AQUELE HOMEM AO MEU LADO (2)

 

2014-11-27-imperio-comendador-jose-alfredo

Como eu estava dizendo no final do capítulo anterior: o comandante falou em três idiomas: “apertem os cintos!” E,  no meio de uma terrível turbulência o avião, desgovernado, se precipitou rumo ao solo na escuridão da noite.  Eu, mordendo os beiços de pavor, tratei de obedecer à ordem do piloto. O Abominável Homem de Preto, que já tinha o cinto apertado, fechou o livro, meteu a mão no bolso do paletó – sim, ele se recusara a entregá-lo à aeromoça para que ela o pendurasse nos cabides – e tirou de lá um masbaha.

(Lembram daquela espécie de rosário que o comendador de “Império” ficava a dedilhar de vez em quando, e que perdeu na caverna quando descobriu que tinham lhe roubado o talismã – o diamante cor de rosa? Aquilo é o masbaha, inapropriadamente chamado de terço árabe)

Enquanto o avião chacoalhava tentando recuperar a estabilidade perdida o Abominável Homem de Preto dedilhava o seu masbaha e eu, agora acintosamente, o observava, pois acabara de descobrir que não, aquilo não era apenas um sujeito nojento que sentara ao meu lado… Era um personagem! E se ele era isso, então era meu dever de telenovelista estudá-lo e aproveitá-lo num dos meus futuros trabalhos.

Foi assim, naquela noite tenebrosa de janeiro do ano 2000, que começou a nascer aquele que Alexandre Nero imortalizou como o comendador José Alfredo Medeiros. Tive que esperar quinze anos até que o considerasse pronto e acabado, e então tratei de criar em torno dele todo um universo dentro do qual ele pudesse transitar de um modo que parecesse mais real que a própria realidade.

Claro, a essa altura eu já sabia quem era aquele homem do avião, o que ele fazia e onde estava (era um alto funcionário do governo de Fernando Henrique Cardoso), assim como sei onde está agora já que a arrogância não o salvou do destino que nos espera a todos: o verdadeiro Abominável Homem de Preto não chegou a ver sua versão da novela, pois está morto e enterrado… De verdade.

Quem era ele? Não digo. Talvez dê apenas uma pista, mas que não me comprometa. Ele era um quase Ministro da área econômica, um homem considerado fino e sofisticadíssimo, mas, como vocês podem deduzir do retrato que tracei, mal educado e grosseiríssimo. Se na novela ele tinha alma, na vida real… Não sei. Mas como morreu de repente – teve um infarto -, e a essa altura dele não restam mais que os ossos, espero que Deus o tivesse em boa conta e assim o tenha aceito no Paraíso e abrigado em seu seio.

3 thoughts on “AQUELE HOMEM AO MEU LADO (2)”

  1. Marco says:

    Aguinaldo será que me poderia esclarecer uma dúvida o terço que ele usava e só utilizado na religião mulcumana ou também na cristã. Sendo assim de que religião pertencia este homem. Perdão por minha ignorância estou perguntando só por curiosidade não tenho qualquer preconceito religioso todos temos o direito de professar a religião que quisermos. Parabéns por ter terminado a sua sinopse en tempo recorde deveria entrar no livro do guiness

  2. João Darlei says:

    Tem certeza que vc o conheceu em 2000 aguinaldo? Porque em Tieta já tinha uma espécie de protótico do comendador, era o personagem “Mirco Stefano” ( Marcos Paulo) que vestia preto e usava esse rosarinho, era um terrível vilão. Tieta é de 89, agora não entendi.

  3. Jacob Oliveira says:

    Muito bom
    Assim nasceu o homem de preto

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