UM PSICOPATA NA ESQUINA (1)

 

Não sei o que é, mas acho que tenho um imã qualquer que atrai psicopatas. Não vou falar destes segundo os quais  ocupei um lugar na carreira de escritor que é deles por direito. Mas vou falar de alguns que atazanaram minha vida ao longo desses anos todos… E vou começar com Zé Colmeia!

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Foi nos tempos de “Roque Santeiro”. E decorridos tantos anos  já não consigo me lembrar do nome dele. Sei que fazia figuração na novela e era filho da manicure de um salão de cabeleireiros que eu frequentava. Um belo dia, cheguei para cortar o cabelo e lá estava ele à porta a me olhar fixamente. Moreno trigueiro, um metro e quase novela de  altura, um pouquinho para o gordo… Sem duvida uma figura.

Entrei no salão, cortei o cabelo e, quando estava no caixa pagando, a manicure chegou perto de mim e perguntou: “viu aquele rapaz que estava na porta do salão?!” Respondi que sim e ela revelou: “é meu filho”. E acrescentou que ele fazia figuração em “Roque Santeiro”. Era um dos dois guardas da delegacia. Não falava, é claro… Mas ansiava por isso. E, através dela, queria me pedir que eu o fizesse pronunciar algumas palavras no decorrer da novela.

Saí do salão, olhei mais uma vez para o tipo, lembrei do desenho animado que então fazia sucesso e o batizei de Zé Colmeia. Como o outro guarda era baixinho, pensei que, se desse algumas falas a um guarda chamado Zé Colmeia a direção da novela perceberia que, pelo tipo físico, só podia ser ele.

Assim o fiz. Tal como o Moisés de Michelangelo, na minha imaginação Zé Colmeia falou… Mas, no dia de gravar as cenas, quem falou não foi o rapaz em questão… Foi outro.

Explico: na época, era a famosa e inesquecível Guta Matos quem mandava e desmandava no elenco da Globo… E ela tinha seus favoritos. Um deles era um agente da Polícia Federal, que tratava muito bem os amigos dela chegados do exterior e, embora não fosse ator, adorava aparecer de vez em quando e dizer algumas falas nas novelas.

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Guta Matos, acima, com Renata Sorrah e Francisco Cuoco e abaixo com um grupo de atores, em sua sala que, no Jardim Botânico, era mais frequentada que a de Boni

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Ao ver aquele novo personagem na novela de maior sucesso da época (e de todos os tempos), Guta resolveu fazer um agrado ao seu amigo da PF e tratou de chamá-lo para fazer o Zé Colmeia, embora ele não tivesse nada a ver com o tipo.

No dia da gravação, eu estava em casa a trabalhar quando o telefone tocou, eu atendi e era a mãe do rapaz que proclamou: “roubaram o Zé Colméia do meu filho, botaram outro no lugar dele!” Tratei de saber o que acontecera e, quando vi que tinha o dedo da poderosa Guta na jogada, liguei de volta para ela e disse que não podia fazer nada.

Assim, o rapaz com cara de Zé Colmeia continuou como figurante e eu segui minha vida… Até que, quinze dias depois, a senhora me ligou de novo e perguntou se eu não podia ir visitar seu filho no hospital. “O que aconteceu com ele?” Perguntei. E ela me respondeu que ele dera um tiro no ouvido. “E não morreu?!” – reagi surpreso. Não, ela explicou, porque a bala, de calibre 22, tinha ficado presa no osso.

Eu, é claro, me recusei a visitar o tresloucado rapaz, que saiu do hospital sem maiores sequelas… E foi aí que  meus muitos dias de desassossego começaram: ele passou a me perseguir por toda a parte. Como eu frequentava poucos lugares e sempre em dias certos, era fácil descobrir onde eu iria… E lá estava ele. Chegou até a conseguir emprego de segurança no Barra Shopping recém inaugurado, no qual, de tanto ir lá, eu praticamente morava.

Nunca falava comigo nem me olhava. Mas estava sempre por perto e dava sempre jeito de ser visto por mim… O que me apavorava. Se ele dera um tiro no ouvido poderia fazer alguma coisa parecida comigo, eu pensava. Assim, parei de frequentar sempre os mesmos lugares, mudei de casa e de bairro e, depois de dois anos, afinal deixei de ter a sombra do Zé Colmeia sempre no meu encalço.

Mas ainda o vi uma vez… No final de “Vale Tudo”. Gilberto Braga promoveu uma festa de despedida na casa da irmã dele em Copacabana. E como eu morava em Jacarepaguá, para poder aproveitar melhor a festa me hospedei no Hotel Othon Palace. De manhã cedo, resolvi dar uma caminhada na praia.

Saí do hotel e logo vi um grupo de seguranças num trailler do calçadão a conversar sobre os entreveros da noite. Atravessei a avenida e, quando cheguei perto, percebi que um deles me olhava fixamente e o reconheci: caraca, era Zé Colmeia de novo! Claro, perdi totalmente o meu habitual rebolado. Desisti da caminhada, dei meia volta, subi até o meu quarto no hotel, arrumei minhas coisas e fui embora rezando para que o pesadelo não recomeçasse. E minha reza deu certo porque, desde então já se passaram dezessete anos… E, graças ao meu bom Deus, nunca mais vi Zé Colmeia de novo.

A seguir: a professora universitária que me enviou 600 cartas em oito anos e achava que, cada palavra nas minhas novelas era um recado escrito especialmente para ela.

 

9 thoughts on “UM PSICOPATA NA ESQUINA (1)”

  1. Julio says:

    Aguinaldo, triste porem muito interessante esse tipo de historia, tenho certeza que vai fazer sucesso!! Já perdi as contas de quantos anos acesso seu site, portais etc.. e isso todos os dias. Um grande abraço!!

  2. fabio says:

    Muito bom

  3. Felipe Marques says:

    Esse Zé Colméia é hilário. Eu particularmente já teria feito queixa, pois morro de medo de perseguição. Mas se eu descobrisse onde você mora aqui em Sp, iria fazer uma vez na semana uma visita a vc. Kkkkkkkk calma, não quero ser mais um pesadelo, mas ficaria super feliz em conhecer meu ídolo. Bjs

  4. Carla L Q V Carneiro says:

    #medo!
    Olhar somente… Nada dizer…
    Dar um tiro na cabeça?!?
    Sei não!
    Eu não teria paz!

  5. Francisco Malta says:

    Imagina isso nos dias de hoje e com todos os aparatos das redes sociais.

  6. Kika says:

    Adorei! Mil kiss

  7. Roberto Moura says:

    Lembrei daquele filme com a Lauren Bacall, O fã – obsessão cega

  8. Severino Ramos Barbosa says:

    Aguinaldo, você é um ícone da escrita! Um texto simples, mas escrito com uma habilidade estrondosa. O jeito de escrever, de prender a atenção do leitor, nos faz concluir que, sem dúvida, você nasceu para ser escritor.

  9. Jacob Oliveira says:

    Tudo pode acontecer depois de dezessete anos, ele pode aparecerkkk

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