grande emoção (ou excitação), dos seus olhos saem chamas.

Mas se o motorista de táxi novaiorquino de cujos olhos saem chamas é um espírito, o que ele faz na cama com o humilde imigrante de quem decidiu satisfazer os desejos é inteiramente humano…  E sem nenhuma tarja preta a encobrir suas vergonhas. Nesta cena a câmera não poupa nada e os atores se poupam ainda menos. Bryan Fuller, um dos show-runners do seriado (o outro é Neil Gaiman, autor da história), disse nas muitas entrevistas que deu depois que a cena foi ao ar: “exigi que ela fosse refilmada, pois, aos meus olhos, não estava suficientemente gay”.

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Não estava, mas na versão final ela ficou. Beijo gay? Esqueçam, isso já era. Na tal cena de “American Gods” tem membros sexuais à mostra, a certa altura excitados, tem uma quase penetração, enfim… Tem tudo que fez a mídia americana dizer no dia seguinte, a propósito dela, que “ontem à noite se fez História”.

Se alguém aí ficou curioso de saber “como se faz história”, ainda mais neste terreno minado que é a afetividade entre dois homens, assine a Amazon, onde o seriado está passando, veja a primeira temporada, de dez capítulos e tente parar antes do ultimo. Eu, que me orgulho de ser um profundo estudioso de seriados – ainda hei de escrevê-los antes de morrer seja para onde for -. deixei me envolver de tal maneira por este que não consegui parar… E agora, com olhos de quem quer aprender mais ainda, vou ter que vê-lo de novo. Façam como  eu. E até lá, vejam no video abaixo uma parte da tal maior cena de sexo gay da história da televisão americana, quiçá do mundo.

10 thoughts on “QUANDO OS DEUSES AMAM”

  1. Lara Simeao Romero says:

    Oba! Adoro diários. Agora deixa eu continuar a ler o texto. Tinha de vir aqui antes escrever isso depois de ler o primeiro parágrafo,

  2. Duque says:

    Meu Deus! Me deu uma coisa aqui. Quando penso que já vi de tudo, realmente ainda não vi quase nada.

  3. Lara Simeao Romero says:

    Oh my God!
    Pelo visto terei que assinar a Amazon também.
    Realismo fantástico, sátira, deboche, sexo gay, tudo junto e misturado? Não resistirei, tentei assistir!

  4. Lara Simeao Romero says:

    PS loira Burra escreveu errado
    Corrigindo: não resistirei e terei de assistir

  5. kiana says:

    Aguinaldo eu pensei que iria mostrar mais um pouco.

  6. Dan Barsan says:

    Demais!!!

  7. Pedro says:

    Ainda teremos o concurso de roteiros?

  8. Anne says:

    Uau! Muito hormonio no ar e ao mesmo tempo muita sintonia…desejo, quase amor. Musica perfeita. Exibir intimidate seja entre um homem-mulher ou um homem-homem ou uma mulher-mulher exige elegancia e savoir-faire, dificil inserir um encontro sexual num enredo que quem assiste quer ver mais (do tipo pra que dê certo, aconteça conforme ele deseja/imagina). Vamos conferir.

  9. Rafael Peixoto says:

    Mestre, li American Gods e o roteiro do piloto. É realmente uma obra disruptiva, não tanto quanto Sandman, do próprio Gaiman, ou como Lost Girls, de Alan Moore, mas certamente quebra paradigmas justamente por beber da linguagem HQ, onde Gaiman começou sua carreira. Gaiman não esconde a influência deste gênero onde tudo pode com muito mais tolerância do que a caretice da TV. Um grande amigo e escritor está concluindo a tradução de Lost Girls para ser publicado no Brasil. Se vc ainda não adentrou profundamente nas obras-primas dos quadrinhos, te aconselho a leitura de Sandman, do Gaiman (realismo fantástico até a raiz), Lost Girls e Promethea de Alan Moore, a crítica mordaz de Miguelanxo Prado (Mondo Cane é um cuspe na cara da hipocrisia), o naturalismo sensível de Will Eisner em Avenida Dropsie e Contrato com Deus, a crueza de Leões de Bagdá, de Brian K. Vaughn, a dor intensa de Maus, de Art Spiegelman… É um mundo riquíssimo tanto em termos de arte visual quanto de narrativa e moldou minha escrita tanto quanto ler Dostoievski ou Thomas Mann. Vc, cuja arte é de um frescor imenso e se renova com uma voracidade inigualável, se ainda não conhece obras como estas, certamente tornar-se-á um viciado em HQ como eu. Quando imagino você adaptando Will Eisner para a TV (afinal, poucos adaptam obras literárias tão bem) já me vem um sorriso nos lábios. Abraços.

    1. Aguinaldo Silva says:

      Obrigado pelas dicas, meu caro, vou dar um voo razante pelas lojas de HQ aqui em Lisboa e tentar comprar tudo.

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