AQUELE HOMEM AO MEU LADO (1)

 

Esta é uma história verdadeira, mas eu  a conto aqui como se fosse um especial em dois capítulos. O primeiro  está aí embaixo. O segundo publicarei amanhã. Leiam este e depois aguardem.

alexandre nero 1

Ele se vestia de preto da cabeça aos pés. Era magro e elegantíssimo. Tinha os cabelos cor de prata, sem duvida à custa de algum xampu sofisticado. Lia – ou fingia ler – o livro “Notícias do Planalto”, de Mário Sérgio Conti, que tinha sido lançado há pouco… E era o que você, caro leitor, chamaria sem nenhum pudor de “cara nojento”. Tão nojento que, com minha mania de dar apelido e biografia a pessoas que não conheço, mal o vi e já o batizei de “Abominável Homem de Preto”.

Sim, ele era o próprio.

Entrou no avião quando todos os outros passageiros já estavam acomodados. Eu, achando que não ia aparecer mais ninguém, já me preparava para avançar sobre a poltrona ao lado, quando ele surgiu e, para marcar território, jogou sobe ela de um modo acintoso o livro que trazia nas mãos, como se me alertasse: “não se atreva a ocupar meu espaço”.

Enquanto ele espalhava em torno de si seus objetos todos, eu olhava em volta para ver se havia alguma poltrona vazia. Havia, sim, apenas uma… Ao lado de Amy Irving, atriz americana que na época era casada com Bruno Barreto. E eu, só para não incomodá-la, resolvi ficar onde estava e aturar o nojento durante dez horas.

E meu Deus, que nojento! Respondeu em inglês à pergunta que a aeromoça lhe fez em português sem sequer olhar para a coitada. E quando ela lhe trouxe uma taça de champanhe, ele a provou e a devolveu dizendo que estava quente. Não quis jantar, mas pediu um vinho do Porto. Enquanto eu traçava minha comida fazia cara de asco. Sem sequer se mexer, com os olhos postos no livro fazia de conta que eu não estava ali e assim mantinha entre nós uma barreira insuportável.

A essa altura o avião avançava pela escuridão a dentro a dez mil metros de altura. Eu já não sabia o que fazer para relaxar e me adaptar àquela situação desagradável, quando de repente me dei conta – ele estava há horas na mesma página do livro, ou seja: apenas fingir ler! Aquela falsa concentração era só um truque para evitar que eu puxasse conversa.

No auge do mau humor por causa daquela criatura horrorosa, pensei: “vou tomar um porre”. Chamei a aeromoça e já ia lhe pedir um uisque, quando o avião caiu num vácuo e despencou pelo menos três mil metros. O comandante falou em três idiomas: “apertem os cintos!” Pânico generalizado. Passageiros a rezar em voz alta ou a gritar descontrolados. Aeromoças lívidas, comissários trêmulos… E o avião a se despenhar na escuridão da noite em direção ao oceano.

Belo gancho de final de capítulo, não? Aguardem o segundo e último amanhã

4 thoughts on “AQUELE HOMEM AO MEU LADO (1)”

  1. Julielson Lima says:

    Amei!!! Nasceu aí o comendador José Alfredo ? Será?

  2. ALEXANDRE FÉLIX says:

    Sua capacidade de concisão em narrativas é notória e elogiável, sempre. DEVIA POR ISSO, ESCREVER MICROCONTOS, também!

  3. Djalma Filho says:

    será que o Comendador voltará na sua décima sétima novela, em 2020?….
    (ano interessante, não?)
    um grande abraço, Aguinaldo
    Djalma Filho
    (também roteirista)

  4. Jacob Oliveira says:

    Amei. Muito bom

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