MEU MELHOR COMPANHEIRO

 

Gato

Adoro gatos. Sou fascinado por eles. Mas, atenção: quando escrevo “gatos”, quero dizer gatos mesmo. Hesito em chamá-los de “animais”, de tão inteligentes e cheios de personalidades que são, por isso aqui os chamarei de felinos. O primeiro atendia pelo mimoso nome de… Mimoso. E chegou na minha casa, em Carpina, quando eu tinha sete mimosos anos. Ficou conosco quatro anos, quando eu e minha família tivemos que nos mudar para o Recife. Mimoso não quis ir e sumiu misteriosamente na manhã em que seria feita a mudança. Anos depois uma suspeita me acometeu e me acompanha até hoje: teriam os meus pais se livrado dele? É possível. Não mudávamos apenas de cidade, mas de uma casa com quintal para um apartamento pequeno. Talvez eles achassem que, naquele ambiente pequeno, o gato seria um estorvo. Senti falta de Mimoso durante muitos anos, mas nunca tive dúvidas que, mesmo longe de mim, ele encontrou seu caminho e se deu bem… Como acontece sempre com os gatos.

O segundo gato me veio em 1976. quando eu já estava no Rio, mas ainda morava em Santa Teresa e era jornalista especializado em assuntos policiais. Veio desta minha especialização o nome que lhe dei: Lúcio Flávio, em homenagem a um dos bandidos mais famosos da época, Lúcio Flávio Vilar Lírio, cuja história virou livro (“O Passageiro da Agonia”, de José Louzeiro) e filme dirigido por Hector Babenco. Ao contrário do seu homônimo, que morreu cedo, o meu gato Lúcio Flávio teve uma vida longa. Morreu aos dezoito anos, o que, na idade humana, daria uns 75. Não acompanhei seus últimos dias, já que me separei do meu companheiro de então e, quando saí de casa, só me foi permitido levar as roupas e mais nada… E este nada incluiu o gato.

Eu já estava casado de novo quando, em 1994, fui presenteado com o terceiro gato. Dei-lhe o nome de Jorge Tadeu, por causa da personagem vivido pelo ator/cantor Fábio Júnior e que, na minha novela “Pedra Sobre Pedra” tornou-se objeto do prazer nacional. Posso dizer sem medo de errar, depois de três casamentos e muitos namoros, que o gato Jorge Tadeu foi meu grande companheiro, presença constante, muda e discreta em todos os cômodos das minhas casas, incluindo meus ambientes de trabalho. Como estou sempre em casa, que é o lugar onde vivo e também meu escritório, ficávamos juntos praticamente todo o tempo, e assim ele acabou por adquirir meus hábitos. Se eu dormia ele dormia, se eu comia ele comia… E até a siesta que sempre faço, entre 13h e 15h, ele fazia comigo.

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Deste Jorge Tadeu eu acompanhei toda a agonia.  Ele morreu de câncer aos 14 anos. Chegou a ser operado e estava se recuperando da operação, mas acabou por morrer dormindo. Nunca esquecerei da última vez em que o vi ainda vivo. Ele estava, ainda meio grogue da anestesia, na clínica veterinária onde foi operado. E quando eu entrei lá e ele me viu soltou um miado que para mim teve vários significados: alegria, tristeza, dor, saudade, despedida… E amor incondicional e infinito.

É dele que me lembro, agora, sempre que estou escrevendo uma cena do gato “León” em minha próxima novela. Um gato tão mágico que é capaz de fugir da remota cidade onde vive com seu dono solitário e, apenas uma hora depois, aparecer em plena Avenida Paulista, em São Paulo, que fica distante de lá 400 quilômetros.

Depois que Jorge Tadeu morreu decidi que, por causa da minha idade avançada, não teria mais nenhum gato. Eles precisam de dedicação, carinho e muito amor, e eu não ousaria me doar a uma criatura que poderia me perder no meio do nosso caminho. Em vez de substituí-lo, preferi guardar para sempre a memória dos nossos dias juntos. Até hoje, na mesa de cabeceira do meu quarto, a única foto lá exposta é esta segunda na sequência que publiquei aí em cima, tirada na noite de Natal de 2001, na qual ele aparece comigo Depois que ele se foi mandei cremá-lo e guardoei suas cinzas.  Alguém dirá que isso é mórbido, porém, quando chegar a minha vez de ser cremado, já determinei através de documento reconhecido em cartório: quero que as cinzas de Jorge Tadeu estejam comigo.

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16 thoughts on “MEU MELHOR COMPANHEIRO”

  1. Moacir says:

    Uma linda declaração de amor aos gatos (quadrupedes), os mais amorosos, os mais fieis. Também tive o meu que se chamada Frederico. Uma homenagem a Fellini.

  2. Rosa Maria says:

    Só quem teve um gatinho sabe o que é! Esses bichinhos são especiais!!!

  3. Spectro-Méier says:

    Quem tem amor pelos bichos, é um ser humano mais feliz. Aliás, muitas vezes os animais são muito mais racionais e emotivos que os “humanos”. Já no meu enterro, quero muita música brega com direito a garçons servindo bebida de segunda categoria. Nada de tristeza. Só música, birita e comilança. Aliás, a famosa marchinha já dizia “… me enterre na cova funda, senão vem a caveira pra comer a minha bunda …”. Vamos que vamos.

  4. jacob says:

    Isso vai da uma boa novela

  5. Thaís says:

    Adorei sua história com os gatos. Sempre tive cachorro e adotei uma gatinha, pois eu antes indiferente aos felinos, passei a adorá-los. Parece que um feitiço caiu sobre mim. É um amor por eles que não se explica. Só sei dizer que é muito bom!

  6. Julielson Lima says:

    Fiquei muito emocionado com esse seu relato. Já o vi várias vezes falar desse gato, o Jorge Tadeu, porém nunca soube de todos esses detalhes. Não sei nem o que dizer. O nome disso é Amor. Simplesmente isso! Deus é tão maravilhoso que coloca esses seres em nossas vidas sempre com algum propósito, e esse propósito, somente cada um de nós no seu mais profundo interior sabe qual é…

  7. Sandra Haddad says:

    Eu já tinha uma grande admiração pela sua pessoa e o seu trabalho, Aguinaldo Silva.
    Agora, mais ainda.
    Que linda a convivência com o gato Jorge Tadeu!
    Ele esperou você para se despedir com o seu último miado e sopro de vida!
    Bárbaro! Gatos são milenares!
    Amo gatos
    Sucesso sempre!

  8. Marcílio Barreira says:

    Agnaldo, vi dia desses o documentário em vídeo sobre o jorna LAMPIÃO DA ESQUINA. Pensar que em 1978 você e seus companheiros jornalistas eram ativistas da causa gay a ponto de criar o primeiro jornal dedicado à classe… E foram até processados e presos por crime contra a Lei da Imprensa! Não entendo porque os ativistas homossexuais de hoje se mostram tão hostis a você, um pioneiro da causa. Você se sente magoado, ou injustiçado, por causa disso?

    1. Aguinaldo Silva says:

      Meu caro Marcílio, não me sinto magoado nem injustiçado. Não fui ativista gay nos tempos da ditadura com o objetivo de entrar para a história ou ser santificado pelos gays do futuro. Apenas registro que estes casais de meninos e ou meninas que andam de mãos dadas em público e trocam beijos em plena rua não fazem ideia do que é ter que correr da polícia ou ser preso por vadiagem apenas por dar um pouquinho que fosse de pinta. Hoje eles reclamam da falta de liberdade, mas não têm a menor ideia do que isso seja – porque, graças aos pioneiros dos anos de chumbo da ditadura – hoje são livres.

  9. maria da costa souto says:

    Fico pensando nesta sua tese segundo a qual só se pode ter um gato de cada vez (li uma declaração sua a respeito em algum lugar). A maioria das pessoas que gostam de gatos acham o mesmo. Eles são animais muito exclusivistas, não dá para dividir o amor com muitos deles. Eu cheguei a ter três gatos ao mesmo tempo, mas agora só tenho um – quer dizer, uma: Estrela, o amor da minha vida, meu e de meus dois filhos. Sua crônica sobre Tadeu me fez chorar.

  10. Jana Pereira says:

    Tenho medo de gatos. Eles parecem demais com as pessoas – são egocêntricos, esquivos, incapazes de amar. Prefiro os cães, que são fiéis e nunca nos abandonam. Já viu um cão seguindo seu dono sem teto pelas ruas de uma grande cidade? Aquilo, sim, embora triste é amor verdadeiro.

  11. Emanoel Reali says:

    Aguinaldo, publicam tantas mentiras sobre você e sua novela na internet que agora eu só leio as crônicas que você publica sobre ela aqui. Pelo menos sei que elas são verdadeiras.

  12. Jussara Beltrão says:

    Como era lindo o Tadeu! E como foi maravilhoso o encontro entre vocês dois. Fiquei emocionada.

  13. Adão Maciel da Silveira says:

    Louco para ver esta novela na qual um gato será um dos personagens principais. O que você vai aprontar dessa vez, meu querido e louco autor, sempre com esta alma de criança? Adoro suas novelas.

  14. Arthur Francis says:

    Felinos são seres mágicos, muito mais que duendes e gnomos!

  15. bernardete de lourdes bellangwro says:

    nossa eu sei o que é perder um grande amigo perdi 2 de uma so vez a dor vive no.meu peito desde 2016 e não passa de jeito nenhum .me arrumaram uma cadela vira lata .mas a saudade nao passa ela tenta coitada mas nao passa .Penso xomo.vc estou com 64 anos nao sei se vou ficar com ela ate o fimeles vivem em.media 14 anos e eu nao sou só. nao sei como vai sermas pingo e leo foram.meus melhores companheiros 14 anos juntos o cancer levou os de mim.saudades.

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