QUEM MATOU AURORA CONSTANTI? (1)

 

Em 2006 lancei um romance chamado 98 Tiros de Audiência que, embora seja ficção, revela como nunca se fez antes a verdade sobre os bastidores de uma telenovela. Os editores apostaram que seria um sucesso. Mas a edição do livro atrasou, ele foi lançado há uma semana do Natal e passou em brancas nuvens. E, talvez por conta da sinceridade com que abordava o tema, não mereceu nem mesmo uma nota de pé de página nas colunas especializadas em televisão ou literatura.

Durante estes doze anos o romance 98 Tiros de Audiência chegou ao conhecimento de poucos leitores. Mas agora vai ganhar uma segunda chance, pois em breve será reeditado. E antes disso é para vocês, que me acompanham nas redes sociais, que publicarei trechos do livro no meu blog. O primeiro deles sai hoje… E é narrado na primeira pessoa pela diva absoluta das novelas, a estrela cuja trajetória é esmiuçada ao longo do livro: ninquém menos que a loura, linda e super talentosa Aurora Constanti.

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Aurora Constanti era o meu nome. A italianona como meus antigos colegas de escola me chamavam, na verdade apenas filha de oriundi, nascida num rincão distante, um cu-de-judas qualquer do Rio Grande do Sul. Ex meia dúzia de coisas antes de descobrir minha única e verdadeira vocação  – “a de destruidora de lares”, diziam outras mulheres cujos maridos, até mesmo sem querer, eu desvirtuara: modelo, manequim, jornalista ainda que semi-analfabeta (aprendi a ler e refletir com o tempo), quase candidata a vereadora, destaque de escola de samba e finalmente Atriz.

E que puta de uma atriz. Não houve um único desses viadinhos da crítica que ousasse por algum reparo na minha interpretação de Medéia – no máximo um deles me achou jovem demais para viver a própria. E o Prêmio de melhor do ano que me deram depois – mesmo concorrendo com Marília e Fernandona, coitadinhas – foi a comprovação dessa unanimidade.

O Prêmio Moliére era só a merda de uma estatueta de bronze, a reprodução mal feita de um busto daquele que lhe dava o nome, além de uma passagem Rio-Paris-Rio (classe econômica, gente: quanta pobreza!). Mas eu o recebi com o maior orgulho, pois fizera por merecer cada centímetro e cada uma de suas gramas. Durante meses, vivendo uma Medéia mais ensandecida que o original grego, eu me espojara literalmente naquele palco. Buscara, com um desespero cada vez maior e mais metódico, o fundo de um poço que logo descobriria não ter fundo. Gastara toda a minha capacidade de sofrimento e emoção, nascera e morrera a cada dia, e é claro que também sofrera as graves consequências mentais desse processo todo.

No fim da temporada, quando entrava sempre sob aplausos no palco, ele me parecia cada vez mais inclinado, como uma espécie de rampa que me levaria com toda certeza e antes do final do espetáculo, aos subterrâneos onde moravam dois indivíduos muito nojentinhos que eu tinha conhecido fazia pouco – Mestre Horror e Doutor Delírio. E naquela superfície desnivelada, mal conseguindo manter o prumo, eu travava uma luta de vida ou morte comigo mesma.

Cada vez mais perdida nas vascas do medo, enredada na teia de aranha do meu viscoso terror, tentava chegar ao final do espetáculo antes que aquela doença toda me vencesse. Eu ia construindo, de modo cada vez mais exacerbado, uma espécie de represa, um dique de sacos de areia destinado a reprimir a insanidade que vergastava meu rosto como se fosse um hálito venenoso. E, certa de que não existia mais ninguém naquele palco a ser sacrificado, eu oferecia minhas próprias entranhas à loucura, em troca de um instante que fosse de paz e de sanidade.

Tudo acontecia sempre como se eu e meus comparsas estivéssemos dentro de um vácuo, vítimas de um turbilhão, ou como se fôssemos notas desordenadas que se juntavam para formar uma peça musical de rara harmonia, ao fim da qual o resultado era sempre o mesmo – éramos recompensados com aplausos delirantes e os gritos de “bravo!” da plateia agradecida.

O livro que narra a vida e a morte de Aurora Constanti mereceu uma edição portuguesa, cuja capa foi esta aí embaixo.

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10 thoughts on “QUEM MATOU AURORA CONSTANTI? (1)”

  1. Roberto Moura says:

    Amado, sou gaúcho do rincão do Rio Grande e vou querer ler este novelão impresso. Venha lançar em Florianópolis e ganhe um grande abraço meu.

  2. Brunno Pires says:

    É uma grande obra. Mas insisto na republicação de “Lábios que Beijei”, livro delicioso que devorei em apenas um dia e já saí recomendando. O difícil, porém, foi encontrá-lo: fui de sebo em sebo e a versão que eu tenho é uma bem velhinha.

  3. Julielson Lima says:

    Aguinaldo, fico muito feliz em saber que você quer transformar esse livro em uma minissérie. Acho o máximo! Esse livro foi o primeiro dos seus que eu comprei. Nossa, isso foi em 2014!!! Meu Deus como o tempo voa. Eu li duas vezes e senti igualmente o mesmo prazer pela leitura nas duas ! Na segunda vez, mesmo sabendo quem já era o assassino, esse fato não me tirou o prazer de ler, pelo contrario, estimulou e aguçou ainda mais minha intuição . Eu quero! Estou aqui! Que sonho e que honra seria fazer parte desse time que vai transformar esse livro em uma obra audiovisual. Grande abraço.

    1. Severino Ramos Barbosa says:

      Estou torcendo por você, Julielson. Sei que você está preparado para uma missão tão desafiadora que é escrever para a TV. Palmas para você, meu caro! Sou seu fã!

  4. Spectro-Méier says:

    Eu tenho uma relíquia: “Lábios que beijei” (que já é difícil de encontrar) autografado por um certo autor de cabeleira prateada. E vamos que vamos !

  5. Severino Ramos Barbosa says:

    Li o livro duas vezes. E releio quantas vezes for necessário. É uma trama maravilhosa que, como citou o autor, revela a realidade nua e crua dos bastidores de uma novela. Também existe o clima do mistério e do suspense. Uma obra bem costurada, de quem endente do assunto.

  6. Severino Ramos Barbosa says:

    Para melhor dizer, já li do Aguinaldo Silva: Redenção para Jó, Geografia dos Ventre, O Homem que Comprou o Rio, Lábios que Beijei (esse é nota 10), 98 Tiros de Audiência e Turno da Noite.

    1. Severino Ramos Barbosa says:

      Geografia do Ventre

  7. Carlos Matheus Nogueira says:

    Tenho o meu lido e relido!

  8. Filipe do Vale says:

    Interessante. Quando um livro conta uma história em primeira pessoa, parece mais realista, não, Seu Aguinaldo?

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