LIVROS PARA LER NO TRONO

 

Acordo às 3h50m da madrugada prestes a satisfazer de modo irrefutável uma necessidade extrema. Sinto que não tenho mais de 50 segundos para chegar no banheiro e assumir o trono. Mas como não consigo fazer esse tipo de operação sem ao mesmo tempo me entregar à leitura, procuro em torno alguma coisa para ler. O Ipad com a nova edição da Veja eu esqueci na sala. O livro de Stella Adler sobre Ibsen, Strindberg e Chekov deixei na marquesa do escritório. Abro a gaveta dos remédios desesperado e lá encontro o que preciso: não uma poderosa droga que me cure da dor de barriga, mas o volume I dos Contos Completos de John Cheever.

Com o livro de 410 páginas nas mãos corro para o banheiro… E chego lá no ultimíssimo segundo. A necessidade se esvai como se fosse uma tsunami enquanto eu abro o livro na página onde parei a leitura há alguns meses e a reinicio. O conto se chama “Clancy na Torre de Babel”. E como quase tudo que Cheever escreveu, é uma obra prima. Sua leitura é tão absorvente que, até terminá-la, não consigo nem pensar em me levantar do trono.

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Não, vocês não encontrarão este livro de John Cheever no Brasil, onde, aliás, esse autor fulcral, imprescindível, foi pouquíssimo editado. No lugar dele, nas cada vez em menor número livrarias do nosso país só lhes restará como consolo os livros escritos pelos ghost writters dos Youtubers.

Não vou dizer do que trata “Clancy na Torre de Babel”. Adiantarei apenas que ele fala sobre a descoberta traumática do amor que antigamente não ousava dizer seu nome feita por um imigrante irlandês, subempregado em Nova Iorque e para quem, até então, essas coisas só poderiam existir num planeta distante e amaldiçoado ao qual ele deu o nome emblemático de “Sodoma”.

Sempre sentado no trono, levo exatos vinte e oito minutos para ler e reler mais esta obra prima de John Cheever (na foto abaixo), cujos contos leio como se tomasse pílulas, um a cada alguns dias ou meses, num processo em que já levo dois anos. E sempre em Portugal, onde o livro foi editado e onde o mantenho por ser  um volume muito pesado.

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De volta à cama, depois que a urgência intestina passou e já me sentia mais relaxado, pensei: “vou voltar a dormir como se fosse um anjo”. Mas não consegui. Pois a história de James Clancy, imigrante irlandês e ascensorista num grande prédio de apartamento do East Side no qual mora o outro personagem da história, o solteirão sr. Rowantree, não me saiu mais da cabeça.

Acho, sim, que esta deve ser a principal função da literatura: nos tirar o sono. Fazer com que a gente não pare de pensar no que acabou de ler e a relação daquilo que foi lido com nossas vidas. Por isso não me aborreci nem um pouco por continuar insone, a pensar e pensar em Clancy e Rowantree (e mais o amante deste, Bob, por conta do qual o coitado tenta o suicídio três vezes) até que amanheceu em Lisboa.

Por coincidência, naquele dia em que a urgência intestinal me levou de volta a Cheever, eu tinha passado pela FNAC e comprado dois livros, que agora estão na fila de mais de 200 que pretendo ler antes que, pelo menos para mim, se apaguem todas as luzes.

Quais são eles? Eu lhes digo e recomendo – mas com a mesma ressalva que fiz em relação a Cheever: será um milagre se forem publicados no Brasil: o primeiro é “Outras Pessoas”, de outro autor fulcral, o inglês Martin Amis. E o segundo é “Um Cavalo Entra num Bar”, do israelita David Grossman, que ganhou o prêmio Man Booker Internacional de 2017.

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A moral dessa história? É simples: não se deve dispensar uma boa leitura nem mesmo quando se é acometido por uma violenta dor de barriga.

2 thoughts on “LIVROS PARA LER NO TRONO”

  1. Filipe do Vale says:

    Verdade. Mas você citou: ” Ipad com a nova edição da Veja”, o que me faz te perguntar: você já leu algum romance em e-Book? Se sim, o que prefere? O físico ou digital?

    1. Aguinaldo Silva says:

      Não, querido, nunca li nenhum livro no e-book. Assino a Veja no Ipad porque viajo muito e já não se compra a revista fora do Brasil. Livro para mim tem que ser físico.

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