ESTOU EM CARPINA DE NOVO

A Mulher de Branco (abaixo), uma das minhas lembranças mais recorrents da cidade de Carpina: eu tinha sete anos quando a vi.

5897154

Ontem sonhei que estava em Carpina, a ex-Floresta dos Leões, cidade pernambucana onde nasci, e lá ainda era uma criança. Foi um sonho estranhíssimo porque, antes de dormir, tinha visto “A Forma da Água”, o belo filme de Guillermo del Toro. E no meu sonho também aparecia uma criatura diferente como aquela do filme, que me perseguia com um objetivo que não consegui descobrir, pois acordei do sonho em pânico no instante exato em que ele me acuava num beco sem saída.

O que o monstro queria de mim? Talvez algo que ele já tinha conseguido na minha infância… E que, mesmo sem sucesso, tento reaver até hoje.

Na vida real, onde os monstros são outros e nos esperam sequiosos de sangue em cada esquina, faz dez anos que não vou a Carpina. Não vou, vírgula; porque estou lá sempre que começo a escrever uma novela. E como vocês (não) sabem, de capítulo em capítulo, neste momento já estou quase na metade de uma delas. É sempre lá que busco as lendas e mitos que são a essência do meu trabalho de novelista. “A Indomada”, por exemplo, se passava inteira em Capina, ainda que na novela a cidade se chamasse “Greenville”; e a maioria das personagens, embora recicladas, eram baseados em figuras carpinenses recolhidas na minha primeira infância.

Foi em Carpina que, aos sete anos, vi com meus próprios olhos a “Mulher de Branco”, assombração local que desde “Tieta” tem sempre aparecido nas minhas histórias, mudando apenas de nome: o Cadeirudo, o Perfumado, o Sufocador… Parodiando Drummond, eu diria que saí de Carpina e corri o mundo, porém Carpina nunca saiu de mim. E a prova disso é o meu sotaque de nordestino cabra-da-peste, que brota de dentro mim com todo vigor cada vez que eu perco a calma e armo um barraco.

Como eu disse, faz dez anos que não vou fisicamente a Carpina. Da última vez fui para receber as chaves da cidade. E dessa visita guardo lembranças dignas de figurar num dos filmes esquisitos de Guillermo del Toro… Mas não vou falar delas e sim das boas lembranças. Fiquei só um dia e meio. Mas nesse pequeno espaço de tempo conheci figuras reais que dariam personagens incríveis. E quando saí de lá minha idéia recorrente de escrever uma continuação de “A Indomada” tinha se fortalecido.

Não que Carpina seja a mesma de quando a deixei – fisicamente a cidade cresceu muito. Mas, do ponto de vista cultural, continua a mesma, com seus moradores a se dividir mutuamente em “cabras safados” ou “sujeitos machos” – assim, sem meios termos na vida ou na política; até mesmo as mulheres, ou são honestas ou “raparigas”, que é a palavra que lá se usa para chamar alguém de puta.

No dia em que cheguei, morreu uma de suas figuras mais ilustres, o advogado e ex-deputado federal Sérgio Murilo, a quem eu conheci em priscas eras. O enterro foi razão para manifestações explícitas de pesar e para a reafirmação de rivalidades pessoais e políticas. Todas as figuras que contam na vida de Carpina lá compareceram – amigos e inimigos. E todos, mesmo os que divergiam dele ou o odiavam, choraram o morto como se o tivessem amado a vida inteira.

Lá comi de tudo: das iguarias que me remeteram à primeira infância – como o bolo a que chamam de “grude” – até a inevitável buchada de bode, terror dos políticos do Sul do país quando visitam Pernambuco. Constatei o quanto sou lembrado – e amado. Visitei minha madrinha, Lourdes Barreto, a dona Lurdinha (nas fotos abaixo), que continua como a conheci ainda criança de colo  – lúcida, bem humorada e linda. Estive na casa onde nasci, na antiga “Rua das Tamarinas”, e – ah, meu Deus, – que turbilhão de boas e más lembranças: como foi que cheguei aqui e, nesta minha longa caminhada, para onde é que foi tudo?

IMG_1785_edited

IMG_1726_edited

Enfim, sai de lá renovado e repetindo pra mim mesmo a frase que ouvi alguém pronunciar enquanto eu passava:

“Esse menino de Carpina foi longe!”

Nestes dez anos, embora não fisicamente, muitas vezes o menino voltou a Carpina. E neste momento, enquanto escreve mais uma novela nesta madrugada enevoada de São Paulo, é lá que ele está de novo por inteiro.

15 thoughts on “ESTOU EM CARPINA DE NOVO”

  1. Felipe Jordan Leão says:

    Aguinaldo, um bom documentário poderia ser feito com a sua visita a Carpina. Regressar é reunir dois lados.

  2. Spectro-Méier says:

    Volte fisicamente e suas forças se renovarão.

  3. Magdalena Salinas says:

    Infância é nostálgica! Mas não voltemos atrás! Bola pra frente. Esse é o caminho.
    Seu texto é bonito e porque não recordar?

  4. Julielson Lima says:

    Lindo e emocionante texto Aguinaldo silva. Manter a essência de suas raízes depois de ter ido tão longe, só mostra o quanto você é um ser humano hábil. Carpina com certeza tem muito orgulho de ti. Quanto mais o tempo passa, mais vamos nos afastando do que éramos quando começamos nossa vida e isso não é algo de ruim. Porém, é essencial saber manter o que existe de melhor dentro de nós, saber saborear das boas lembranças que a vida nos proporcionou e assim manter o equilíbrio entre o que fomos, o que somos e aquilo que um dia viremos a ser. Um grande abraço.

  5. Louise says:

    Incrível!!! Que lição de vida! Que texto gostoso de se ler!!! Eh isso mesmo… o senhor é de Carpina e eu de Cumaru… cidade que deverão atrasada esqueceu de crescer.. e as lembranças dessa época boa nos nutre na caminhada tortuosa da vida!

  6. Jarbas Timberlake Costa says:

    Lindas memórias. O senhor é um espelho para quem, como eu, sonho em chegar lá. E desde Santana do Agreste, em Tieta; Grewnville em A indomada e tantos outros lugarejos “criados” e tão bem vividos e demonstrados pelo senhor, nos dão aquela vontade infinita de lá estar e prosear um bucadinho… Estou ansioso pela próxima parada!

  7. Jarbas Timberlake Costa says:

    Sr Agnaldo. Perdoe-me se eu estiver sendo um pouco estúpido, mas o que justifica é minha ansiedade mesmo. É que venho acompanhando o senhor assiduamente, e com isso vieram algumas dúvidas. Quanto a oficina de Roteiros, as inscrições serão presencias e à partir do dia primeiro de fevereiro também? Porque eu li em outro tópico que só abriria a inscrição à partir de abril. E outra dúvida, o concurso de roteiros que o senhor promoverá, há alguma relação com a oficina de roteiros? Porque estou ciente que haverá testes, mas não entendi se haverá essa vinculação. E, em não havendo, o concurso será aberto para qualquer pessoa, ou só para roteiristas experientes?
    Muito obrigado pela atenção dispensada e mais uma vez, perdoe-me pela minha euforia.

  8. Ana Paula says:

    Lindo demais! Também aos sete anos eu vi vestes da morte pela primeira vez. Um tecido que se mostrou em cinza. Depois,por um bom tempo toda espécie de assombração se escondeu no ventre da terra. Durante esse período, até o tempo parou por lá, mas parou com ares mesmo de aconchego, de café sempre na mesa, de braços abertos e de povo sempre disposto a uma boa conversa. Até que um dia, cortaram as raizes da árvore que segurava o tempo e com grande estrondo um tornado saiu da terra, levando consigo toda a certeza de que ali tudo sempre permaneceria como antes. Assim conforta mesmo saber que há no mundo outros lugares que permanecem sempre como antes; e que há outras pessoas que igualmente enxergam esses tecidos que voam impondo sua presença , ainda que não fisicamente. E as boas lembranças tecidas, que você leve sim, aonde estiver. Comove pela beleza. Elogio!

    1. Ana Paula says:

      Com a sua licença, eu diria que você foi tão longe exatamente porque conseguiu manter carpina tão perto. A essência , o essencial. E há quem subestime do que é essencial…. aff. É pra onde tudo no mundo sempre volta um dia. A essência!

  9. Ana Paula says:

    Cadê o comentário que eu publiquei aquiiii????? A mulher de branco levou? Uiiiiii…. cadê?????? Hahaha

  10. Filipe do Vale says:

    Aguinaldo,
    a melhor pessoa que acredito que possa tirar minha dúvida , que talvez é a mesma de muita gente, é você: é verdade que você ainda vai escrever O Sétimo Guardião ou será a tal de Enquanto o Lobo Não Vem?

    1. Aguinaldo Silva says:

      Mistério!…

      1. Filipe do Vale says:

        Ah, fala sério, Aguinaldo! Você é a melhor fonte pra saber disso. Responde!

  11. Rosana Monteiro says:

    Fui junto com você até Carpina, porque adentrei na memória de cada novela citada, assisti a todas com entusiasmo, e viajava em cada detalhe dos personagens com seus sotaques nesta prosódia da vida. Eu admiro muito seu trabalho, suas escritas, a Globo tem esse poder de acertar nos autores e fazer a gente se perder nos grandes enredos que nos fazem esquecer que é ficção…isso que sou atriz, hein? Trabalho muitos anos com teatro aqui em São Paulo, imagina um telespectador que não faz parte deste mundo artístico…vai longe em sua imaginação. Minha avó acreditava que era tudo verdade, meio que um big brother kkkkk, não associava o mesmo ator em outra dramaturgia…coisa linda de se ver…nunca desmenti…ela deve ter ido para Carpina também. Sucesso enorme pra vc sempre.

  12. Mari Angela Rafaell says:

    Tudo que nos proporciona boas recordações, vale a pena lembrar. Não que todos os momentos o foram, mas aquilo que nos remete ao interior, ao ponto de partida em alguma crença, que sim, deu certo. Legal buscar essa sintonização para renovação da força e equilíbrio.
    Muito lindo seu texto, com verdade de seus sentimentos.
    Quanto ao título : “Estou em Carpina, de novo”. Realmente não se pode arrancar, nem cortar algo, continuamente presente e eterno em sua criação.
    Grande abraço.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *