COMO SER FELIZ NO “RÉVEILLON”

 

Não, eu não estive no famoso “réveillon da Helô” – quer dizer, do casal Luís e Heloísa Buarque de Holanda -, aquele que, segundo Zuenir Ventura, marcou o não-final de 1968, o ano que não terminou. Na verdade, alienado que sou, só quando li o livro de Zuenir muitos anos depois é que soube deste réveillon e dos incríveis barracos que nele ocorreram – dezessete casamentos acabaram durante a festa! –e que culminaram com a destruição da mansão do casal. Mas reconheço que, pela sucessão de eventos e pela fama das pessoas neles envolvidas, este pode ser realmente encarado como um marco do ano de 1968, embora esteja longe de ter a importância do que aconteceu 18 dias antes – ou seja, no dia 13 de dezembro: a assinatura do Ato Institucional no. 5.

Você que me lê agora e tem menos de 40 anos provavelmente não sabe o que foi o Ato Institucional no. 5. Não faz mal – caso lhe interesse pode consultar o Google. Mas não é dele que lhe vou falar, nem é da tragicômica festa da Helô, mas sim, do meu próprio réveillon de 1968. Se eu não estava neste em que quase toda a inteligentzia carioca mostrou-se capaz das maiores baixarias, se eu nem sabia que ele estava acontecendo enquanto penas e garrafas e sapatos e objetos de decoração e móveis e, finalmente, pessoas – voavam por lá para todos os lados… Onde eu estava, afinal?

Bom… Minha amiga Daniela Bianchi, que antes de adotar este codinome se chamava Francisco Carlos, tinha sido convidada para um réveillon na cobertura de outro casal na rua Mem de Sá. E queria me levar a tiracolo, já que eu era, com quatro livros publicados e jornalista, o que se poderia chamar de uma “minor celebrity”.

Então eu já gostava de aparecer, embora não tanto como gosto hoje. Por isso aceitei o convite. Sai de casa cedo para me encontrar com Daniela no salão de cabeleireiros onde ele/ela trabalhava, pois de lá seguiríamos direto para a tal festa. Mas, no caminho, encontrei o Alemão da Lapa, um figura na qual eu já estava de olho há algum tempo. Ele me fez um convite irrecusável… E, como vocês estão fartos de saber, a curiosidade matou o gato. Assim nós dois fomos parar na Hospedaria Hostal, que existe até hoje e serve ao mesmo tipo de clientela ali na rua Gomes Freire.

Lá, depois de comprovarmos de modo irrefutável que a melhor parte da carne não é a picanha, adormecemos de cansaço… E só acordamos com o pipocar dos fogos da meia-noite. Quer dizer, eu acordei; porque o Alemão, nem aí: continuou ferrado no maior sono. “Daniela vai me matar!” – pensei em pânico. E no segundo seguinte me vesti e saí correndo.

Cheguei no prédio da Mem de Sá, que ficava a um quilômetro da Hostal, e vi Daniela a me observar da janela botando foto pelas ventas. “Desculpa, desculpa” – eu lhe gritei. E ela respondeu de um jeito que não deixava a menor dúvida: “considere-se morta!” Após o que recuou e, acho que meio segundo depois, se materializou diante de mim, que tremia de pavor, pois sabia do que Daniela era capaz quando tinha um ataque de fúria. Mas minha amiga, em vez de me bater, me abraçou, sussurrou no meu ouvido: “feliz Ano Novo, Guina” (era assim que ele me chamava). E ali abraçados, choramos juntos enquanto o som da voz de Ellen de Lima, a Anitta daquele ano, ecoava sobre nós, vindo da festa lá em cima.

Passada a emoção, perguntei a Daniela: “e a bagunça lá em cima, está boa?” Ela me respondeu com enfado: “só papai-com-mamãe, está chatíssima”. E assim o nosso réveillon também não terminou. Pois, em vez de subir para aproveitar o resto da festa decidimos seguir dali direto para o Aterro do Flamengo onde, sob a proteção dos arbustos recém-plantados por Burle Marx, outra espécie de festa decorria… E Zuenir Ventura que me desculpe, mas, perto do que aconteceu no Aterro até o meio-dia da manhã seguinte tudo o que ele registrou no réveillon da Helô não passou de uma festa para criancinhas.

Em 1968, como nos anos seguintes e agora e sempre, vamos repetir a frase gravada na foto aí embaixo: FELIZ ANO NOVO!

26112362_1303860839717791_6872015738310464687_n

2 thoughts on “COMO SER FELIZ NO “RÉVEILLON””

  1. Magdalena Salinas says:

    História engraçada Guina!!!
    Feliz Ano Novo também para Você!
    Espero vê -lo em 2018 já que faz muito tempo que a gente não se vê, não é não?
    Abraço amigo e Inte
    Mada

  2. Lara Simeao Romero says:

    Um beijo e um cheiro. Você é 10!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *