CUIDADO COM O QUE VOCÊ DESEJA

 

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O roteirista Antônio Costa, que esteve na minha Master Class 2 – e foi um aluno brilhante – tem com sua esposa um bistrô em Porto Alegre no qual se dedica às artes culinárias e, como todo bom escritor, coleciona histórias e descobre personagens. Neste sábado ele repetiu em sua página no Facebook o que ouviu de um desses clientes. Leiam o texto dele a seguir:

De um senhor de 70 anos, tomando cafezinho no Bistrô: “Não sei porque as pessoas têm tanto medo da volta dos “milicos” ao governo. Eu não tenho do que me queixar. Eles entraram no governo e, uma semana depois, aos 15 anos arrumei meu primeiro emprego. Durante todo o período em que eles estiveram no poder, nunca fiquei desempregado. Hoje, já sou aposentado e tenho uma loja de autopeças que meus guris é que cuidam. Eu nunca me incomodei com os milicos””.

Antônio Costa publicou este desabafo do seu cliente com o intuito de provar que toda história tem dois (ou vários) lados, por isso há quem não tenha visto mal nenhum na ditadura. Mas este texto me fez pensar sobre o fato de que, durante a ditadura (pela qual, nunca é demais dizer, fui preso e muitas vezes censurado), enquanto alguns jovens inconformados faziam barulho nas ruas e depois partiam para a clandestinidade e a guerrilha, o grosso da população brasileira, mesmo sob o suposto tacão dos militares, tratava de tocar suas vidas.

Claro, naquela época não vivemos por aqui uma situação tão extrema como a de agora na Venezuela, onde as pessoas já não têm acesso ao mais elementar de todos os direitos humanos que é limpar o cu com papel higiênico em vez de um pedaço de folha de bananeira.

Durante a ditadura no Brasil a barra pesou – e muito – para alguns, mas não para os que apenas queriam viver suas próprias vidas. Estes viveram sim. E, sem nunca pensar em fazer de sua escolha pessoal um épico, uma epopeia, uma ação política, cresceram, prosperaram (ou não), casaram, tiveram filhos, morreram… E com isso fizeram o país funcionar e até mudar apesar de tudo. Essas pessoas eram os milhões de anônimos cujos nomes foram reunidos nos livros de história num coletivo sem rosto chamado “povo”. A eles coube o trabalho. Aos revolucionários a glória da qual muitos colhem até hoje os louros… E as aposentadorias.

Entre uns e outros, haviam os que, conscientes da mudança que acontecia no resto do mundo, partiram para outro tipo de confronto: a chamada revolução dos costumes. Hoje, quando vivemos sob o jugo de outra ditadura tão violenta quanto a outra – a do politicamente correto – vale a pena lembrar que, por ironia do destino, foi justamente na década de 70, quando a repressão política se mostrou mais violenta, que o Brasil foi menos “careta”. Na superfície era “o povo contra a ditadura”. Mas, debaixo dos lençóis e dos caracóis dos seus cabelos, a luta era outra e o objetivo dela era ressaltar o individualismo, deixar claro que o mundo só se tornaria melhor quando cada pessoa fosse o que fosse e exercesse livremente sua liberdade de sê-lo sem medo.

Nos anos 80 e 90 parecia claro que, se perdemos na política, pelo menos nessa mudança de costumes tínhamos ganho de lavada. Neste campo as pessoas eram cada vez mais livres. Mas aí veio o novo milênio e de repente tudo mudou: tudo que era certo não é mais certo. E agora, tal como nos tempos negros da ditadura, vivemos de novo com medo. Cada palavra ou gesto mal entendido pode nos conduzir à desgraça irremediável, ao degredo moral, à cova rasa na qual são atirados, sem chance de defesa, os que se recusam (ou não podem) a seguir as regras cada vez mais estritas ditadas pelos patrulheiros. Uma nova ditadura se instaura e, embora (ainda) não faça uso dos castigos físicos exerce, com incrível eficiência, a tortura moral, que é a pior de todas.

E assim, voltamos aos anos 70. De novo é preciso lutar pelas nossas individualidades e de novo temos que impedir que elas sejam aprisionadas dentro dos limites tacanhos do ativismo e da ideologia de qualquer viés político.

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Algum leitor que tenha chegado até este ponto do meu texto a essa altura já estará perguntando se por acaso sinto saudades da ditadura. A estes repito agora a resposta que dei – em tom de brincadeira, é claro – ao comentário feito pelo cliente de Antônio Costa. Aí vai:

Sinto saudades, mas é dos “Catarinas”, soldados do Batalhão Presidencial escolhidos a dedo em Santa Catarina, que naquela época iam para a Cinelândia, no Rio, faturar uns trocados com o bicharéu. De vez em quando a PE, Polícia Especial do Exército, aparecia  e os prendia sob os gritos de protesto das bonecas que não gritavam “abaixo a ditadura”! ou “não vai ter golpe”. Gritavam era: “não leva o bofe, não leva o bofe!” Hoje não tem Catarinas, não tem Cinelândia, não tem a gente correndo da polícia pelas ruas às gargalhadas… Não tem nem mesmo Wladimir Palmeira trepado num poste a gritar palavras de ordem cheias de som e fúria, mas vazias de significado… Ai, que saudades.

Que a ditadura foi sanguinária todo mundo sabe. O que ninguém diz é que na década de 70, debaixo dos lençóis e dos caracóis dos seus cabelos nunca houve tanta liberdade… Sem falar na monumental epidemia de chatos, não chato-gente, mas chato-piolho que atingiu metade da população do país, ou pelo menos a que tinha mais de 16 anos.

O que tudo isso que acabei de escrever (e citar) significa ou tem a ver com as calças? Nada, apenas que hoje acordei e a primeira coisa que senti foi medo, embora não saiba do quê. Isso tem acontecido com certa frequência: uma sensação de que cometerei algum erro ínfimo no decorrer do dia e que ele me levará à desgraça. Pode ser apenas paranoia, quem sabe? Se for, espero que logo passe. Mas também pode ser o temor dessas forças que agora se movimentam em todas as direções, cada uma reivindicando algum tipo de liberdade sem perceber que sua liberdade confronta todas as outras.

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Enfim: temo que tudo isto resulte em alguma coisa parecida com a distopia de Margaret Atwood intitulada “O Conto da Aia”. Leiam o livro, vejam a série… E depois tratem de fechar todas as portas.

17 thoughts on “CUIDADO COM O QUE VOCÊ DESEJA”

  1. Julielson Lima says:

    Posso ser muito julgado pelo que vou dizer agora, mas, se soubesse que uma possível volta da ditadura militar trouxesse
    junto consigo : Liberdade, igualdade, união entre os gêneros, fim da violência urbana, respeito, educação, estabilidade econômica, avanço cultural e o fim da merda que é o politicamente correto, não me importaria em viver nesse novo” Brasil da ditadura” . Antes isso, do que a droga da certeza de que em outubro teremos ou um condenado em segunda instância, ou um homofóbico evangélico representando a nação! Pronto falei!

  2. marco aurelio bittencourt says:

    Como sempre uma escrita muito interessante. Euzinho mesmo tava na turma do sou feliz com Roberto Carlos, os mutantes, Caetano Veloso, Elis Regina, Raul Seixas e procurando saber por que sumiram com o Miltinho. Ainda molecote me perguntava: devo morrer pelos outros? Tô vivinho da Silva, embora com algumas pedras no pâncreas que estão na minha mira destrutiva. Depois, resolvi ser economista. (Oh profissão fela da puta – serve muito como conselheiro do Rei. Claro, o estimulo à bandalheira é alto.) Mas essa profissão me permitiu entender o modelo brasileiro. Embora esteja fora de moda a expressão, ainda vale e muito: o problema é econômico, estupido (sem querer ofender ninguém em particular). Acontece que nossa oposição briosa morreu faz décadas. E mesmo ela dava tiro no pé o tempo todo, como o tal Manifesto Nacionalista nos anos 80, assinado inclusive e em destaque pelos nossos algozes habituais. Um besteirol só que é até difícil encontrar na Internet. Mas o fato concreto é que muitos não entendem o fator determinante da malignidade da ditadura militar. É o viés anti-economia de mercado, com a introdução nas leis de todos os abusos econômicos possíveis. Nem isso a turma briosa conseguiu identificar, porque os problemas de tortura e censura dominava o debate de então. E como diz o brioso opositor do regime Alencar Furtado: os militares aceitavam qualquer critica econômica; mas nao toleravam nenhuma critica sobre tortura. O intrincado jogo de interesses espúrios fincados no nosso ordenamento jurídico consolidou-se; veio a Constituição de 88 e o centrão venceu, ou seja, nada mudou. O que de fato mudou foi a dinâmica politica, para tomar conta do galinheiro. Certamente a bagunça aumentou e o modelo continuou incólume e majestoso em sua sina de gerar pobreza. Tudo piorou. A saída econômica é fácil. O difícil é romper o cerco institucional. O triste é que a armadilha é a mesma da época da ditadura: o essencial ( o modelo da pobreza) não se discute; a polarização continua a mesma: uma esquerda ansiosa pelo poder e uma direita que mantem o ritmo da pobreza e pilhagem. Não gosto de rótulos , mas creio que torna mais simples minha exposição .

  3. Lolita Davidson says:

    Um dos melhores textos que o Aguinaldo já escreveu nestes anos todos de blog. Não tenho dúvidas de que esta confusa ânsia de liberdade na qual os mais diferentes grupos batalham por liberdades que não combinam entre si, vai acabar numa reação brutal e xiita. Realmente, em O Diário da Aia a escritora Magaret Atwood foi profética? E se?…

  4. Marcos Pereira says:

    Bravo, Aguinaldo. Pondo os pingos nos iis. Só você mesmo para rasgar o coração e se expor tanto. Além do talento não lhe falta coragem.

  5. Emanoel Reali says:

    Desculpa, mas discordo de você. É justamente do entrechocar dessas reivindicações tão diversas e dispares que vai sair um mundo novo. A que preço, eu não sei, mas não acredito que haverá nenhum retrocesso. A mudança pela qual o mundo está passando é irreversível.

  6. Jana Pereira says:

    Gente, escolher só aqueles alemães grandões para guardar o Presidente não era uma forma de racismo? Afinal, naquela época já se dizia que “black is beaultiful”…

  7. Aquele Que Observa em Silêncio says:

    Aguinaldo, queridaço, por que os gays ativistas vivem dizendo que você é inimigo da classe? Pelo que sei de você, e pelo que você escreve, parece que é justasmente o contrário, desde pequenino que você vem torcendo o pepino com uma coragem admirável. Será que eles sentem despeito porque você abre o jogo e solta o verbo e eles, mesmo sendo ativistas, não têm coragem de fazer isso? Como diria aquele personagem seu, esqueci o nome: curuzes!!!!!!

  8. Laura F. Palim says:

    Você namorou algum Catarina? Se namorou, seja homem e conte aqui pra gente… Sem esquecer os detalhes sórdidos.

    1. Aguinaldo Silva says:

      Namorei sim, querida. Não um apenas, mas dois. Com o primeiro, o Alemão da Lapa, cheguei a morar. O outro foi preso e na cadeia simplesmente sumiu. Tudo isso aconteceu nos meus tempos de malandragem na Lapa. Os detaslhes, inclusvive os sórdidos, estão em dois livros meus. O primeiro, “Turno da Noite”, você ainda encontra nas livrarias. O segundo, “Lábios que Beijei”, só está à venda nos sebos digitais… E neles é um best seller.

  9. maria da costa souto says:

    Não entendi nada. Do que você está falando? É do Bolsonário?

  10. Josué Pereira says:

    O maior problema do mundo ninguém tem coragem de encarar: é a superpopulação. As mulheres, com essa história de empoderamento, deviam acrescentar um item importante em suas agendas: filhos, só com responsabilidade. Este negócio de ter filho e depois achar que o Estado é quem deve cuidar deles dá n o que dá: crianças soltas ao léu, sem futuro nenhum, em todas as partes do mundo.

  11. Albino Santo Sé says:

    Já pensou se a moda pega e as brasileiras têm que andar com uma roupa igual à dessa mulher da foto – é uma freira? -, ou então de burka? A indústria do silicone vai falir.

  12. Malévola dos Santos says:

    Escuta Aqui, Agnaldo, só porque você já passou do crepúsculo não significa que todo mundo tem que lhe acompanhar. Para de jogar sua ziquizira pra cima da gente.

  13. Antonio Costa says:

    Jamais imaginei que um comentário simples, em cima de um desabafo de um cliente, pudesse dar origem a texto tão brilhante. Parabéns, Aguinaldo!

  14. Pedro da Silva says:

    Aguinaldo, a novela Vale Tudo, a qual você escreveu, mostrava a situação lastimável na qual os militares deixaram o Brasil, ética e economicamente. Na época, eles já não estavam no poder, justamente porque não conseguiam mais anestesiar a mídia e a classe média com crescimento econômico (algo parecido com o que aconteceu com Dilma) e foram obrigados a largar o osso. O protagonista Ivan, por exemplo, chegou a dizer que no próximo ano eles votariam para presidente e que as coisas, enfim, mudariam, outros personagens criticaram as obras do Milagre, além da pobreza, desemprego e falências que foram o pano de fundo dessa novela. Durante esse período de instabilidade, foi nomeado Ministro da Fazendo o Delfim Netto (hoje, alvo da Lava Jato), que tinha ocupado o cargo na época do Milagre da Ditadura, pela simples razão de ser relacionado a crescimento econômico. Óbvio que não deu certo, mas o que eu quero dizer é que o Delfim Netto de hoje é o Lula, e esse argumento de que na época dos militares não tinha desemprego/tinha crescimento alto/muitas pessoas saíram da pobreza e ficaram ricas pode ser (e é) usado para defender o retorno do Lula.

  15. Spectro-Méier says:

    Estava aqui mergulhando o pão no copo Nadir Figueiredo cheio de café com leite, quando li esse relato. Ninguém mais sabe o que é bom ou o que é ruim. Seja lá o que acontecer nessas próximas eleições, uma coisa é certa: continuarei bebendo minha cerveja quente e barata e comendo churrasquinho de gato siamês na esquina. Se nem a finada mãe Diná conseguiu revelar o futuro, o que será de nós, só o tempo dirá. No final do ano voltaremos com nossa programação normal, escutando o LP da Simone (“Então é Nataaaaaal”) e comendo fios de ovos e rabanadas. Melhor ou pior ? Sei naum sinhô, mas seja lá como for, vamos que vamos, pois é pra frente que se anda, com ou sem a “dita” dura, mais conhecida como prótese peniana. Para todos, um feliz “viva o hoje”. Os marcianos estão chegando.

  16. alexandre. ganso says:

    Hahahaha… Mas isso aqui tá muito divertido! Saudade dos tempos do Blogão.
    Salve Aguinaldo querido! Sempre muito bom te ler!

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