PARA SEMPRE “VALE TUDO”

 

Nunca antes, na história deste país, um trio de novelistas tão diferentes entre si deu tão certo. Gilberto Braga era o porta-voz oficial da classe média pra cima até chegar à altíssima. Eu adorava cozinhar de pés descalços na minha ou em qualquer cozinha. E Leonor Bassères, a pessoa mais fina e bem educada que já conheci, era uma senhora malandra, moradora de Copacabana, que já passara por tudo na vida… E sobrevivera linda e loira.

A ideia de nos juntar foi do Boni, é claro. O grande homem que, segundo um amigo meu (que prefiro não nomear), se aposentou da televisão porque continuou grande, mas ela ficou pequena. E o resultado deste encontro foi “Vale Tudo”, que vocês poderão rever, reprisada pela segunda vez (agora no Canal Viva) a partir desta segunda-feira.

Não foi nada fácil escrever a novela. Eu morava no Jardim Oceânico, bairro ainda em construção na Barra da Tijuca; Gilberto numa cobertura no Flamengo e Leonor num apartamento no qual me perdi duas vezes no seu bairro querido e eterna fonte de personagens e tramas que era e ainda hoje é Copacabana.

Naquela época não havia computador, a internet não existia nem nos livros de ficção científica o descalabro que era a telefonia fixa, a cargo de uma estatal chamada Telerj (que o Diabo a tenha), fazia com que qualquer um que quisesse comprar um telefone o fizesse pagando sete mil dólares (sim, eu escrevi sete mil dólares) no câmbio negro.

Além disso tínhamos horários díspares. Gilberto dormia às 6h da manhã e acordava às 18h. Eu, madrugava como sempre: acordava às 6h e ia dormir à zero hora. E Leonor… Bem, me parece que ela não dormia, pois estava sempre elétrica, pimpona e saltitante. Nossas reuniões eram na casa do Gilberto. Eu chegava mais cedo para evitar o trânsito, ia até a Churrascaria Gaúcha, comia uma baita de uma picanha regada a duas caipirinhas e, ligeiramente bêbedo, chegava pontualmente às 18h para a nossa reunião de trama e era recebido pelo mordomo Ângelo, que anunciava:

“O dr. Gilberto já está acordando”.

E eu ficava plantado lá na sala, junto com Leonor a olhar um pra cara do outro depois de esgotar todos os assuntos… E às vezes tínhamos a impressão que o dr. Gilberto não ia acordar nunca!

Fazíamos uma reunião por semana. Tínhamos o mesmo peso criativo, mas era Gilberto quem redigia o resumo do bloco que íamos escrever na semana. Primeiro problema: ele só conseguia aprontar o bloco de madrugada e era preciso que eleestivesse na minha casa quando eu acordasse, pois era eu quem fazia as escaletas e distribuía as cenas (quem ia escrever o quê).

Para fazer a ponte entre nós a Globo contratou um rapaz, de codinome Caju, que morava em Nova Iguaçu, e que, nas sextas-feiras, ficava plantado feito um pé de bananeira na casa de Gilberto à espera de um “resumo do bloco” que não saía nunca e às vezes só chegava em minha casa depois que amanhecera.

Como o meu prédio não tinha porteiro, nas sextas-feiras eu não dormia. Descia até a portaria de meia em meia hora, com medo que algum vizinho, de pura maldade, pegasse o envelope com o tal bloco da semana e o jogasse fora. Uma vez ele realmente não chegou e eu achei que isso tinha realmente acontecido… Até que, por volta das 7h da matina, o coitado do Caju chegou e me entregou o envelope… E dele eu retirei a folha de papel na qual Gilberto escrevera duas parcas linhas:

“Guigui, esta semana estou sem inspiração, pega a história da maionese e te vira”.

Prestem muita atenção, queridos: a partir destas duas linhas eu teria que produzir seis capítulos de novela.

A história da maionese, que rendeu uma semana de capítulos – não vou contar qual é pra não estragar a surpresa de quem ainda não viu a novela – foi responsável pela minha primeira crise hipertensiva e me levou a ficar um dia e meio na Casa de Saúde São Bernardo, então o único hospital decente a que se podia recorrer na Barra da Tijuca.

“Vale Tudo” foi o que foi: uma novela. E a novela, meus caros, mais que qualquer outra coisa nesse ramo a que chamamos de “arte”, é o retrato mais fiel dos usos e costumes da realidade brasileira. Me apontem um livro (um só), ou um filme, ou uma peça de teatro que, nos últimos trinta anos, tenha conseguido retratar o drama brasileiro com mais fidelidade e força do que esta novela.

Eu sempre digo que, daqui a cem anos, quando alguém quiser saber como era o Brasil da segunda metade do século XX, não vai perder tempo lendo livros de sociologia ou antropologia ou filosofifia, não: vai beber direto na fonte… E a fonte são as telenovelas.

Além de divertir pra caramba, Vale Tudo, escrita em 1988, aponta os trinta dedos dos seus três autores diretamente para o Brasil de agora. A canalhice já estava lá, ainda dentro do ovo da qual sairia toda essa vasta família de serpentes de serpentes com que agora somos obrigados a conviver.

Sim, “Vale Tudo”, como tantas outras novelas, será eterna. E eu sinto o maior orgulho de tê-la escrita junto com Gilberto e Leonor, que, naqueles meses de 1988 em que passamos juntos por tantas (des)aventuras, foram meus irmãos queridos… E, mesmo que Leonor não esteja mais entre nós, continuam sendo até agora.

16 thoughts on “PARA SEMPRE “VALE TUDO””

  1. Alan says:

    Que texto maravilhoso ! Vou acompanhar pela primeira vez esse novelaço no Canal Viva a partir de hoje. Eu tenho um pequeno livro dessa novela que ja li duas vezes.
    Parabens Aguinaldo por ser esse mestre das telenovelas, que venha sua novela em novembro.

  2. Spectro-Méier says:

    E olha que continua valendo de tudo na base da canalhice. E arrisco dizer que um dos primeiros “memes”, ainda na era do ‘fac símile’ (ou simplesmente fax), foi a banana dada nas nuvens por um certo personagem (que vou preservar aqui para quem ainda não sabe do que se trata). E, para efeito comparativo, um telefone fixo naquela época valia “ouro” mesmo, como bem apontou o homem da cabeleira prateada. Era quase o preço de um carro (acreditem !). Tinha também as fichas telefônicas, que eram juntadas aos montes para manter “viva” uma ligação pelo Orelhão da famigerada Telerj. E o computador ? Necas de pitibiriba. Era na base da Olivetti mesmo. Cada correção era via “liquid paper”. E tome vale este” … Ah, o Cajú corresponde hoje ao que podemos chamar de “homem de confiança”, aquele que tem o lema de ‘missão dada é missão cumprida’. E ‘ai’ dele se não cumprisse. Os memorandos do Bonifácio eram o assim chamado “esporro” datilografado. Ou então ter uma “conversa ao pé do ouvido” com um baixinho de quase 2 metros que atendia pelo singelo nome de Artilheiro. Mas vale ressaltar que também haviam muitos memorandos elogiosos, dignos de irem parar nas molduras que faziam parte da decoração de certas salas. Dito isso, vamos que vamos ! E vale tudo, já dizia o saudoso Tim Maia ! Valia até camisas da “Yes Brazil” mega estampadas.

  3. Jonas Bravo says:

    Aguinaldo, meu caro, você já pensou em escrever sua história pessoal da telenovela brasileira a partir dos anos 70 até os dias atuais. Você viveu essa época e fez história. E sabe contar histórias como ninguém, não só em suas novelas, mas também em seus livros e suas crônicas. Esta sobre “Vale Tudo”, por exemplo, é deliciosa. Que ta fazer isso, de preferência em videos? Fica a sugestão.

  4. Ludilene Dantas says:

    Ai, que inveja que eu tenho. Desfrutar da hospitalidade do dr. Gilberto levado pela finesse do mordomo Ângelo devia ser o máximo. Mas eu me lembro de uma vez ter lido uma reportagem sobre mordomos de famosos no jornal O Globo no qual este mesmo Ângelo dizia ter vergonha da profissão de mordomo, tanto que, quando lhe perguntavam o que fazia na vida, sua resposta era: “sou camelô”. Já viu, não é?

  5. Eliane Macedo says:

    Eu fui enfermeira na São Bernardo e me lembro que você entrou muitas vezes lá com problemas de pressão alta. Mas a vez que eu nunca vou esquecer foi quando você entrou lá com uma hemorragia leve num vaso… Do saco. Parece que você depois do banho esfregou a toalha com muita força, o vaso se rompeu e não parava de sangrar, levaram você à São Bernardo. E a notícia se espalhou pelos corredores: “o autor da novela deu entrada com uma hemorragia no saco!” Sei que você não vai publicar este meu comentário, que é indiscreto demais, porém fica a lembrança. Sou sua fã até hoje. Beijos!

    1. Sidney says:

      Hemorragia no saco! Essa foi boa kkk

  6. Jon Snow says:

    Vem cá, Aguinaldo, você jura que tudo isso é verdade ou faz parte de sua próxima novela. Que imaginação da porra!

  7. Daniela Teixeira says:

    Já tinha visto a novela duas vezes, vou ver de novo agora. Tenho certeza que vou continuar adorando Vale Tudo, para mim a melhor novela de todos os tempos.

  8. Maria Aparecida Rodrigues says:

    Aguinaldo assisti essa novela há 30 anos atrás, e concordo com você, Vale Tudo está mais atual do que nunca. Sou noveleira e estou ansiosa pela estreia de O sétimo guardião.
    Um grande abraço.

  9. Paulo Henrique says:

    Obrigado por compartilhar estas histórias de bastidores. “Vale Tudo” é a melhor novela que assisti. Diálogos incríveis, personagens envolventes e boas tramas. E que benção, hein, Aguinaldo! Passaram-se 30 anos, e você continua forte e saudável para encarar a escrita de mais uma novela das 9.

  10. Julielson Lima says:

    VALE TUDO! Que clássico. ainda ei de ver na íntegra capítulo por capítulo . Está na minha lista de coisas para fazer nessa vida (risos) .
    Ps:. Adorei o seu post de alguns dias atrás. Quando você fala com o seu diário. Não deu pra comentar por causa da correria. Mas deixo aqui registrado. Faz mais!!! 🙂 Abraço .

  11. Cel Ramazzotti says:

    Vale Tudo foi a novela que mais gostei, e claro Tieta também! Parabéns Aguinaldo!!! Adoroooo!!!!

    1. Aguinaldo Silva says:

      Obrigado, querido. Procuro dar o melhor de mim para alegrar vocês que gostam do meu trabalho.

  12. Spectro-Méier says:

    Da série “perguntas jamais feitas ao homem da cabeleira prateada”: Aguinaldo, na hora do jogo do Brasil você dá uma pausa na criação da novela para assistir e torcer ?

    1. Aguinaldo Silva says:

      Meu caro Spectro, só vejo os dez minutos dos jogos do Brasil na Copa do Mundo. Depois de tantas copas – a primeira que vi foi a de 1954 -, cansei de sofrer. Meu coração já não aguenta tanta tensão.

  13. Guilherme says:

    Falta um papo firme com o Gilberto Braga, seria incrível, para coroar esses 30 anos de Vale Tudo. Seria possível?

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