O BRILHO ETERNO DA ESTRELA

 

Em 2012 a repórter Simone Magalhães e o fotógrafo Francisco Patrício foram do Rio de Janeiro até um sítio na estrada Rio-Petrópolis para entrevistar uma das maiores atrizes da televisão brasileira de todos os tempos: Eloísa Mafalda. Já então aposentada por conta da doença de Alzheimer, Mafalda, que fez as inesquecíveis Maria Machadão (“Gabriela”) Dona Pombinha (“Roque Santeiro”) e Gioconda Pontes (“Pedra sobre Pedra”) entre outras personagens iconicas, falou aqui o que pôde… E esta foi sua última grande entrevista. Agora que ela morreu e sua imagem se mostra imorredoura no ecrã e na memória dos fãs, vale a pena republicá-la. Com vocês, Eloísa Mafalda em “O Brilho Eterno da Estrela”.

 

 

Se eu falar em Mafalda Teotto, dificilmente ligarão o nome à pessoa. Mas quem não conhece e adora o trabalho de Eloisa Mafalda? “Eloisa com ‘E’ porque achei que daria sorte!”, explicou, numa conversa informal, em sua casa, na serra de Petrópolis, RJ. E não é que deu sorte, mesmo? Uma das precursoras da TV no Brasil – tem até diploma comprovando isso -, com 36 novelas, seis filmes, uma peça de teatro e muitas, muitas gargalhadas, em mais de meio século de carreira. A caminho dos 88 anos (faz em setembro), essa paulista de Jundiaí convive com o Mal de Alzheimer. Mas, guerreira que é, não se abate: lança seu twin set azul, cordão de contas, brincos dourados, e fala de sua vida, que, segundo a amiga Janete Clair, falecida em 1983, daria uma novela. Mesmo tendo deixado a carreira e feito um cirurgia no fêmur, Eloisa Mafalda, que mora com a filha, Mirian, de 53 anos, está sempre arranjando o que fazer. Cuida dos cachorros, do jardim, sobe e desce escadas, e adora um bom papo. Mas conta com o apoio de Mirian. Quando as lembranças sobre algum assunto escapam é a filha quem dá o pontapé inicial na história, corrige um ou outro lapso de memória. Mas é Mafalda, com olhos vívidos, quem dá a última palavra. Determinada, no velho estilo Maria Machadão de ser. Aliás, o pouco que viu do remake de ‘Gabriela’ – ela dorme cedo -, foi suficiente para garantir sobre Ivete Sangalo: “Pra mim, ela não é Maria Machadão. Nem ali é o cabaré (Bataclã). Pra mim, não tem nada igual”.

Você fez seis filmes. O primeiro, Somos Dois (1950), de Milton Rodrigues, com diálogos do irmão, Nelson Rodrigues. Até chegar a 1998, quando contracenou com Ivete Sangalo, a atual Maria Machadão, de ‘Gabriela’, no longa ‘Simão, o Fantasma Trapalhão’.

É verdade… É ela quem está fazendo a Maria Machadão, agora, né?

É.

Mas bem diferente. Não lembra a outra. Pra mim, ela não é Maria Machadão. Nem ali é o cabaré (Bataclã). Pra mim, não tem nada de igual.  Ah… Eu adorei fazer a Machadão!

De onde vc tirou aquela macheza da personagem?

(Risos) Maria Machadão foi uma das poucas coisas que gostei de fazer na TV. A postura, o olhar, as sobrancelhas raspadas. Uma personagem de composição. As outras quase sempre tinham algo de mim. A Machadão, não. Era maravilhosa.

Você tem ciúmes de alguma personagem que já fez?

Não… Quer dizer… Só tenho ciúme da Nenê, de ‘A Grande Família’. Eu nem vejo o programa. A época do seriado foi maravilhosa. Os cacos que o (Jorge) Dória colocava eram muito engraçados! O Osmar Prado ia lá em casa, e eu me apeguei muito ao Luiz Armando Queiroz. Adorava ‘A Grande Família’, pelo lado humorístico. É claro que a Nenê era uma dona de casa, tinha os seus problemas, e essa parte eu fazia séria, mas sempre tentava levar para o humor, que era o que mais gostava de fazer.

 

Você fez várias beatas na TV.

Não gostava muito, mas como precisava trabalhar, ganhar dinheiro…

O Canal Viva vai reprisar o seriado ‘Delegacia de Mulheres’ (1990), no qual você fazia a delegada Celeste. Gostava dela?

Foi bem diferente do que normalmente eu fazia artisticamente. Foi interessante.

E a Gioconda, de ‘Pedra Sobre Pedra’ (1992), que matou o Jorge Tadeu (Fábio Jr.)?

Essa foi aquela novela que as mulheres queriam comer as folhas da árvore?

 Isso. E você era mãe da Úrsula, personagem da Andrea Beltrão…

Ah, gostei! E adoro Andréa Beltrão. Ela também estava comigo agora no reprise de ‘Mulheres de Areia’. É muito talentosa! E trabalhar com o Fábio Jr. foi ótimo.

Você fez 36 novelas, seriados, era amiga de todo mundo, mas não gostava de badalação, de sair à noite.

Eu ia para o trabalho, conversava, passava o texto com os colegas, gravava e ia para casa. Sempre fui muito careta. Nunca fumei, bebi, usei drogas, nada. Queria voltar logo para ficar com meus filhos.

Você casou-se com Miguel Teixeira, aos 35 anos, teve dois filhos, Mirian, 53 anos, e Marcos, 51, e separou-se após dois anos de união. Nunca mais se envolveu com ninguém?

Fui abandonada pelo marido e obrigada a ser sozinha, ser mãe e pai. Mas meu temperamento é corajoso. Meus filhos me chamavam de general (risos). Não me envolvi com mais ninguém, queria me dedicar a eles.

 

 

Você sempre foi determinada? Desde o começo da sua carreira?

Nunca imaginei ser atriz. Meu irmão, Oliveira Neto, era locutor da Rádio Difusora, em São Paulo.  E arranjou pra eu tr abalhar no escritório. Eu sabia datilografia, batia os papéis com os textos dos comerciais e levava para o estúdio. Ia cantando pelo corredor, sempre animada, e, às vezes, ficava um pouco por lá, conversando com o locutor. Até que um dia faltou alguém na radionovela e disseram: ‘Mafalda, faz aqui!’. Era ao vivo! E eu fui. Todo mundo adorou. As radionovelas estavam no auge na Rádio Nacional. Foi assim que tudo começou.

Nem pensava em atuar?

Queria ser campeã de natação. Em Jundiaí, no Colégio das Freiras Vicentinas, onde eu estudava, participava sempre das festinhas, era desinibida, gostava de aparecer (risos). Só que meus pais se separaram. Não foi aquela separação de briga, discussão… Um dia meu

pai sumiu. Ele era socialista, de vez em quando tinha que sumir para não ser preso. Mas, dessa vez, foi diferente. Ele nunca mais voltou. Eu e meu irmão, já locutor, nos mudamos para São Paulo em uma semana! Precisávamos ganhar dinheiro.

Não ficou com medo de atuar, ao vivo, no rádio?

Eu era metida pra burro! E deu tudo certo. Foi uma festa no estúdio. Teve um dia que fui fazer a mocinha da novela e houve a maior gafe. Um ator tinha que dizer: ‘Fulana, segura meu pai!’. Ele se confundiu e falou: ‘Fulana, segura meu pau!’. Imagina, no estúdio, ao vivo, não podia fazer nem um barulhinho. Soltei uma gargalhada… (risos). Foi assim que virei radioatriz, depois teleatriz.

E fazer novelas, sendo autodidata, foi difícil?

Não. Eu era craque em decorar texto! Tinha ótima memória. E Janete Clair me amava. Ela conhecia minha família.

No teatro, você só fez uma peça, O Ministro e a Vedete (1974), com Ary Fontoura. Por quê?

Acabava de gravar a novela, na Globo, no Jardim Botânico, saía correndo para o teatro, em Copacabana, me vestia para a peça no táxi. Era muita correria. E eu sempre dormi cedo. Não dava pra mim. Mas adorava contracenar com o Ary: foi amor à primeira vista! Teve uma história muito engraçada nessa peça. Cheguei correndo da gravação, como sempre, terminando de me aprontar, entrei rapidamente em cena. Enquanto o Ary estava num sofá, na frente do palco, fingindo que lia o jornal, eu tinha que ir até a gaiola de um papagaio cenográfico dar minha fala. Só que quando cheguei lá, só estava a cabeça do bicho pendurada, e o resto do corpo caído. Eu não podia pegá-lo. Fiquei nervosa. Fui até o Ary, dei um ataque, comecei a sacudi-lo: ‘Me ajuda! O que é que é que eu faço? Você não vem ajudar, não?’. E ele rindo, atrás do jornal. Comecei a rir também. Rimos tanto que baixaram o pano. Mas depois a peça voltou (risos). Imagina, né?

Antes você fez Bandeira 2 (1971) com o Ary. Ele foi seu melhor par?

Foi. Eu amava o Ary. E o Ary, a mim! Ele é tão carinhoso, cuidadoso comigo. Se ele quisesse, eu me casava com ele (risos). Até hoje, a gente bate um papinho por telefone.

A propósito, vocês tinham umas cenas bem ousadas para época… O Ary fazia um comandante muito sério, que pedia à sua personagem, esposa dele, para vestir umas fantasias sensuais…

Ih, tem a história do camburão!(risos). Uma vez, na cena, ele combinou de me encontrar numa praça, vestida de prostituta. Ia passar de carro e fingir que era um cliente. Só que o camburão da polícia pegava a gente. Deu tudo certo na gravação, ficamos lá na parte de trás do camburão, espremidos, testa com testa. E o tempo passando… E eu com medo de lugar de fechado. Até que, depois de um tempão, o Ary disse: ‘Mafalda, esqueceram de nós, aqui!’. E começamos a bater na porta e gritar. Aí, o pessoal, que já estava gravando outra cena, lembrou-se de nós e fomos ‘soltos”!(risos).

 

 

São tantas histórias… Não sente falta de trabalhar?

Não, nem um pouco.

Por que deixou a televisão?

(Para a filha) Mirian, quando foi que eu deixei de ser Eloisa Mafalda?

Mirian – Em 2002, quando você estava fazendo ‘O Beijo do Vampiro’ e não conseguia memorizar o texto. Achava que estava atrapalhando os colegas.

Mafalda – Isso! Não me divertia mais, ficava tensa e estava atrasando os atores que tinham teatro depois da gravação. Foi melhor assim.

 E o que você faz hoje?

Cuido dos cachorros (quatro vira-latas) e das plantas. Tudo isso veio do meu trabalho (aponta para o sítio), me dá muito orgulho. Quando vim morar aqui, há cinco anos, um dos cachorros pulou em cima de mim e caí no chão. Ele veio me dar boas vindas e acordei no hospital (risos). Quebrei o fêmur! Dói ainda, mas o pior já passou.

Você tem medo de alguma coisa? Da morte, por exemplo?

Não… Sou curiosa em relação à morte. Não quero é ficar aquela velha surda, ranzinza, dependente dos outros. Quero continuar dando minhas gargalhadas!(risos)

 O que lhe dá tanta força? É religiosa?

A vida toda fui espírita. Agradeço sempre a Deus, e só peço saúde para minha família. Ele me ajudou muito, a deixar de ser orgulhosa, a tirar a raiva do meu coração… Depois de 30 anos sem ver meu pai, fui procurá-lo. Ele vendia bilhete de loteria em uma rua em São Paulo, e já tinha uma nova família, com filhos adolescentes. Consegui levar minha mãe para conhecê-los. Depois de alguns anos de separação, reencontrei meu ex-marido, que também tinha outra família. Conversamos, e ele passou a vir em casa. Veja você… Meu pai e meu marido me abandonaram, superei e tive a chance de ajudar os dois financeiramente. Hoje, estão enterrados no meu jazigo, em Jundiaí. Como dizia Janete Clair, minha vida daria uma novela.

 

 

NA SAÍDA

Antes de o fotógrafo Francisco Patrício e eu irmos embora, uma deliciosa torta de nozes com fios de ovos e refrigerantes esperavam por nós, na sala de jantar. Mafalda e Mirian, que nos acompanharam nas calorias a mais, rememoraram antigas férias na Europa e nos EUA. Enquanto a filha contava as peripécias da dupla em Nova York, a mãe dava suas gostosas gargalhadas. Na hora de sair, a eterna Maria Machadão me perguntou:

–                  Já vão? Mas vocês voltam, não?

–                  Em 2014, para sua festa de 90 anos. Já me convidei – brinquei.

–                  Eu vou esperar, hein! – retrucou, ela.

 Eu também, Mafalda. Eu também. 

5 thoughts on “O BRILHO ETERNO DA ESTRELA”

  1. Julielson Lima says:

    Que linda ! Um ícone…

  2. Simone Magalhães says:

    Foi uma entrevista emocionante. Até porque meu pai, na época, estava na mesma situação da Eloisa Mafalda. Mas tentei buscar ânimo, histórias pra cima. Eu me lembrei de uma daquelas enquetes com vários atores sobre novelas marcantes, que, nós, jornalistas sempre fazemos. Ela estava em Mulheres de Areia, e aproveitei para perguntar sobre uma trama marcante. Mafalda quis citar várias, mas acabou falando sobre Saramandaia, das “estranhezas” da história, de sua personagem, a Maria Aparadeira, mãe da Marcina (Sonia Braga), que pegava fogo. E ela deu detalhes, riu muito… Na entrevista de 2012, tentei lembrá-la daquela conversa.Mas o Alzheimer já tinha tirado Saramandaia do mapa. Eu quis tanto voltar no tempo, naquela conversa gostosa com a Eloisa Mafalda que conhecia, e comecei a cantar: “Eu sou o estopim da bomba/É você quem me faz ser assim/Se não quer ver o estouro da bomba/Não encosta esse fogo em mim…”, tema da Marcina, que a própria Sonia cantava na trilha. Eu parecia uma maluca cantando a música na sala dela, emocionada, tentando fazê-la lembrar-se. E Mafalda me olhando, mas não me vendo. Foi o momento mais difícil pra mim.

  3. Spectro-Méier says:

    Atriz com letra maiúscula.

  4. Raimundo Nonato dos Santos says:

    Maravilhosa essa reportagem. Uma linda homenagem a esta grande atriz que nos deixou mas sua marca registrada, suas personagens ficarão sempre em nossa memória. Descanse em Paz, Eloisa Mafalda.

  5. Paula Neves says:

    Saudade, saudade.

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