TÔNIA CARRERO: COMO UMA DEUSA

 

Foto: Acervo Aguinaldo Silva.
Ano: 1948
Local: piscina do Copacabana Palace

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Por uma dessas coincidências com as quais de vez em quando o destino me bafeja a última aparição de Tônia Carrero na televisão foi numa novela minha. Não uma inédita, mas a reprise de “Senhora do Destino” levada ao ar ano passado, na qual ela fazia, com um delicioso sotaque francês, Madame Berthe Legrand, a dona do bordel no qual a early Nazaré Tedesco vivida por Adriana Esteves trabalhava.

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Esta foi a única vez em que trabalhei com Tônia. Mas a conheci pessoalmente em 1962, quando ela esteve no Recife durante uma turnê nacional de uma peça – acho que se chamava “Tiro e Queda” – e lá tornou-se, como eu, frequentadora assídua do bar “Canavial” que pertencia a outra atriz quase tão famosa de sua época – a auto-proclamada “mulher-veada” Heloísa Helena.

Era no “Canavial” que eu e meu amigo Aron Mandel, que fazia comigo uma dupla de repórteres encarregados de cobrir a noite para o jornal “Última Hora”, colhíamos informações preciosas. O bar ficava num beco que desembocava na que era então a artéria mais central do Recife, a Avenida Guararapes. Era quase deserto durante o dia, mas à noite, bem… Era, em todos os sentidos, muito movimentado.

Foi neste beco que eu e Aron ajudamos Tônia a se levantar, depois que seu namorado da ocasião a agrediu e a jogou no chão em meio a uma crise de ciúmes. Um ator secundário da peça que ela fazia viu a cena de longe, não resistiu e gritou aos quatro ventos: “a estrela está rolando pelas ruas!” E saiu correndo antes que ela o identificasse e o demitisse com toda a justiça. O amante também se escafedeu. Eu e Aron, que testemunhamos a cena em todos os detalhes, ajudamos a estrela a se levantar e ela, como se não tivéssemos visto nada, justificou sua queda: “meu salto ficou preso num buraco, que merda!”

Pensei naquela ocasião e continuo pensando agora: um homem que bate numa mulher tem que ser preso. Mas se ele é capaz de bater numa mulher tão linda quanto Tônia Carrero deve ser condenado à prisão perpétua. Porém o tal namorado de Tônia não sofreu nenhuma pena. E, depois que se separou dela, parece que continuou a aprontar com outras… E talvez seu castigo tenha sido o fato de que acabou morrendo cedo.

Tônia Carrero travou durante boa parte da vida uma luta mortal contra sua beleza excessiva, até que saiu vitoriosa: foi quando todos concordaram que ela era uma grande atriz, embora também fosse indecorosamente bela. Foi grande atriz enquanto pôde; mas bela foi até o fim. E o fim foi quando decidiu que não lhe cabia trair os que sempre foram fascinados pela sua beleza e então se recolheu e isolou-se, e assim não permitiu que eles vissem que ela envelhecera e já não era tão bela.

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Embora lindas mulheres andem por aí – algumas, além de belas, grandes atrizes – a verdade é que não se fazem mais mulheres como Tônia. Ela era uma das raríssimas a quem se poderia classificar, sem nenhum exagero, como uma Diva. E ela foi isso naquela remota noite de 1962 em que, diante dos meus olhos incrédulos, segurou no meu braço, levantou do chão e saiu a caminhar até sumir na parte mais escura do beco como se fosse uma aparição… Uma verdadeira deusa.

 

6 thoughts on “TÔNIA CARRERO: COMO UMA DEUSA”

  1. Raai says:

    Skandalo BB

  2. Roberto Moura says:

    Teria sido uma visagem? Tônia seria a precursora da Mulher de Branco, divina e humana sem apelos.

  3. Claudia says:

    Encantada…

  4. carla says:

    Quando será que voltaremos e se voltaremos a ser encanto em vez de somente mulheres? Ela era um encanto… Mostrava sua personalidade forte participando de movimentos realmente importantes para sociedade, era uma maravilhosa atriz que viajava entre o lúdico e o drama com muita elegância… Não usava a sexualidade para alcançar um status que naturalmente surgiu pela sua finess e estilo… Ela é o que chamo de encanto… Gostaria de voltar a época em que as mulheres se mostravam pela sua inteligencia não pela cor da calcinha …

  5. Rosemary Goncalves Cortines Laxe says:

    Incrível seu relato, já naquela época como agora a total falta de respeito do marido com a sua esposa. Até uma diva também padece de violência doméstica.

  6. Claudia Fecher says:

    Maravilhosa homenagem a essa espetacular artista e ser-humano ímpar

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