UMA VIDA EM 100 MIL PÁGINAS

 

O ano era 1954 e eu tinha onze anos. Minha família deixa a cidade de Carpina, onde eu vivera até então, e que me rendeu material para todas as minhas novelas de realismo mágico – incluindo a próxima,  O Sétimo Guardião – e mudou-se para a casa mais modesta, de número 144, da Rua do Cupim, num bairro de classe média chamado Aflitos, no Recife.

20180926_095039

A casa, em que apareço na foto aqui publicada, não tinha na época a fachada de mármore que hoje ostenta. Era tão modesta que chegava a destoar das outras moradias da rua. Os vizinhos, e principalmente os garotos da minha idade ou um pouco mais velhos, logo perceberam duas coisas que nos tornavam “diferentes”: nós éramos pobres. E eu era “esquisito”. Lembrem-se que eu tinha onze anos. Quando fiz treze o “esquisito” já se transformara em “frango”, que era a palavra usada em Pernambuco para designar “veado”.

“Bota água no fogo pra pelar o frango!” – gritava a turma que se reunia todas as noites numa das esquinas da rua quando eu passava. E eu fazia o que minha mãe, dona Maria do Carmo Ferreira da Silva, ordenou: “finge que não escuta”.

Foram muito difíceis aqueles anos que passei na Rua do Cupim tendo que ouvir todo tipo de acusações e insultos… Mas eles foram também muito prazerosos. Pois na casa ao lado da minha morava uma família de crentes cujo chefe tinha uma portentosa biblioteca da qual sua filha, Glyce, de vez em quando sacava um livro e me emprestava. Li “Madame Bovary” aos treze anos e chorei feito um louco por causa de Ema, pois achei que, em sua loucura, ela estava certíssima… E felizmente ainda acho isso até hoje.

Repudiado pelos outros meninos da minha idade, visto com suspeita pelos adultos, eu me refugiei nas leituras primeiro e depois na escrita. Eu “brincava” de escrever. Fazia isso compulsivamente, sem ter ideia de que, um dia, eu chegaria onde cheguei, embora ainda não saiba o que isso significa. O fato é que, quando preencho uma ficha de hotel ou de crédito ou do que seja, no ítem “profissão” eu escrevo sempre: “escritor”.

E faço isso não por um orgulho especial, mas porque se trata de um fato. Desde aqueles meus treze anos na Rua do Cupim, 144, entre livros, novelas, séries, minisséries, peças de teatro, crônicas, artigos e reportagem eu já escrevi mais de cem mil páginas. E, aos 75 anos, escrevo todos os santos dias, sem falhar carnaval, Natal, Ano Novo ou qualquer feriado.

Não preciso fazer como o General Coriolano da tragédia de Shakespeare e ir à praça pública mostrar minhas muitas cicatrizes. Minhas 14 novelas e meus 16 livros estão aí para isso. Se empilhasse todas as páginas que escrevi eu precisaria de uma sala para guarda-las todas. Eu sou o que sou: um escritor. E isso não é nada demais – é apenas um fato provado e comprovado.

IMG_20180805_132707_917

Sempre que vou ao Recife, faço questão de ir na Rua do Cupim e me faço fotografar diante do número 144. Não por vaidade, nem para relembrar aos que me leem onde cheguei, mas sim para lhes dizer: “olhem de onde saí”… E para repetir o que sempre digo aos meus alunos da master-class: ser ou tornar-se um escritor é muito difícil. Tanto que só possível àqueles que, dispostos a tourear a profissão, o façam com talento, concentração e foco. Quanto ao ressentimento, à inveja ou o ódio puro e simples, esqueçam, porque estes só os conduzirão ao esquecimento. Deixem-nos de lado.

 

15 thoughts on “UMA VIDA EM 100 MIL PÁGINAS”

  1. Marco Bittencourt says:

    Certamente da um romance, uma novela ou até mesmo uma canção.

  2. Spectro-Méier says:

    Aguinaldo, hoje em dia você ainda encararia uma Olivetti, daquelas manuais ? Já mediste quantos “bpm” és capaz ? Vamos que vamos.

  3. Luisa Maciel says:

    Vi o José Loreto fazendo propaganda de sua novela nem Espelho da Vida. Fiquei ainda mais ansiosa para ver O Sétimo Guardião. É verdade que depois dessa você não vai escrever novelas? Os fofoqueiros da tevê e dos sites escrevem de tudo sobre você, Aguinaldo, acho que é porque você dá audiência. Você devia era cobrar cachê deles.

  4. Luisa Maciel says:

    E esse gato da novela, como ele é lindo, que olhos expressivos. É verdade que é uma gata? Acabei de ler no UOL que, no final da novela, ele vai ficar para você.

  5. Jonas Maurício says:

    Agnaldo, me diga tudo e não me esconda nada: é verdade que o gato da novela vai se transformar em Du Moscovis? Como e quando será essa transformação, você já pode dizer pra gente. Moro em Petrolina, Pernambuco, e sou seu fã desde pequeno. Quando Soube que estavam gravando Senhora do Destino em Belém de São Francisco fui lá para ver…

  6. Gabriela Santana says:

    Cem mil páginas? Meu Deus, para fazer isso você deve até ter desistido de ter uma vida própria. Acha que valeu a pena? Quem vê suas novelas não tem ideia do sacrifício que você fez para escrever todas elas com tanto empenho. Bravo, Aguinaldo.

  7. Lalalarosa says:

    Como pode escrever tanto? Deve ser uma doença, sei lá, uma comichão que dá em você.

  8. Lalalarosa says:

    Eu não vejo novelas, só as suas… Para falar mal depois. E pode me chamar de invejosa e despeitada na sua resposta, não estou nem aí.

  9. Marcos Ladeira says:

    Para fazer a alegria dos seus leitores você renunciou à vida! Isso é muito bonito. Eu, que me há anos me divirto com suas histórias, fico muito agradecido.

  10. Spectro-Méier says:

    Aguinaldo, quando está sozinho em casa você dança até se acabar em suor ao som de Raça Negra, Beto Barbosa e Molejão ?

    1. Aguinaldo Silva says:

      Não, eu gosto de armar a pose dançando o Vogue de Madonna.

  11. Spectro-Méier says:

    Existe a possibilidade, algum dia, das novelas terem um número menor de capítulos para que não ocorra a famosa “barriga”, seja ela na trama principal ou mesmo em núcleos que podem não andar bem das pernas ? As emissoras tem que faturar e é compreensível um número até então “alto” de capítulos, mas será que não é discutido essa possibilidade entre os executivos de plantão ? Ou toda novela (que é novelo) é obrigatoriamente uma narrativa clássica hiper mega tradicionalíssima e em time que está ganhando não se mexe ? O autor quebra a cabeça tentando montar a história e tenho quase certeza que, se tivesse uma trama mais enxuta, teria mais êxito. Mas quem seu eu na fila do banco ? Só um mero telespÉÉÉÉctador. Eis as questões … Tô certo ou tô errado ? (balançando as pulseiras estilo Chico Malta).

    1. Aguinaldo Silva says:

      Meu caro Spectro-Meier, o problema é econômico. Se fosse encurtada, a novela das 21, por causa do esmero na produção, que eleva seus custos, daria prejuízo. Por isso ela precisa ser longa – para se pagar e dar lucro. Aliás, este é o problema das séries no Brasil. Elas são super bem produzidas, gasta-se muito com elas, mas o fato é que não se pagam. Por isso, no Brasil, para desgraça minha, que estou condenado às novelas, o futuro da teledramaturgia ainda passa pelo gênero.

  12. Filipe do Vale says:

    Falando em esquisitice, já fui mais do que sou hoje. Antes eu era cabeludo, magro, negro (ainda sou), fui até corno. Na época aquilo não era tão triste,como é hoje quando me lembro, porque eu me esforçava a não me importar, pois eu sabia que tudo ia passar. Nada dura para sempre, né?
    Mas, mudando de assunto… Talvez não seja assim que você pensa, mas gosto de pensar que você criou o “Aguinaldoverso”: um universo fictício onde acontece todas as histórias que você escreveu. E eu amo essa coisa de universo fictício, que está na “moda”, como o MCU (UCM em Português: Universo Cinematográfico da Marvel). Você conhece? O que acha deste UCM? E se a Globo fizesse o mesmo com as novelas que produz?

  13. Leonardo Ferreira says:

    Oi, Aguinaldo. Eu enviei um e-mail pra você pelo contato desse site sobre a minha peça de teatro. Bem que você poderia me responder. Sempre acompanho os seus trabalhos, muito boa sorte com a sua nova novela. Por favor me responda lá. Um abraço.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *