TRANSAR, TRANSAR… E TRANSAR

 

Durante um jantar regado a (muito) vinho um amigo meu português de 77 anos me confidenciou: após alguma experiências desastrosas na cama resolveu desistir de uma vez por todas do sexo.

“Por que?!” – eu lhe perguntei, lembrando que muitos conhecidos nossos não desistiram nem mesmo após passar dos oitenta e tantos. E ele respondeu:

“Porque dá muito trabalho! A gente tem que tirar a roupa e aí vem toda aquela movimentação grotesca, aquele ápice que não chega a ser uma exaltação, mas uma agonia… E aí ficamos nós e o nosso parceiro com cara de isopor, sem coragem de encarar a realidade pura e simples que é: não valeu a pena… E então vem o pior: a gente tem que vestir a roupa de novo!”

E meu amigo passou a um assunto correlato – a dificuldade que as pessoas idosas têm de calçar e atacar os sapatos, assunto, aliás, do meu mais absoluto interesse nos últimos tempos: não consigo atacar uma daquelas botas do Armani em menos de oito minutos.

O jantar terminou, fui para casa e já estava a ver mais um episódio da terceira temporada de “Outlander” quando, de vez em quando…

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“Aquele ápice que não chega a ser uma exaltação, mas agonia”:  esta frase do meu amigo de vez atravessava os vapores do vinho e me vinha à lembrança com tamanha insistência que, afinal me perguntei: quando foi a última vez que, para mim, o sexo foi exaltação em vez de agonia?

Confesso que já não me lembro.

Costumo dizer – e pretendo estar brincando quando o digo – que me tornei tão seletivo quanto ao sexo que, hoje em dia, “não tiro a roupa por menos de vinte mil Euros”. Essa é a metáfora (ou o que seja) usada por mim para anunciar de modo indireto que o sexo tornou-se uma coisa menos importante em minha vida.

Mesmo assim… E isso eu também disse ao meu amigo, durante o tal jantar, entre um gole e outro de vinho: vão-se os anéis, mas ficam os dedos, ou seja: mesmo que não exista a vontade há sempre o desejo. Nestes meus dias de Portugal, um país onde pessoas de 50 anos acham louvável parecer e se comportar como velhos, cada vez que vejo um desses anciãos precoces eu lembro que na idade deles exercia o metiê com vigor e afinco e me pergunto: como é que eles fazem para abafar o desejo?

Num flash-back de cena não gravada, refaço a pergunta e a lanço em direção ao meu amigo:

“Tudo bem que você não tenha mais vontade de praticar o ato. Mas não sente desejo?”

Ele toma mais um gole de vinho, reflete durante alguns segundos e afinal responde:

“Tanto, que às vezes até me dói o peito!”

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Simone de Beauvoir, que durante  quase toda a vida andou transando loucamente enquanto Jean-Paul Sartre fingia não ver nada através daqueles óculos de lentes grossas (na foto acima os dois em Copacabana), na velhice escreveu que almejava “a paz dos sentidos”, ou seja, a época em que não sentiria mais desejo de ter sexo. Tenho certeza que ela morreu antes de chegar lá. Pois a verdade é que a paz dos sentidos não existe. O que existe é aquilo que Pedro Almodovar chamou muito apropriadamente de “a lei do desejo”.

Por isso, tenho certeza que meu amigo está apenas passando por uma crise. Logo estará fazendo o footing na Avenida não por acaso chamada da Liberdade… Em busca de um parceiro que lhe dê, não necessariamente pela ordem, exaltação, agonia,  desassossego… E vontade de ficar sem roupa, digamos, durante mais algum tempo.

12 thoughts on “TRANSAR, TRANSAR… E TRANSAR”

  1. Clau Stucki says:

    Muito Interessante o Texto! Danke

  2. Lara Simeão Romero says:

    Nem sei por onde começar, que texto magnífico! Marido viajando e filha no mundo, passei a noite assistindo Netflix, YouTube, dormindo e acordando. O último vídeo do YouTube que eu vi (como cheguei nesse vídeo definitivamente foi obra do destino e dos meus sucessivos estados de vigília) tem a ver com isso, com a lei do desejo e ações para sentir o desejo, no caso o desejo feminino, como descobri-lo e redescobri-lo. Estava matutando, será que esse meu interesse continuará daqui a 10, 20,30 anos? Não sei. Ruim só seria, no caso de um casal, se o desejo de um continuar e o do outro nem tanto, já pensasse? Uma catástrofe! Quero nem pensar.

  3. Lara Simeão Romero says:

    PS1: atacar os sapatos? É gíria carioca ou fala-se assim em Portugal?

  4. Lara Simeão Romero says:

    PS2: também estou assistindo a terceira temporada de Outlander, a primeira temporada de La casa de Papel, tenho cinco outras séries (antigas) na fila, oito livros pra ler, algum trabalho e muito estudo e pesquisa relativos ao trabalho. Ainda quero ir ao cinema, viajar nem que seja pra esquina porque pra mais longe está difícil, Ir a festas, dançar, cantar no banheiro, fazer as unhas semanalmente, tomar um pouco de sol (forte) para afugentar a depressão, etc etc. Não tenho a tua disciplina e estou com tudo isso atrasado e agora, ainda por cima, matutando sobre a lei do desejo, o sexo e o orgasmo feminino. Lasquei-me! Kkkkkkk

  5. Lara Simeão Romero says:

    PS final-por-hoje: um abraço, um beijo e um cheiro querido Aguinaldo. Hasta pronto.

  6. Felipe Mota says:

    Cronica muito interessante para reflexão. Não posso tecer nenhum comentário sobre minha experiencia pois ainda sou muito jovem (20 anos) mas posso observar ao meu redor. Tenho uma bisavó de quase cem anos que tinha longas conversas com o jornalista Marcelo Rezende pela tela da televisão, ela falava com tanto ardor do homem que parecia ser ele seu marido. Ou seja, mesmo com os noventa e tantos anos de idade a minha bisa ainda tem o desejo vivíssimo.

    PS: “Atacar os sapatos” por favor me explique estou sem entender.

    1. Aguinaldo Silva says:

      “Atacar” é puxar e fechar, ou dar nó, nos cordões dos sapatos. Com as botas que se usa atualmente isso ficou cada vez mais difícil para alguém que não tenha o fôlego de Cristiano Ronaldo, ou seja, se você já não tem preparo físico não consegue ficar cinco minutos curvado tentando “atacar” os cordões que permitem fechá-la e assim caminhar com segurança. Acho que fui prolixo na resposta, desculpa.

  7. Rosaura Nanini says:

    Sexo não tem idade. Nem regras.

  8. Dalton says:

    Lindo texto . Eu só queria entender uma coisa sobre atração nessa vida. Desde pequeno só sinto atração por ancião . 26 anos de pura ilusão .

  9. Magdalena Salinas says:

    Texto lindo mas se diz atar os sapatos.

    1. Aguinaldo Silva says:

      Aqui em Portugal, sim. Mas no Brasil, principalmente no Nordeste, onde nasci, o que se diz é “atacar os sapatos”. Tanto que os cordões que os atacam são vendidos nas lojas como “atacadores”.

  10. Spectro-Méier says:

    E se um atacante tiver um ataque do coração e resolver atacar os sapatos ? Ele está atacado e aperriado ou é atacado pelas dores lombares ao tentar tal ato ?

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